Henriqueta Rosa Fernandes Braga

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Henriqueta Rosa Fernandes Braga (1909-1983)

Pioneirismo

Henriqueta Rosa Fernandes Braga

Pioneira na participação musical em programas radiofônicos evangélicos (começando com “Hora Cristã” em 1931, na Rádio Educadora).

Pioneira, no meio evangélico carioca, na apresentação de audições sacras com o Coro da Igreja Evangélica Fluminense (coro que ela dirigiu de 1932 a 1948).

Pioneira, no Brasil, com o mesmo coro, na gravação de hinos sacros as Companhias RCA VICTOR E ODEON.

Pioneira na apresentação de um coro evangélico em programa de alto gabarito como era, na ocasião, “ONDAS MUSICAIS”.

Pioneira em coligir dados sobre a música sacra evangélica no Brasil e em publicá-los em volumes.

 Poderíamos dizer muito mais, pois, a nossa personagem, para hoje, é pioneira em todo o sentido da palavra.

Henriqueta Rosa Fernandes Braga teve pioneirismo em suas veias. Descendeu de duas famílias evangélicas tradicionais intimamente ligadas aos inícios do trabalho evangélico no Brasil.

Sua avó paterna, Christina Faulhaber (mais tarde, Fernandes Braga), foi aluna da Escola Dominical fundada por D. Sarah Kalley, em Petrópolis em 1855. Ela frequentava a classe em alemão, pois, a Srª. Kalley, além das classes ministradas na língua vernácula, em horários diferentes, dava aula em alemão e inglês.

Seu avô paterno, José Luiz Fernandes Braga, português, foi colaborador direto do Dr. Robert Reid Kalley, fundador do primeiro trabalho evangélico do país. O Sr. Braga foi o primeiro superintendente de uma Escola Dominical no Brasil.

Seu avô materno, Professor Remígio Cerqueira Leite, foi uma das primeiras pessoas a aceitar o evangelho quando anunciado na cidade de São Paulo pelo missionário Alexander Blackford, que já encontrara ali a semente em desenvolvimento, lançada pelo ex-padre José Manuel da Conceição, cuja irmã se casara na família Cerqueira Leite.

Sua avó materna, Rosa Edith Vieira Ferreira (depois, Cerqueira Leite), sobrinha do grande matemático brasileiro, o afamado “Souzinha” (Joaquim Gomes de Souza), descendente duma importante família de São Luiz do Maranhão – Gomes de Souza – que teve dois de seus membros, batizados pelo Rev. George Butler, logo no início do trabalho presbiteriano em São Luiz.

Seu pai, José Luiz Fernandes Braga Júnior, presbítero da Igreja Evangélica Fluminense, muito trabalhou pela Associação Cristã de Moços pelo Hospital Evangélico. Foi, juntamente com um cunhado, o fundador do jornal “O CRISTÃO”, hoje, órgão oficial da denominação congregacional.

Estas duas famílias, acimas citadas, merecem uma história à parte, mas, desta vez, queremos falar de Henriqueta Rosa Fernandes Braga.

Henriqueta Rosa, foi carioca de nascimento. Nascida em 12 de Março de 1909, de pai carioca e mãe paulista, ela guardou recordações de uma infância cheia de alegrias e aventuras. A música no lar exerceu uma grande influência em sua vida. Era muito comum sentar, com os seus irmãos, ao redor do piano para ouvir a mãe tocar as Sonatas de Mozart, ou mesmo escutar as gravações (inclusive de música sacra) que constituíam, desde cedo, a organizada e escolhida discoteca da família. Seus pais, cultos e estudiosos, acompanhavam sempre, com desvelo, os seus estudos, capacitando-os para uma melhor técnica de aprendizagem e desenvolvimento. À noite, em seu lar, podia-se ver, curvados sobre os livros, pai, mãe e filhos, num admirável exemplo de diligência intelectual. Talvez, mais importante que tudo, fosse o culto doméstico que coroava o dia de trabalho e no qual eram apresentados ao Pai Celeste os agradecimentos pelos benefícios recebidos, e expostas as dificuldades, implorando a sua constante direção para a vida de cada um. E, em paz e tranquilidade, despedia-se a família para o repouso noturno.

Seus irmãos, José Luiz, industrial e membro do corpo administrativo do Hospital do corpo administrativo do Hospital Evangélico do Rio; Remígio, químico industrial e Secretário de Relações Públicas da Sociedade Bíblica do Brasil; Christina, professora de Escola Dominical de sua igreja. e Domingos, professor da Escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil e da Escola de Engenharia da Universidade da Guanabara, todos muito ativos no trabalho evangélico. E nosso distinto irmão e amigo, Deputado Federal Daso Coimbra, seu primo.

Mas, antes de gastarmos todo o nosso espaço falando sobre esta distintíssima família, que tanta significação tem para o evangelho no Brasil, examinemos mais de perto a vida de Henriqueta Rosa Fernandes Braga. Preparadíssima, além de completar o Curso Superior na Escola Nacional de Música da Universidade do Brasil, possuiu os Diplomas de Professora de Piano e Maestrina, expedidos pela mesma Escola, onde foi aluna, entre outros, dos Professores Francisco Mignone, Luiz Heitor Correa de Azevedo, Cônego Alfeo e Elza Barrozo Murtinho. Teve ainda os Cursos de Formação de Professor, Psicologia Educacional e Organização de Bibliotecas Musicais.

Foi Professora Catedrática de História da Música na Escola Nacional de Música; Professora Titular da mesma matéria no Instituto Villa-Lobos, e de Pedagogia Musical e História da Música no Conservatório Brasileiro de Música.

