Salomão Ferraz

Biografia

Salomão Barbosa Ferraz (1880-1969)

Ministro presbiteriano e episcopal, bispo católico romano

Rev. Salomão Ferraz

Salomão Ferraz notabilizou-se por sua carreira eclesiástica inusitada, que o levou a deixar o ministério evangélico e abraçar o catolicismo romano. Ele nasceu no dia 18 de fevereiro de 1880 na localidade de Jacutinga, também conhecida como Palmeiras, no município de Jaú, a seis quilômetros da estação de Mineiros. Nessa região, no sítio de Silvério Coutinho, o Rev. João Fernandes Dagama havia iniciado uma próspera congregação na década de 1870. Salomão era o filho primogênito do presbítero Belarmino Augusto Ferraz e de D. Maria Santana Barbosa. Belarmino Ferraz (1857-1943) foi aceito como candidato ao ministério em 1890, porém só bem mais tarde, em 1905, foi ordenado pastor pela Igreja Presbiteriana Independente. Outros dois filhos seus também se tornaram pastores: Orlando Ferraz e Seth Ferraz.

Aos 14 anos, em 1894, Salomão transferiu-se para São Paulo, onde estudou no colégio do Prof. Joaquim Pereira de Camargo e fez parte da primeira turma do Ginásio do Estado, na Rua da Boa Morte. No dia 1º de setembro de 1895, foi recebido por profissão de fé na 1ª Igreja Presbiteriana. No mesmo ano, foi um dos membros fundadores da Associação Cristã de Moços. Em 1896, acompanhou o seminarista Vicente Themudo Lessa numa viagem à então vila de São José do Rio Preto. Foi a primeira vez que se pregou o evangelho naquela localidade. Ingressou no Seminário Presbiteriano no primeiro semestre de 1897, colaborando no jornalzinho O Combate. Ao lado de vários colegas, foi recebido como candidato ao ministério pelo Presbitério de São Paulo, reunido em julho de 1898. Foi membro fundador da Igreja Presbiteriana Filadelfa (organizada em 22.09.1899) e da Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo (25.08.1900).

Foi licenciado em 23 de junho de 1901 pelo Presbitério de São Paulo, reunido na Igreja Unida. Sua ordenação verificou-se na mesma cidade e pelo mesmo concílio em 13 de julho de 1902, no mesmo dia da ordenação dos colegas Baldomero Garcia, Constâncio Homero Omegna e Henrique Louro de Carvalho, por diferentes concílios. Desde a licenciatura foi-lhe designada a Igreja Presbiteriana de Faxina (Itapeva). A partir dessa cidade, visitou Apiaí, Iporanga e Barra dos Pilões. Atravessou o rio Ribeira, em canoa movida a vara, visitando interessados. Durante o seu pastorado em Itapeva, professaram a fé 65 pessoas e foram batizadas 118 crianças. Em 18 de março de 1903, casou-se com a italiana Emília Cagnoto, nascida em 1881.

Em 1906, aceitou um convite para trabalhar no sul da Bahia. Depois de encontrar-se com o colega Matatias Gomes dos Santos em Salvador, rumou para Canavieiras, onde chegou a 24 de agosto. O Rev. Henry McCall e muitos irmãos na fé o esperavam. McCall entregou-lhe o campo (a igreja havia sido organizada em 7 de junho) e na mesma semana o novo pastor subiu o rio Pardo, visitando os crentes nas fazendas de cacau. Rodolfo Fernandes, Deoclécio Simões Ferreira e o coronel Cândido de Carvalho eram líderes leigos da época. Em Canavieiras já havia uma casa para os cultos e foi aberto um ponto de pregação em Pontal de Ilhéus. Também pregou em Ilhéus, Banco de Ilhéus (Banco da Vitória), Tabocas (Itabuna), Macuco (Buerarema), Belmonte, Estanhado e outras localidades, indo até o extremo sul do estado, bem como no município de Araçuaí, em Minas Gerais.

Ao lado de Matatias Gomes dos Santos (Salvador) e José Ozias Gonçalves (Cachoeira) foi um dos organizadores do Presbitério Bahia-Sergipe em 7 de janeiro de 1907, em Salvador, que contou com seis igrejas organizadas. Em Belmonte, fundou a Escola Americana e o jornal A Espada. Nessa época, traduziu do inglês o hino “Brilhando por Jesus” (HP nº 362). Em 17 de maio de 1909, publicou em Canavieiras seu “Manifesto ao público”, em defesa dos evangélicos e do casamento civil, respondendo ao boletim “Fora o protestantismo” divulgado pela igreja católica local. Pouco depois, no dia 7 de junho, foi lançada a pedra fundamental do templo da igreja de Canavieiras. Permaneceu no pastorado dessa igreja até 30 de junho de 1911. No dia 6 de outubro desse ano, participou da organização da igreja de Urubutinga (Lagarto), em Sergipe.

