Os Wesleys e o Canto Congregacional – Rolando de Nassau

(Especial para Hinologia Cristã)

As formas de culto e o canto congregacional, nas igrejas protestantes e evangélicas, devem à influência de Martin Luther, Jean Calvin e os Wesleys.

No fim do século XVII, os Quacres, Presbiterianos, Batistas e Congregacionalistas estavam formalmente separados da Igreja da Inglaterra, mas passaram a gozar, pelo Ato de Tolerância Religiosa, de certos direitos (ver: Hill, Christopher, The Century of Revolution: 1603-1714. London: Routledge, 1980).

Havia entre eles objeção não somente à música instrumental na igreja, mas também ao canto congregacional. No princípio do século XVIII, a hinodia entre os Congregacionalistas e os Calvinistas Presbiterianos ganhou adeptos. Foi o movimento metodista que, a partir de 1740, fez com que os Não-Conformistas adotassem a hinodia. Além disso, um descendente de Não-Conformistas, Samuel Wesley (1662-1735), crente fervoroso  que frequentava a Igreja Anglicana em Epworth, mas que em 1702 organizou uma sociedade religiosa, livre e entusiasta, contribuiu, mais decisivamente através de seus filhos, John e Charles, para o reavivamento espiritual do começo do século XVIII.

Nessa época, Johann Sebastian Bach e Georg Fried-rich Haendel eram os maiores compositores de música sacra.

Haendel compôs três melodias para os Metodistas. John Wesley apreciava muito o oratório “Messias”.

Desde 1729, John (1703-1791) e seu irmão mais moço Charles (1707-1788) atuavam em Oxford como membros do “Clube Sagrado”; porque estudavam metodicamente conforme os estatutos da universidade, eram conhecidos como “metodistas”…

John tinha sido ordenado, em 1724, ministro da Igreja Oficial da Inglaterra; Charles, em 1735. Nesse ano, o governador James Oglethorpe foi à Inglaterra e convidou John a pregar para os colonizadores da Geórgia, na América. Os Wesleys, indicados por uma sociedade evangelizadora, em 1736 foram à colônia inglesa na Geórgia. Na viagem, conheceram crentes morávios e seu canto congregacional. Inspirado pela hinodia do congregacionalista Isaac Watts (1674-1748), que pertencia a um dos grupos evangélicos que não se conformavam com a existência de uma Igreja ligada ao Estado, John começou a traduzir alguns hinos alemães para a língua inglesa (ver: “Give to the Winds Yours Fears”, “Jesus, Thy Boundless Love to Me” e “O Thou to Whose All-Searching Sight”), que foram publicados em 1737 (“A Collection of Psalms and Hymns”) em Charlestown.

Charles pouco depois retornou à Inglaterra, entrando em contacto com um grupo de morávios em Londres, e foi proi-bido de pregar nas paróquias anglicanas. Depois de dois anos na Geórgia, John também voltou para a Inglaterra.

Em 1738, os irmãos Wesleys decidiram devotar-se à atividade evangelística independente, embora continuando leais à Igreja Oficial da Inglaterra. Tal como tinha acontecido 220 anos antes com Lutero em relação à Igreja de Roma, os Wesleys não tinham o propósito de romper com a Igreja da Inglaterra. Charles sempre foi mais conservador que John.

Houve anglicanos que simpatizavam com o Metodismo; entre eles, os hinógrafos John Newton (1725-1807) e William Cowper (1731-1800); Augustus Montague Toplady (1740-1778) foi um severo crítico da teologia de Wesley. Uma das mais célebres melodias do século XVIII foi “Miles Lane” (ver: “Baptist Hymnal”, no. 42), de William Shrubsole, para o hino de Edward Perronet, “All Hail the Power of Jesus’ Name”. De 1739 até 1779 as sociedades metodistas dos Wesleys, na Grã-Bretanha, e de George Whitefield (1714-1770), na América, permaneceram na Igreja Anglicana.

Estima-se que John pregou mais de 40 mil sermões (ver: John Wesley. Sermões. São Paulo: Imprensa Metodista, 1954), tendo escrito 27 hinos, originais e traduções. Charles escreveu mais de 6.500 letras de hinos, que foram incluídas em 56 coletâneas publicadas pelos Wesleys (ver: “Cantor Cristão”, nos. 27, 101 e 326; “Hinário para o Culto Cristão”, nos. 96 e 334; “Baptist Hymnal”, nos. 23, 50, 58, 69, 79, 83, 114, 115, 120, 172, 224, 292, 326, 407 e 470). Os Metodistas eram bem conceitua- dos na Inglaterra por causa de sua música sacra (ver: Rolando de Nassau, Introdução à Música Sacra. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 1957, pp.50-55); entretanto, o uso do órgão e o canto coral eram desencorajados.

“A Collection of Tunes as they are sung at the Foundery” (coleção de melodias como são cantadas na Fundição) foi a primeira coleção de melodias para as letras de hinos dos Wesleys publicadas na Inglaterra, em 1742. A “Fundição” era a sede do movimento metodista, localizada num subúrbio de Londres; foi comprada do governo por John; próximo fica o cemitério onde foram sepultados Susanna Wesley, Isaac Watts, John Bunyan (1628-1688), William Shrubsole (1760-1806) e John Rippon (1751-1836).

Seguiu-se, em 1746, “Hymns on the Great Festivals and Other Occasions” (Hinos para as grandes festas e outras ocasiões), com 24 melodias de John Frederick Lampe; essa coletânea contém hinos que se incorporaram no folclore americano.

As “spiritual songs” (canções espirituais) foram um resultado do Reavivamento Espiritual do começo do século XVIII, em seguida às revoluções na Inglaterra, que atingiu a América através de Whitefield e Jonathan Edwards.

Em 1784, John Wesley escreveu a respeito da continuação do movimento metodista e ordenou presbíteros. Em 1795, após a morte de Wesley, os Metodistas se separaram da Igreja Anglicana.

Os Wesleys demonstraram pendor pela hinodia pietista dos morávios;  depois tornaram-se admiradores da música religiosa erudita (Bach, Haendel, Mozart, Haydn).

John Wesley proibiu expressamente o uso de “vãs repetições” e de ornamentações no canto congregacional. Em 1761 publicou regras para o canto congregacional, assim resumidas: 1) aprender as melodias escolhidas pela liderança do movimento; 2) cantá-las exatamente como estão impressas; 3) cantá-las todas; 4) cantá-las com modéstia, afinação, vigor e espiritualmente, pensando em Deus a cada palavra.

Os Wesleys e o movimento metodista renovaram a hinodia das igrejas Não-Conformistas (Presbiterianos, Batistas e Congregacionalistas).

Deixaram, a partir de 1861, com a publicação de “Hymns Ancient and Modern”, de ter influência sobre a hinodia da Igreja da Inglaterra.

No final do século XIX, o movimento metodista não teve qualquer participação nos hinários anglicanos.

O canto da Igreja Metodista sempre teve por base o canto congregacional. John Wesley achava que o canto de hinos pela congregação era um dos meios mais eficazes de difundir o Evangelho.

Rolando de Nassau

(Publicado em “O Jornal Batista, p.2, ed. 27 jun 1993)
© 1993 de Rolando de Nassau – Usado com permissão

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