Obteve Diploma e Medalha “Silvio Romero”, outorgados pela Secretaria Geral de Educação e Cultura da Prefeitura do Distrito Federal, e a Medalha “Alexandre Levy”, concedida pela família do compositor paulista.

Foi membro da Comissão que preparou o “Hinário Evangélico” e fez parte da Comissão Revisora dos “Salmos e Hinos”.

Em abril de 1966, quando foi organizado o Conselho de Cultura do Estado da Guanabara, Henriqueta Braga foi indicada para ser um dos seus 12 conselheiros.

Durante 5 anos, preparou aulas semanais de História da Música para o programa “Conservatório no Ar” da Rádio Roquete Pinto.

Membro de várias organizações musicais nacionais e internacionais, Henriqueta Rosa Fernandes Braga foi a maior escritora evangélica de livros sobre música. Mencionaremos apenas os seus livros mais importantes:

“Cânticos de Natal”, “Do Coral e Sua Projeção na História da Música”, “Música Sacra Evangélica no Brasil”, “Peculiaridades e Melodias do Cancioneiro Infantil Brasileiro” e “Pontos e História da Música” (em colaboração com Luiz Heitor Corrêa de Azevedo).

Como compositora, também, Henriqueta Rosa deu a sua contribuição. Podemos citar as seguintes obras publicadas: “Salmo 5”, “Sonhemos” e “Senhor, eu preciso de Ti”.

Como os leitores podem verificar, Henriqueta Rosa Fernandes Braga foi uma giganta da música. O seu nome está firmemente escrito na história da música sacra evangélica brasileira.

E como era esta giganta da música?

Ela irradiava simpatia. Capacitadíssima, mas modesta. Elegante, mas simples. Importante, mas acessível.

E o “pioneirismo” que correu em suas veias deixou um importante legado para a música sacra do Brasil.

Henriqueta Rosa Fernandes Braga faleceu em 21 de junho de 1983 no Rio de Janeiro.

Bill H. Ichter

“Publicado originalmente em: “O Jornal Batista”, Ed. 5, Julho 1966, pág. 4”
© 1966 de Bill Ichter / Atualização do Texto: Robson José – Usado com permissão

Fotografia extraída de: “Acervo da Associação Basiléia em Campinas” – Enviada pela Colaboradora Rute Salviano

Henriqueta Rosa, Exemplar da Musicista Cristã 

Henriqueta Rosa Fernandes Braga (1909-1983) Ilustração: Lucas Nasto – © 2017 de hinologia.org

Henriqueta Rosa Fernandes Braga, foi, no setor musical, uma das pessoas mais bem dotadas da comunidade evangélica brasileira. Mais importante ainda foi o fato de ter dedicado seus talentos ao louvor de Deus e à edificação espiritual dos crentes.

Ela foi uma das primeiras a frequentar o curso de pedagogia musical, iniciado sob a orientação de Antônio Sá Pereira, e soube desenvolver uma eficiente atividade docente.

A partir de 1936, com apenas 27 anos de idade, começou a lecionar na atual Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (pedagogia musical, teoria musical, folclore musical e história da música), onde, em 1973, assumiu a chefia do Departamento Teórico.

Obteve merecidamente os cargos de professora do Conservatório Brasileiro de Música (pedagogia musical, história da música, história das artes e apreciação musical), da Escola de Música “Villa Lobos” (história da música), do Colégio Metodista “Bennett” e do Instituto Batista de Educação Religiosa, e deu aulas de história da música através da Rádio “Roquete Pinto”, do Rio de Janeiro.

Em todas as áreas mais nobres da técnica musical, Henriqueta Rosa Braga recebeu um sólido preparo. Estudou órgão, piano, canto, composição e regência no antigo Instituto Nacional de Música, do Rio de Janeiro; foi aluna de Antônio Silva (órgão), Guilherme Fontainha (Piano), Elsa Murtinho (Canto), João Otaviano (composição, instrumentação e orquestração) e Francisco Mignone (regência).

De 1932 a 1948, a maestrina Henriqueta Rosa foi organista e regente do coro da Igreja Evangélica Fluminense, com o qual realizou concertos, atuou em programas radiofônicos e gravou discos (“RCA-Victor” e “Odeon”. Em 1950, fundou e regeu o coro do Instituto de Cultura Religiosa, do Rio de Janeiro.

No Curso Superior, participou das prestigiadas classes de Anello França (harmonia) e José Paulo Silva (contraponto e fuga).

Compôs “Salmo 5”, “Sonhemos” e “Senhor, eu preciso de Ti”.

Interessou-se pelo folclore musical nacional, sob a inspiração de Luís Heitor Correia de Azevedo.

Pedagoga e musicóloga, publicou: Cânticos de Natal, 1947; Peculiaridades rítmicas e melódicas do cancioneiro infantil brasileiro, em 1950; A Música como fator educativo, 1952; Do coral e sua projeção na história da música, 1958; Os Trovadores e a canção medieval, 1962.

Historiadora, escreveu Pontos de História da Música, 1956, o já clássico Música Sacra Evangélica no Brasil, 1961, e o verbete sobre este assunto para a “Grande Enciclopédia Delta-Larousse”, vol. 10, p. 4.703, nas edições de 1970 e 1979.

Hinóloga, colaborou para as edições do Hinário Evangélico, 1945, e do Salmos e Hinos com Músicas Sacras, 1975 (ver: “O Jornal Batista”, 13 março 77, p. 4)

Periodista, foram muito apreciados seus artigos para as revistas “Unitas”, “Ultimato”, e “CBM”.

Henriqueta Rosa, Doutora em Música, foi membro titular da Academia Nacional de Música, fundada em 1967.

Seus livros e trabalhos de revisão do hinário foram obras monumentais que honram a cultura evangélica brasileira.