Após uma breve estada em Cachoeira (1911), regressou a São Paulo, tendo pastoreado a igreja de Rio Claro de maio de 1912 a dezembro de 1915. Nessa época, começou a receber conversos do catolicismo sem rebatizá-los, atraindo críticas de conhecidos líderes da igreja. No ano seguinte, a Assembleia Geral da IPB reafirmou a prática tradicional de rebatismo dessas pessoas. As tendências ecumênicas do Rev. Salomão, que haviam se manifestado desde o início do seu ministério, levaram-no a filiar-se em 1917 à Igreja Episcopal Brasileira, à qual serviu por vários anos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Expressou suas ideias sobre a unidade cristã na obra Princípios e métodos (1915), ampliando reflexões anteriores. Organizou em 1928 a “Ordem de Santo André”, como autarquia auxiliar da igreja. Posteriormente, aderiu ao movimento dos Velhos Católicos. Promoveu o Congresso Católico Livre (1936), no fim do qual criou a Igreja Católica Livre do Brasil e foi eleito seu primeiro bispo. Ficou conhecido como “Dom Lourenço”. A 2ª Guerra Mundial afetou seus planos de ser sagrado bispo pelos velhos católicos europeus.

Em 15 de agosto de 1945 recebeu a solene investidura da “sacra episcopalis” de Dom Carlos Duarte Costa, ex-bispo de Botucatu que recentemente havia sido excomungado pelo papa Pio II e fundara a Igreja Católica Apostólica Brasileira. Finalmente, em 8 de dezembro de 1959, Dom Salomão aderiu à Igreja Católica Romana, perante o cardeal Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta. De todos os bispos sagrados por Dom Costa, ele foi o único reconhecido como válido pelo Vaticano, no pontificado de João XXIII. Em 1963, foi nomeado bispo titular de Eleutherna, em Creta, e participou do Concílio Vaticano II. Também foi nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro. Faleceu no dia 11 de maio de 1969, em São Paulo. Sua esposa, D. Emília, havia falecido em 1963.

O Rev. Boanerges Ribeiro contava que Dom Salomão, já idoso, certa vez foi a um culto na Igreja Presbiteriana do Calvário, no Campo Belo, em São Paulo, e pediu para falar algumas palavras. Disse que residia nas proximidades do templo presbiteriano (Rua Amazonas, atual Jesuíno Maciel) e sempre ouvia os hinos que eram cantados, o que lhe dava saudades do tempo em que militou nos arraiais presbiterianos. Na Bahia, em companhia do colega Matatias Gomes dos Santos, redigiu o jornal Imprensa Evangélica em sua segunda fase (1908). O jornal tinha o mesmo formato e o mesmo cabeçalho com a âncora simbólica presentes no original. Também foi redator de A Espada (Canavieiras), Aleluia, O Católico Livre e A Fé Nacional. Publicou vários livros e opúsculos, entre os quais Manifesto do clero evangélico do Rio de Janeiro (1922), Oração da pedra (1924), Manual de orações (1925), Liturgia da Santa Comunhão (1929), A santa Igreja Católica (1930), A fé nacional (1932), A igreja e a sinagoga (1936) e Maioridade nacional: civil e religiosa (1941), bem como artigos, cartas abertas e mensagens em periódicos. Traduziu o livro O apóstolo São Paulo (1925), de James Stalker. Foi diretor interino da Biblioteca Pública de São Paulo.

No Hinário Presbiteriano, existem os seguintes hinos com letras suas: “Divino Instruidor” (83), “Pequena vila de Belém” (232) e “Brilhando por Jesus” (362). A letra original de “Pequena vila de Belém” foi escrita pelo grande pregador episcopal Phillips Brooks, pastor da Trinity Church, em Boston. No Hinário Evangélico, o Rev. Salomão tem dois hinos: “Oráculos divinos” (143) e “Brilhando por Jesus” (156). Salomão e Emília tiveram sete filhos: Anita (1904), Noemi (1906), Nair (1908), Hermes (1909), Plínio (1913), Rute (1914) e Ester (1916). Noemi foi esposa do Rev. Roldão Trindade de Ávila (1903-1992), pastor da Igreja Presbiteriana Independente e professor da Faculdade de Teologia da IPI. Hermes Ferraz escreveu o livro Dom Salomão Ferraz e o ecumenismo (1995).

Dr. Alderi Matos

© Alderi Souza de Matos – Instituto Presbiteriano Mackenzie – Usado com permissão

(1880-1969)

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