A evolução do Canto Congregacional – Rolando de Nassau

Em mais de dois mil anos, as igrejas cristãs têm privilegiado a salmodia ou a hinodia, o canto coral ou o canto congregacional.

  1. A tradição judaica – A religião israelita dava grande importância à execução instrumental e ao canto coral baseado no Saltério. Os livros de Samuel e os de Crônicas contam-nos que “Davi tocava ante o Senhor todas as espécies de instrumentos”. No Templo de Jerusalém, “quatro mil homens louvavam ao Senhor com instrumentos”. O sacrifício era celebrado em honra do Deus de Israel, duas vezes por dia, pela manhã e pelo fim da tarde, sendo acompanhado por música instrumental, canto coral e orações. Os sacerdotes, que constituíam o clero superior (cerca de 7.200 clérigos), sobre os degraus do pórtico abençoavam o povo. Os levitas (cerca de 9.600 pessoas), que pertenciam à primeira classe do clero inferior, eram cantores e músicos. No tempo de Jesus, os levitas tinham ressentimentos de classe contra os sacerdotes; reivindicavam o uso da veste sacerdotal; os servidores do Templo (porteiros, guardas e serviçais) pleiteavam o direito de aprender cânticos…Os assistentes ouviam o coro dos levitas e apenas respondiam com as aclamações “Amém” e “Aleluia”. O canto coral era cultivado pelos levitas, que faziam a cantilação dos salmos. Antes que o Templo de Jerusalém fosse destruído, no ano 70 da era cristã, depois de mais de mil anos de atividade musical, o número de sinagogas tinha aumentado muito; nas sinagogas, havia o canto congregacional, sem acompanhamento instrumental, no idioma semítico-aramaico.
  2. A atitude de Jesus – Na última Páscoa, a que estiveram presentes Jesus Cristo e os Seus discípulos, houve o canto de salmos. Segundo a tradição, na Ceia, os apóstolos cantaram os salmos, atualmente numerados de 113 a 118, que celebram a saída do povo israelita da terra egípcia; essa sequência de salmos formava o “pequeno Hallel”, que era usado, no Templo de Jerusalém, em todos os festivais, e, consequentemente, na festa da Páscoa; teriam cantado também a litania, o “grande Hallel”, na forma do salmo doxológico (136). Os evangelistas Mateus e Marcos narraram essa gloriosa reunião, assinalando o seu término com o canto de um “hino”. É surpreendente que as narrativas das peregrinações evangelísticas de Cristo não se refiram ao canto congregacional, exceto na Ceia, pouco antes da crucificação. Cantando os “salmos”, Cristo e os Seus apóstolos estariam cumprindo a prática estabelecida pela lei judaica para a festa da Páscoa. Cantando um “hino”, estariam repetindo o canto congregacional característico das sinagogas.

Supõe-se que Jesus e os apóstolos eram indiferentes à solene liturgia do Templo, aos rígidos rituais de Jerusalém, preferindo as pequenas sinagogas do interior da Palestina, com a sua atmosfera pouco cerimoniosa e quase íntima. No Templo, às mulheres só lhes era permitido penetrar no átrio dos gentios; nas sinagogas, podiam penetrar na parte da sinagoga utilizada para o culto. Jesus chegou a declarar-se “maior que o Templo”.

Os autores dos quatro Evangelhos fazem, em 26 passagens, referência à presença de Jesus no Templo de Jerusalém, sendo que em apenas 10 dessas passagens Jesus estava ensinando ou curando.

Nos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, há 12 registros da presença de Jesus em sinagogas da Judéia e Galileia, sempre ensinando e curando.   

O evangelista João, que era empresário em Cafarnaum, mas residia principalmente em Jerusalém, não fez qualquer registro direto da presença de Jesus em sinagogas de Jerusalém, embora nesta cidade também existissem sinagogas de imigrantes oriundos de Roma (Itália), de Cirene e de Alexandria (Egito) e da Ásia.

  1. A prática do canto na era apostólica – Mesmo nos dias de Jesus, quem confessasse ser Ele o Cristo, era expulso da sinagoga. Depois do Pentecoste, e entre os anos 30 e 70 da era cristã, provavelmente os primeiros cristãos continuaram a participar em oculto dos serviços religiosos judaicos, no Templo e nas sinagogas. No ano 41 da era cristã, a perseguição de Herodes Agripa provocou uma dispersão judaica através do Império Romano e a organização, em Antioquia da Síria, da primeira Igreja Cristã entre os gentios. Os apóstolos abandonaram Jerusalém e infiltraram-se nas centenas de sinagogas rurais. Com a morte de Tiago, Paulo e Pedro, entre os anos 62 e 67, decretada pelos Romanos, e a nova perseguição movida pelos judeus, cristãos primitivos afinal foram definitivamente expulsos das sinagogas. Então, passaram a ter suas próprias reuniões, nas igrejas, dando ênfase ao canto congregacional e à celebração da Ceia do Senhor. A cantilação (recitação melódica) dos salmos, onde possível, continuou durante a era apostólica, à qual foram acrescidos cânticos improvisados procedentes das sinagogas. Provavelmente, elementos hebraicos (cultivados nas sinagogas) e gregos (desenvolvidos nas igrejas) participaram da formação do canto cristão, monódico e sem acompanhamento instrumental. A princípio nas sinagogas, depois nas igrejas que dispunham de coristas, certamente os cristãos usavam a cantilação em forma coral.