A Escola de Música da UFRJ, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados por Henriqueta Rosa ao ensino, à pesquisa e à divulgação da música erudita e folclórica, promoveu um ciclo de palestras e audições de alto nível artístico.

Os evangélicos no Brasil também devem a Henriqueta Rosa a formação técnica de muitos de seus melhores músicos.

Para nós, Henriqueta Rosa foi uma consagrada musicista, que dedicou seus extraordinários dotes à Causa do Evangelho em nossa Pátria.

Rolando de Nassau

(Publicado em originalmente em “O Jornal Batista”, 23 de Novembro de 1980 p. 2).
Música. Nº 188
© 2015 de Rolando de Nassau – Usado com permissão

“Magistra Dixit”

(Entrevista com D. Henriqueta Rosa Fernandes Braga)

Desde 1961, quando publicou sua clássica obra sobre a música evangélica no  Brasil, seu nome infundia respeito e admiração.

Há muito tempo, sentíamos que deveríamos prestar nossa homenagem a quem tanto fez pela música em nossa Pátria.

Por isso, escrevemos o artigo “Henriqueta Rosa, exemplar da musicista cristã” (ver: “O Jornal Batista, 23 nov 80, p. 2).

Muito modesta, agradeceu o artigo e convidou-nos para uma conversa informal.

Em 23 de janeiro, tivemos a honra de visitar Da. Henriqueta Rosa, em seu confortável apartamento na Tijuca, no Rio de Janeiro.

Aposentada em março de 1979, não interrompeu suas pesquisas, nem deixou de divulgar seus profundos conhecimentos.

Foi um privilégio conhecer sua biblioteca e manusear o tratado de harmonia de Jean-Phillipe Rameau, cuja primeira edição, em 1722, foi-lhe presenteada por seu pai, no dia do seu aniversário.

Desse encontro memorável, guardamos a impressão de que estivemos diante de uma das maiores autoridades em História da Música.

Eis a entrevista que gentilmente nos concedeu:

Rolando de Nassau – A ilustre irmã durante 43 anos (1936-1978) lecionou matérias musicais. Quais são suas melhores recordações da atividade docente?

Henriqueta Rosa – Fato curioso a registrar: o meu foi o primeiro diploma universitário de Música conferido no Brasil.

Tenho recordações muito gratas de minha atividade docente, porque tive o privilégio de conduzir turmas de História da Música e Apreciação Musical verdadeiramente excepcionais em seu aproveitamento. Turmas em que o assunto tratado se desdobrava muito além da previsão do Programa, pelo interesse e participação dos próprios alunos. Aliás, devo ressaltar que a matéria História da Música enseja várias oportunidades de pregar o Evangelho e levar à leitura da Bíblia, incluindo-a entre as obras que devem ser consultadas. Tive, inclusive, alunos padres e regentes de coros católicos-romano, que se tornaram bons amigos.

Aprenderam a amar Bach e Haendel

Rolando de Nassau – Também longa foi sua experiência nas atividades corais. Conte-nos sua maior alegria como regente de coral.

Henriqueta Rosa – Como regente coral, a maior alegria que tive foi no momento em que percebi que o coro que dirigia – o da Igreja Evangélica Fluminense – havia se identificado tão bem com o estilo sacro, que vibrava com as peças que lhe eram apresentadas para estudo, e os coristas por si mesmos refugavam as de menor valia – harmonizações fracas, vazias, sem conteúdo que ressaltasse e enriquecesse as belas letras evangélicas que possuímos. Todos os coristas, sem exceção, aprenderam a amar a música de J.S. Bach e de Haendel, apreciando-a em seu justo valor, bem como a de outros autores de peças de elevado quilate.

Rolando de Nassau – Foi colaboradora de Luiz Heitor Corrêa de Azevedo. Revele-nos sua mais interessante pesquisa no campo do folclore musical nacional.

Henriqueta Rosa – depois de ter sido aluna de Luiz Heitor Corrêa de Azevedo, em sua primeira turma de Folclore Musical na ENM da UB, vim a substituí-lo durante onze anos como catedrática interina, durante o seu impedimento por motivo de ter sido nomeado diretor da Seção de Artes da UNESCO, em Paris.

No campo do Folclore Musical dedique-me ao Folclore Musical Infantil, realizando pesquisas de campo e de gabinete, e demonstrações folclóricas de “cantigas de roda” e “jogos infantis cantados” para Congressos de Folclore, tendo publicado Peculiaridades Rítmicas e Melódicas do Cancioneiro Infantil Brasileiro, enviando algumas Comunicações à Comissão Nacional de Folclore do IBECC, ramo nacional da UNESCO, na época sediada no Palácio “Itamaraty”, no Rio, e da qual era membro, colaborado com os Caderno de Folclore – MEC, cujo nº 10 publicou trabalho meu sobre o Cancioneiro Folclórico Infantil.

A pesquisa de campo revelou-se-me gratificante. Misturar-se às crianças revivendo a própria infância e registrar variantes rítmicas, melódicas e literárias nas cantigas de roda, jogos cantados e histórias contadas e cantadas que nos deliciaram em outros tempos, além de recolher peças por nós desconhecidas, é sumamente agradável.

Rolando de Nassau – A Sra. tem obras publicadas no campo da musicologia. Quais foram os resultados do seu trabalho musicológico?

Henriqueta Rosa – Creio que os Pontos de História da Música, preparados em colaboração com Luiz Heitor Corrêa de Azevedo para servirem de apostila aos alunos do Conservatório Brasileiro de Música e por esta instituição publicados, ajudaram muito os alunos quando estudava e, posteriormente, em seus concursos para professor de música. Com grande prazer tenho verificado que Cânticos do Natal vem servindo desde a sua publicação, em 1947 (e já se encontra em sua 6ª tiragem), a evangélicos e católicos-romanos indistintamente, ajudando-os a melhor louvor ao nosso Salvador, na celebração do Seu nascimento.

