A primeira hinógrafa protestante – Rolando de Nassau

(Especial para “Hinologia Cristã”)

Em 2 de agosto de 2015, dei início ao meu propósito de ouvir todas as cantatas sacras de Bach.

Na sequência, a 94ª. cantata ouvida, aproveitando o feriado de 15 de novembro de 2016, foi “Herr Christ, der einge Gottessohn” (Senhor Cristo, o unigênito Filho de Deus), que no catálogo BWV recebeu o no. 96.

Esta cantata foi composta para o dia 8 de outubro de 1724, que para mim tem uma significação muito particular.

É baseada na leitura do Evangelho de Mateus (22: 34- 40), em que Jesus responde aos fariseus, e os constrange com a observação de que Ele é, ao mesmo tempo, Filho e Senhor. Essa resposta, dada pelos pregadores em seus sermões, na época de Bach (1685-1750), é a dos cristãos da atualidade.

O autor desconhecido do libreto manteve a primeira e a última (quinta) estrofes do hino de Elisabeth Cruciger, escrito em 1524 (ver: Evangelisches Gesangbuch, no. 67, edição de 1994):

1. “Herr Christ, der einig Gottes Sohn,
Vaters in Ewigkeit,
Aus sein Herzen entsprassen,
Gleich wie geschrieben steht,
Er ist der Morgenstern,
Sein Glänzen streckt er ferne
Vor andern Sternen klar”.

2. Senhor Cristo, o unigênito Filho de Deus,
Pai na eternidade,
No Seu coração originado,
Como está escrito,
Ele é a Estrela da Manhã.
Seu brilho se irradia para longe,
Para outras estrelas iluminar.

O outro propósito da cantata de Bach e do hino de Elisabeth Cruciger é servir de porta-voz da congregação, que, na quinta estrofe, pede a Deus a conduza pelo caminho certo, com as seguintes palavras:

5. “Ertöt uns durch dein Gute,
Erweck uns durch dein Gnad.
Den alten Menschen kränke,
Das ser neu Leben hab wohl
Hier auf dieser Erden,
Den Sinn und all Begierden
Und G’danken hab’n zu dir”.

6. Extermina-nos por meio da Tua bondade
E ressuscita-nos por meio da Tua graça.
Aos velhos dá a enfermidade,
Para que possam ter uma nova vida,
talvez aqui nesta terra.
Para que o sentido da vida,
O desejo e a gratidão voltem-se para Ti.

(ver: Dürr, Alfred. As Cantatas de Bach. Bauru, SP: EDUSC, 2014)

Este hino não foi traduzido do alemão para o português, a fim de ser usado por nossas congregações.

O maestro Martin Schreier, apresentando o texto da cantata BWV-96, citou os pregadores Martin Luther (em 1526 considerou “schon” (belo) o poema de Elisabeth) e Johann Gerhard, e os escritores Nikolaus Stenger (1649), Johann Götzinger (1708), Augustin Pfeiffer (1710) e Martin Schemelius (1710), que comentaram os aspectos teológicos.

O erudito pesquisador Blume escreveu que alguns hinos dos primórdios da Reforma luterana não sobreviveram ao século 16, mas “Herr Christ, der einig Gottes Sohn” permaneceu imortal (ver: Blume, Friedrich. Protestant Church Music, p. 32. London: Victor Gollancz, 1975).

Elisabeth, nascida em 1505, na família nobre Von Mesevitz, na Pomerânia Ocidental (Polônia), através de Johannes Bugenhagen converteu-se na juventude às ideias reformistas e foi para Wittenberg (Alemanha), onde faleceu em 1535.

Em 1524 casou-se com o pregador e teólogo Caspar Cruciger, assistente de Lutero.

Nesse mesmo ano, com apenas 19 anos de idade, escreveu o hino aqui comentado, que foi publicado no “Ein Lobgesang von Christo” (Um canto de louvor a respeito de Cristo), em Erfurt. Assim, foi a primeira hinógrafa da Igreja Protestante.

Rolando de Nassau.

Brasília, DF, em 15 de novembro de 2016.

© 2016 de Rolando de Nassau – Usado com permissão

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