Há alguns anos passados, por ocasião do Natal, quando as Rádios irradiavam músicas apropriadas à época, tive o privilégio de ouvir os hinos dessa coletânea em todas as emissoras do Rio de Janeiro, muitas delas lendo o respectivo histórico do hino, que se encontra em Cânticos do Natal. Infelizmente, hoje em dia, nem uma só das estações de rádio dedica programas especiais à música natalina. Tenho também encontrado Cânticos do Natal em Igrejas católico-romanas do Rio de Janeiro e do interior, como aconteceu em São José do Rio Preto, RJ, onde sobre o harmônio vi um exemplar já gasto dessa coletânea, demonstrando longo uso.

Do Coral e sua projeção na História da Música  tem servido de muito a professores que concorrem a cátedras, ou que dele retiram subsídios para suas aulas.

Numerosos artigos publicados na revista musical CBM servem ao estudo dos alunos de todas as classes da EM da UFRJ, que os consultam na biblioteca da Escola.

Rolando de Nassau – Seu livro Música Sacra Evangélica no Brasil é indispensável à pesquisa nos seminários evangélicos. Pretende atualizá-lo? Como?

Henriqueta Rosa – A obra Música Sacra Evangélica no Brasil deverá ser atualizada por alguém. Já não será por mim. Como registrei na própria obra – no capítulo “Explicação Necessária” – o intuito daquele esforço realmente hercúleo, num meio onde quase não havia registro dos fatos, foi fornecer um instrumento de trabalho que permitisse a outros completar a obra e a prosseguir na tarefa iniciada. Queira Deus assim aconteça.

A revisão de “Salmos e Hinos”

Rolando de Nassau – Alguns articulistas têm considerado incompleta a reforma do “Salmos e Hinos com Músicas Sacras”. O que pensa a respeito da revisão feita, e publicada em 1975?

Henriqueta Rosa – É preciso explicar que a revisão de um hinário não apresenta problemas inexistentes na organização de uma nova coletânea, onde só são incluídos hinos considerados bons sob todos os pontos-de-vista. Não há satisfações a dar, nem preferências a respeitar. Muito diferente é o caso de revisar uma coleção centenária, que está no coração do povo evangélico, com os seus hinos já incorporados à vida de cada um e, de certa maneira, considerados propriedade sua, com todos os defeitos que possam apresentar, e cujo aperfeiçoamento, implicando em modificações, doerá fundo em seu coração e o levará sumariamente a refuga-lo ou, para ele, desfiguram seus hinos prediletos. O valor de “Salmos e Hinos” é inegável, e o seu passado histórico e atuante através dos anos, nas mãos de Deus, é irretorquível. Só a eternidade poderá revelar a multidão de pessoas convertidas por seu intermédio, porque os hinos são pregações.

“Salmos e Hinos” merece respeito. Foi o primeiro hinário evangélico brasileiro no vernáculo, tendo servido a todas as denominações, sem exceção, inclusive a Batista, até que organizassem seus próprios hinários. Entretanto, apesar de ser mais do que centenário (1ª edição – 1861), apresenta-se hoje com todos os requisitos de um hinário moderno. Assim o tornou esta última revisão (1975). Não desejo, com isso, pretender insinuar seja um trabalho perfeito. Longe disso. Basta ser uma obra humana, para que tal não aconteça. Posso dizer, porém, que a revisão foi empreendida de joelhos, pedindo a orientação e a bênção divinas, e que estas jamais nos faltaram. Sentimos, os integrantes da Comissão Revisora, que Deus estava conosco, pois sem Ele não teríamos conseguido terminar essa imensa obra de revisão e publicá-la. As dificuldades foram muitas e constituíram verdadeiro desafio à nossa fé. Não raro o trabalho foi feito com lágrimas deslizando pelas faces, lágrimas que se enxugavam com a mensagem contida nos próprios hinos que revisávamos.

O critério adotado pela Comissão foi o seguinte: partir da revisão literária, sem desfigurar o hino em sua mensagem. Em torno deste princípio básico girou toda a revisão. Se o conserto implicava em prejuízo para a mensagem, era abandonado. Houve casos em que a recuperação do hino exigia, pode-se dizer, uma nova letra, que, mesmo não prejudicando a mensagem, não agradaria, por ser diferente. A alternativa era: eliminá-lo ou, se se tratava de hino muito amado pelas igrejas urbanas ou do interior (e a Comissão era integrada pelo saudoso Rev. Jonathas Thomaz de Aquino, que, como missionário, visitara igrejas por todo o Brasil, e estava em condições de bem informar a respeito), permanecia intocado. É inegável, para quem exercer uma crítica construtiva, que a última edição de “Salmos e Hinos” oferece ganhos incontestes:

a) quanto à prosódia musical – hoje os hinos de SH podem ser cantados fluentemente, sem qualquer desacentuação prosódica;

b) quanto à tessitura congregacional – receberam o transporte conveniente, para que os fiéis não precisem forças as vozes em hinos por demais agudos;

c) quanto à escrita musical – músicas escritas por extenso, para evitar confusão ao organista; só até 3 estrofes dentro da pauta, para não afastá-las demais, em prejuízo de uma fácil leitura;

d) notas históricas ao pé da página dos hinos que as ensejam;

e) riqueza de índices, inclusive dos primeiros versos nas línguas originais, quando se trata de traduções;

f) reclassificação dos hinos por assuntos;

g) índices auxiliares da nova numeração – dos primeiros versos e dos números dos hinos da edição anterior, para que qualquer pessoa, habituada à edição anterior, encontre com facilidade o hino que deseja, seja pelo número antigo, seja pelo primeiro verso antigo; etc.

Apreciações sobre a nova edição (1975) de SH têm-nos chegado de muitas inclusive do exterior, comparando-os aos melhores hinários modernos e, algumas vezes, considerando-o superior a qualquer outro. Não vou a tanto, mas realmente acho que a revisão valeu a pena.

Rolando de Nassau – Um dos meus hinos prediletos é o de nº 168 no “Salmos e Hinos” (nº 92 no “Hinário Evangélico” e nº 187 no “Seja louvado”), intitulado “Senhor, eu preciso de Ti”, que a prezada irmã musicou para a letra de Antônio de Campos Gonçalves, recentemente falecido. Em que circunstâncias foi elaborado, há quase 30 anos?

Henriqueta Rosa – O saudoso Rev. Antônio de Campos Gonçalves foi autor de numerosas letras de hinos, muito expressivas. “Senhor, eu preciso de TI” é uma delas. Logo que foi publicada, o Sr. Oscar Carneiro Monteiro, ecônomo da Igreja Metodista de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, telefonou-me pedindo-me que a pusesse em música. Eu ainda não a conhecia. Foi o Sr. Oscar quem me enviou cópia da letra. Gostei imenso da produção e escrevi a música, pedindo a Deus que me desse inspiração condigna. Pronto o hino, o Sr. Oscar e o Rev. Gonçalves foram à minha casa, onde minha irmã Christina, dona de uma bem timbrada voz, cantou para eles o hino, que assim iniciava a sua trajetória. Quando a última nota se extinguiu, o Rev. Gonçalves, de maneira ungida e comovente, elevou sua voz em oração dedicando o novo hino à glória de Deus. Isto ocorreu em 1952, e Deus o tem abençoado.

Rolando de Nassau – Há muito tempo venho lendo seus artigos para a revista “ULTIMATO”. Quais são as fontes em que busca os dados hinológicos?

Henriqueta Rosa – São várias: reminiscências pessoais, entrevistas com crentes antigos; Histórico da Escola Dominical da Igreja Evangélica Fluminense; de João Gomes da Rocha, Lembranças do Passado (4 vols.); jornais evangélicos antigos; meu conhecimento de História da Música, apoiado na biblioteca especializada que possuo; de Bill Ichter, Se os Hinos Falassem (4 vols.); de Albert Ream, Histórias de Hinos e Nossos Hinos – Sua História; de M. Porto Filho, História e Mensagem dos Hinos que Cantamos; e alguns Manuais que acompanham hinários estrangeiros.

As cantatas de Bach são uma expressão de fé

Rolando de Nassau – Em sua opinião, que significação tem as cantatas de Bach?

Henriqueta Rosa – Elas representam o Evangelho em música e constituem uma verdadeira expressão de fé. Não apenas resultado de uma atividade profissional imposta pelo cargo que desempenhava. Repare a escolha por ele feita das estrofes de corais nelas inseridas.

Conhecia como ninguém a produção corálica de seu tempo e, como crente fiel, selecionava o que melhor servia à ocasião.

Rolando de Nassau – As cantatas sacras eram orientadas por Bach para a comunidade eclesiástica. Podem atualmente ser usadas como sermões musicados?

Henriqueta Rosa – Elas estavam sempre entrosadas com o sermão, cujo tema obedecia à velha tradição do ano litúrgico. Geralmente terminam por um coral, e este, muitas vezes, era entoado por toda a congregação. Creio que hoje poderão ser utilizadas em um culto musical, se traduzidas para o vernáculo, e lido o seu texto e comentado, se for o caso, permitindo-se a participação dos fiéis no último coral, como no tempo de J. S. Bach.

A restrição feitas às traduções de peças clássicas não procede, no que concerne à música luterana. Lutero criou o coral, para que o povo pudesse cantar na igreja e tivesse o que cantar em sua própria língua.

Toda a produção luterana deve ser cantada na língua do país.

Rolando de Nassau – Objetivo de uma interpretação é reviver a música, aproximando a execução atual da execução primitiva, quais devem ser os meios de interpretação das cantatas sacras de Bach?

Henriqueta Rosa – Tanto quanto possível, obedecer à partitura original. No caso de não se dispor de orquestra, use-se o órgão. É imprescindível traduzir a cantata para o português (é preciso lembrar que a cantata, tal como a escreveu J. S. Bach, é música essencialmente luterana, e esta exige a compreensão de quem canta e de quem ouve (ou então não se trata de música para edificação espiritual). Confie-se o último coral à congregação e escolham-se, para os solos e recitativos, vozes bem timbradas, de acordo com a partitura original.

À Congregação o derradeiro coral

Rolando de Nassau – Quais são os princípios técnicos e artísticos que devem ser observados na sua execução?

Henriqueta Rosa – Letra no vernáculo. Dicção clara, compreensível. Respiração correta e imperceptível. Rigorosa afinação. Fraseado inteligente, capaz de estabelecer comunicação com os ouvintes. Absoluta atenção ao regente. Escolher os solistas com o timbre exigido pela partitura e que possam cobrir bem os agudos. Uma vez que as igrejas não dispõem de orquestra, o acompanhamento deve ser entregue ao órgão, numa excelente redução para esse instrumento, e este deve ser confiado a um exímio executante. Entregar à congregação (para esse fim treinada) o derradeiro coral (é extraordinário o efeito sonoro assim obtido e o impacto religioso na congregação).

Rolando de Nassau – Quais os maiores compositores sacros, protestantes e católicos?

Henriqueta Rosa – Protestantes: Schütz, Schein, J. S. Bach (o maior de todos), Haendel, Crüger, Purcell, Bourgeois, Goudimel…

Católicos: Allegri, Palestrina (o maior de todos), Victoria, Morales, Lassus, Giovanni Gabrielli, Benedetto Marcello…

Rolando de Nassau – O que acha da tradução e adaptação de peças católicas para uso num culto evangélico?

Henriqueta Rosa – Tradução de peças católicas só quando a letra for essencialmente de cunho evangélico. Em caso contrário, substituí-la por letra evangélica; quanto à música, se verdadeiramente sacra, poderá ser usada, ou adaptada, se necessário.

Rolando de Nassau – É admissível adaptar peças de música operística e/ou sinfônica com aquela finalidade?

Henriqueta Rosa – Quanto temos em mente as contrafacta e o uso delas fez Lutero, perguntamo-nos – por que não seguir-lhe o exemplo, em se tratando de música aproveitável? Lembremo-nos, porém, que Lutero rigorosamente escoimava as melodias das impropriedades seculares, até imprimir-lhes cunho nobre e austero. Exemplo: o célebre Coral da Paixão, oriundo de uma canção amorosa de Hassler. Outro exemplo, este de Bourgueois: a melodia do Salmo 42, originalmente uma “ária de caça” do rei Henrique II.

Os Ritmos Populares são Impróprios à Casa de Deus

Rolando de Nassau – O que acha das cantatas e dos oratórios que usam ritmos populares?

Henriqueta Rosa – Impróprios à Casa de Deus, onde deve haver reverência, e não profanação. O ritmo popular leva a gingar o corpo; e, quando isso acontece, não há edificação espiritual. (Se a Igreja não tiver nada de melhor a oferecer, do que isso, será melhor fechar suas portas).

Rolando de Nassau – Constatamos, prezada irmã, que dedicou a maior parte de sua vida ao estudo, à pesquisa, ao ensino e à divulgação da música. Mas os evangélicos muito esperam ainda obter de sua obra magistral. Quais são seus planos de trabalho para o futuro.

Henriqueta Rosa – Acha-se em andamento um Manual para a última edição (1975) de “Salmos e Hinos”, reunindo a história dos hinos e a biografia de seus autores. Levará muito tempo a ficar pronto, porque o trabalho é extenso.

A seguir, virá uma coleção de Corais de J. S. Bach, traduzido para o português e acompanhados de sua história, nos moldes que fiz em Cânticos do Natal.

Numa terceira etapa, se Deus quiser, virá uma Coleção de Hinos Históricos.

Rolando de Nassau

            (Entrevista publicada originalmente em “O Jornal Batista”, 26 de Abril de 1981 p. 2 / 03 de Maio de 1981, p. 2 / 10 de Maio de 1981).
Música. Nº 203, 204, 205
© 1981 de Rolando de Nassau –  Usado com permissão

Adeus à Mestra

Caminhávamos, na tarde de 21 de junho, em direção à Biblioteca da Câmara, em Brasília, quando encontramos nosso amigo Deputado Daso Coimbra, que nos transmitiu a infausta notícia: acabara de falecer, no Rio de Janeiro, Henriqueta Rosa Fernandes Braga (1909-1983).

“Como um cheiro do céu, na muda noite”, Henriqueta Rosa era a peregrina da Música, por isso sentiremos de maneira muito especial a ausência da inesquecível mestra.

Graças à sua generosa atenção, mais de uma vez nosso nome foi registrado em seu livro “Música Sacra Evangélica no Brasil” (Rio de Janeiro: Editora Kosmos, 1961) e no artigo que escreveu sobre este tema para a “Grande Enciclopédia Delta Larousse” (Rio de Janeiro, Vol. 8, Ed. 1970, Vol. 10, Ed. 1979, Pág. 4.703).

Incentivadora das causas nobres, nos últimos seis anos sempre escrevia, a propósito de nossos mais importantes artigos, uma carta de congratulações e estímulo. Em 29 de maio p.p., mandou-nos um cartão, já guardado num escrínio, em que amavelmente dizia: “Com os meus cumprimentos pela oportuna apreciação sobre…Gostei muito e aplaudi in totum”. Por razões óbvias, omitimos o título do artigo elogiado.

Apreciávamos Henriqueta Rosa há mais de 25 anos, mas somente em 23 de janeiro de 1981 tivemos a honra e o prazer de conhece-la mais de perto, quando concedeu-nos uma memorável entrevista (ver: O Jornal Batista”, 26 de abril e 10 maio 81, p.2)

Serena e ponderada em suas opiniões, era capaz de defender com energia suas convicções. Quando publicamos a série de artigos “Kalley e os Antecedentes da República”, Henriqueta Rosa escreveu-nos duas cartas demonstrando não ter aceito nossas informações, o que nos obrigou a fazer uma retificação (ver: “O Jornal Batista”, 10 jan 82, p. 2), que foi comunicada ao Historiador David Gueiros Vieira, em cuja obra (“O Protestantismo, a Maçonaria e a Questão Religiosa no Brasil”. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1981) tínhamos apoiado nossas conjecturas.

Vimos e ouvimos Henriqueta Rosa, pela primeira vez, em 1956, num festival comemorativo do bicentenário do nascimento de Wolfgang-Amadeus Mozart  realizado pela Escola Nacional de Música da Universidade do Brasil (atualmente Escola de Música da UFRJ), quando fez uma conferência sobre o tema “Mozart e seus concertos”, ilustrada com gravações.

Em 15 de outubro daquele ano, demonstrando sua curiosidade intelectual e sua probidade musicológica, saiu de sua esfera de interesses para dissertar sobre a música peruana durante o concerto do cantor Hugo Sosa Kusipuma naquela tradicional escola.

Em muitas outras ocasiões, nas quais infelizmente não pudemos estar presentes, Henriqueta Rosa revelou suas pesquisas musicológicas através de palestras na Escola de Música e no Conservatório Brasileiro de Música, do Rio de Janeiro.

Não basta ter os documentos para ser musicólogo. É preciso ter uma longa vivência e uma vasta cultura para poder avaliar os documentos da Música. O reconhecimento oficial dos méritos de Henriqueta Rosa como musicóloga veio em junho de 1979, quando a escola da rua do Passeio promoveu o 2º Panorama da Música Brasileira Atual, “dedicado à Professora Henriqueta Rosa Fernandes Braga, pela sua grande contribuição à Educação e à Musicologia Brasileira”; na ocasião foram executadas obras de compositores patrícios.

Na véspera do acometimento da enfermidade fatal, em 30 de maio p.p, Henriqueta Rosa pronunciou uma conferência, ilustrada pelas vozes de cantores da ribalta carioca e por um conjunto vocal, sobre o “Panorama histórico da Escola de Música da UFRJ”, destacando antigas figuras do ensino musical brasileiro.

Como pedagoga, orientou muitas gerações (desde 1936) de músicos.

Foi a primeira musicista evangélica a ter assento na prestigiosa Academia Nacional de Música e receber uma medalha da Academia Brasileira Evangélica de Letras.

Para o meio musical evangélico nacional, Henriqueta Rosa foi única, como musicóloga e pedagoga. Foi uma das pessoas mais bem dotadas da nossa comunidade (ver: “O Jornal Batista”, 23 nov 80, p. 2). Aluna de Antônio Silva (órgão), João Otaviano (composição, instrumentação e orquestração) e Francisco Mignone (regência), aplicou seus sólidos conhecimentos no preparo de cantores, coros e instrumentistas evangélicos.

Hinóloga, foi importantíssima sua participação na revisão, em 1975, de “Salmos e Hinos”, o mais bem documentado hinário evangélico brasileiro (ver: “O Jornal Batista”, 13 mar 77, p. 2).

Compositora, entre outras peças deixou o belo hino “Senhor, eu preciso de Ti”, que, como relator da Comissão Especial, por nossa iniciativa, será introduzido no futuro hinário dos “Gideões Internacionais”.

Periodistas, divulgou através de artigos seus largos e profundos conhecimentos da história da Música Sacra e da hinologia.

Historiadora, foi pioneira ao empreender ao minucioso levantamento da música entre os evangélicos no Brasil, depois de ter colaborado com Luiz Heitor Corrêa de Azevedo numa obra didática.

São inolvidáveis as audições corais que regeu na sala-de-concertos, no templo ou no estúdio-de-gravação.

Henriqueta Rosa, musicista polivalente (professora, conferencista, periodista, historiadora, musicóloga, hinóloga, compositora, regente), muito recebeu dos mestres e muito deu à causa da Música. Sua vida e sua obra delinearam uma figura ímpar no cenário musical do Rio de Janeiro, que se projetou muito além do espaço e no tempo do Brasil.

Era nosso desejo que Henriqueta Rosa prefaciasse a segunda edição, em preparo (desde 1972), de nosso livro “Introdução à Música Sacra”, mas sua caminhada entre nós foi interrompida pela morte (que não tem melodia, mas ruído). Todavia, seu exemplo de paciência nas pesquisas, meticulosidade nas informações e imparcialidade nas opiniões ficará para nos inspirar.

Assim, Henriqueta Rosa, queremos continuar a sua jornada luminosa!

Rolando de Nassau 

(Publicado em originalmente em “O Jornal Batista”, 17 de Julho de 1983 p. 2).
Música. Nº 266
© 1983 de Rolando de Nassau –  Usado com permissão

Uma vida no altar da música

“Pois será como árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá seu fruto na estação própria, e cujas folhas não caem, e tudo quanto fizer prosperará”. Salmo 1.3

Em uma daquelas tardes quentes do verão carioca nós subíamos pela primeira vez a rampa que dava acesso à antiga e tradicional residência da família Braga, na Rua São Francisco Xavier, no conhecidíssimo bairro da Mangueira. Ali fomos recebidos, alegremente, pelas irmãs Cristininha e D. Henriqueta.

Nós acabávamos de assumir o pastorado da Igreja Evangélica Fluminense e estávamos tendo os primeiros contatos com as ovelhas do nosso pastoreio. Assim, conversávamos sobre várias coisas até que chegamos no assunto de sua predileção: Música Sacra e Revisão de Salmos e Hinos. Este assunto prolongou-se por 18 anos sem nunca termos esgotado a matéria. Mesmo depois que deixamos o pastorado da Igreja, continuamos o nosso assunto por cartas, telefone e pessoalmente, pois todas as vezes que voltávamos ao Rio de Janeiro reservávamos tempo para estar com D. Henriqueta e falar sobre Salmos e Hinos e assuntos paralelos. Cremos que se Deus fosse servido conceder à Professora Henriqueta mais uma centena de anos ela continuaria a desenvolver o seu talento, que o Senhor mesmo lhe dera, na obra que constituiu a “menina de seus olhos” que foi Salmos e Hinos com Música Sacra.

Henriqueta viveu 74 anos pensando, trabalhando, conversando e produzindo aquilo que deu sentido a sua vida – A Música – e, em especial, a Música Sacra. Ela fez dessa música não uma profissão, mas, sim, um sacerdócio a serviço de Deus e de seu povo.

A ilustre irmã durante 43 anos (1936-1978) lecionou matérias musicais  em várias escolas de expressão no país, tais como: Escola de Música Villa Lobos, Conservatório Brasileiro de Música e Instituto Batista de Educação Religiosa, sendo que a Escola de Música da UFRJ foi a sua principal Cátedra. Mas o seu propósito primordial era o testemunho do Evangelho e a divulgação, como ela mesma dizia, das Sagradas Escrituras. E nesse ideal de servir a Deus e a sua Igreja regeu, por muitos anos, o coro da Igreja Evangélica Fluminense onde conseguiu implantar, no serviço do culto, as mais expressivas e belas músicas de J. S. Bach e Handel.

Como escritora de renome internacional D. Henriqueta deixou importantíssimas obras como “Música Sacra Evangélica no Brasil”; “Cânticos de Natal”; “Do Coral e sua projeção na história da música”; “Salmos e Hinos, sua origem e desenvolvimento’ – obra comemorativa dos 125 da Igreja Evangélica Fluminense – em lançamento; “Manual para Salmos e Hinos, um estudo crítico-pedagógico-histórico nos 651 títulos de Salmo e Hinos, em preparo; além de apreciadíssimos artigos e pesquisas em jornais e revistas especializadas.

Por essas razões expostas é que colocamos como epígrafe do nosso testemunho sobre D. Henriqueta, o verso 3 do Salmo 1.º que diz: “Pois será como árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto na estação própria, e tudo quanto fizer prosperará.”.

Na sua posição social, intelectual e, sobretudo espiritual, D. Henriqueta foi “uma árvore plantada junto a ribeiros de águas”. Firme nas suas convicções, incontestável em seus pronunciamentos e inabalável em sua fé na pessoa de Jesus. Nunca se envergonhou de seu Senhor e Mestre no meio intelectual da música. Respondendo a uma indagação sobre a sua vida como professora titular da Escola de Música da U.F.R.J. ela disse: “Tenho recordações muito gratas de minhas atividades docentes, porque tive o privilégio de conduzir turmas de História da Música e Apreciação Musical verdadeiramente excepcionais em seu aproveitamento. Aliás, devo ressaltar que na matéria História da Música enseja várias oportunidades de pregar o Evangelho e levar os alunos à leitura meditativa da Bíblia. E foi o que fiz com muito amor e sempre em oração”.

Na sua dinâmica de trabalho D. Henriqueta deu “frutos na estação própria.” Como já dissemos linhas atrás, ela não fez da docência musical uma profissão. O seu ensino da música era sacerdotal e profético. Produziu tanto para a cultura musical secular como para a sacra. Trabalhos que, sem dúvida alguma, irão perpetuar-se na história das Igrejas Cristãs, também, na história das universidades brasileiras.

Na sua visão de serviço D. Henriqueta foi “folhas que não caem”. Recebia sempre com alegria, e no seu mais alto propósito de servir, todos quantos a procuravam para abrigar-se à sombra dos seus talentos musicais. Crianças, adolescentes, moços, estudantes, professores, pesquisadores e até curiosos procuravam-na para conhecer sua Biblioteca Especializada – uma das mais completas do Brasil em matéria de música e de coros. O tempo e a modernização, tanto no campo da música secular como da música sacra não conseguiram superar a evidência intelectual e espiritual dessa extraordinária mulher. As folhas de seu talento musical jamais caíram, não obstante o vendaval do mau gosto e da irreverência daquilo que se pretende chamar de “música do contexto”, ou música para os nossos dias tanto na cultura das universidades como na teologia das igrejas.

Na sua perspectiva profética tudo o que D. Henriqueta fez “Prosperou”, e, por certo, ainda prosperará. Ela não pensou e trabalhou somente para os seus dias. Temos a certeza de que não exageramos em dizer que o trabalho intelectual e, acima de tudo, como mulher cristã que foi, é um monumento erguido às futuras gerações como testemunho de seu talento e de seu bom gosto pela arte e pela cultura na ciência da sensibilidade que é a música. Se nós pudéssemos falar-lhe agora faríamos uma paráfrase de I Coríntios 15.58. Portanto, amada, irmã senhora foi firme e constante, sempre abundante na obra do Senhor; Isso nós faríamos porque sabemos que a posteridade abeberar-se-á nos poços que D. Henriqueta cavou, bem fundo, nos insondáveis mistérios da música.

Para nós que compartilhamos com D. Henriqueta as experiências do ministério cristão, a figura usada pelo Salmista – “Árvore plantada junto a ribeiros de águas” – aplica-se perfeitamente a sua vida e ao seu trabalho entre o povo de Deus e à sociedade brasileira. Na sua comunhão com Jesus como, “árvore plantada junto a ribeiros de águas”, ela compôs, traduziu, adaptou e ensinou as mais belas músicas e expressivas poesias para que os “Crentes”, de todas as classes sociais: do campo e da cidade, da fábrica e do laboratório, grandes e pequenos, dos salões de cultos e das cátedras, tivessem elementos corretos para expressar seu louvor nos cultos de adoração, nos encontros de oração e nas reuniões de evangelização.

Dentre as muitas composições que D. Henriqueta criou, ela fazia questão de destacar a música feita, especialmente, para a magistral poesia sacra Rev. Antônio de Campos Gonçalves, “Senhor, eu preciso de Ti” – Salmos e Hinos 168, e Hinário Evangélico 92.

Henriqueta Rosa Fernandes Braga foi tirada do nosso meio no dia 21 de junho de 1983, às 6h30min como a boa árvore é colhida na imensidão das florestas, pela vontade expressa e soberana daquele que a plantou e cultivou. Ao Divino Agricultor, toda honra e toda glória pela vida e ministério da ilustre cristã que durante 74 anos de peregrinação terra serviu ao seu Senhor, servindo ao seu povo.

Rev. João Arantes Costa

© 1983 de João Arantes Costa – Usado com permissão
Publicado originalmente em: Boletim Dominical, Ano 59. N.º 28 – 10 de julho de 1983, pág. 2 e 3 – Igreja Evangélica Fluminense

(1909-1983)

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