Separando-se dos judeus, cantavam o “Magnificat”, o “Benedictus Dominus Deus Israel”, o “Gloria in excelsis”, o “Nunc dimitis” e o “Benedictus que venit”, textos extraídos dos Evangelhos, e traduzidos para o latim, ao serem adotados pela Igreja de Roma; provavelmente, aproveitaram canções folclóricas constantes da coleção de hinos sírios conhecida como “Odes de Salomão”.

Filo, filósofo de língua grega, referiu-se à salmodia antifonal dos judeus de Alexandria, relatando que os cristão improvisavam hinos.

O ritual do Templo de Jerusalém teve pouca influência sobre a liturgia cristã, em formação, mas as igrejas primitivas conservaram alguns elementos do serviço religioso judaico: os salmos, as lições, as homilias e as preces. O culto compreendia, além das orações e de um sermão, a leitura da Lei e dos Profetas. Este esquema perdurou por mais de dois séculos; as perseguições, violentas e constantes, impediam toda manifestação exterior de culto.

O pouco que se sabe a respeito das origens do canto cristão é que ele procede dos cantos improvisado nas sinagogas e nas igrejas primitivas. É difícil, por causa da raridade dos documentos, saber algo a respeito da música litúrgica da época apostólica. Sobre esta questão, existem as pesquisas recentes de Suzanne Haik Vantoura e Ibrahim Gabriel Sowmy ) (ver: artigo nº. 457, “Cânticos muito antigos”, O JORNAL BATISTA, 25 mar.90, p.02).

Entre os anos 54 e 66 da era cristã, o apóstolo Paulo, em suas epístolas, recomendou aos crentes que as saudações cantadas fossem recíprocas (forma responsiva de canto congregacional?), que o louvor a Deus fosse através de “salmos, hinos e cânticos espirituais”. Os crentes de Éfeso e

Colossos obviamente conheciam os hinos e os cânticos espirituais. Alguns eruditos consideram os “hinos” como sinônimos gentios dos “salmos” dos judeus, e os “cânticos espirituais” como expressões musicais espontâneas (a glossolalia ou os cânticos melismáticos, sem palavras ou com pouquíssimas palavras) a serem usados pela congregação.

O livro dos Atos dos Apóstolos registra uma declaração-de-fé dos cristãos primitivos de Jerusalém; evidentemente, essa oração já existia, já era conhecida pela Igreja. Considerando que o estilo do Evangelista Lucas, nesse livro, sofreu, por volta do ano 65 da era cristã, a influência dos ambientes frequentados pelo escritor, e das instruções do Apóstolo Paulo, é muito provável que Lucas tenha formulado, nessa época, a referida declaração, com base na tradição oral, em sua própria memória, dos fatos, e nos textos messiânicos, que teria sido cantada, uns 33 anos antes, pela Igreja de Jerusalém.

  1. O canto no período pós-apostólico – Os escritos de Inácio de Antioquia (?-107), Plínio (62-113) e Clemente de Alexandria (170-220) oferecem-nos a imagem de Igrejas cantantes. A história do canto congregacional dos cristãos primitivos teria raízes não somente nos cantos improvisados das sinagogas, mas também no canto de salmos, em língua grega, cultivado nos ambientes de Antioquia, Bizâncio e Alexandria.

Inácio de Antioquia bem cedo introduziu entre os cristãos primitivos a participação da congregação na salmodia antifonal; os coros de monges cantavam os salmos de maneira antifonal; na teoria da música grega, cantar em antífonas significava cantar em oitavas; depois de cada verso, ou grupo de versos do salmo, a congregação cantava uma sentença curta, repetida como refrão; a congregação, bem treinada no canto, era dividida entre homens e mulheres; havia também salmodia responsiva; o cantor solista entoava o salmo; toda a congregação respondia com um refrão, entre os versículos; se a melodia era muito melismática, o coro substituía a congregação.

Na salmodia direta, herdada da tradição judaica, o salmo era cantado integralmente, de uma só vez, por um solista, ou por um pequeno grupo vocal, sendo dispensada a congregação.

Com este ensaio de canto congregacional, a hinodia começou a prosperar, principalmente em Antioquia, nas igrejas de língua grega e de membrezia síria.

Durante três séculos, os cristãos primitivos usaram o idioma grego (no tempo de Jesus, o povo da Palestina falava o aramaico em casa, usava o hebraico na leitura das Escrituras Sagradas, e o grego nas transações comerciais e nos atos políticos) e a versão do Antigo Testamento conhecida como “Septuaginta”, elaborada por setenta estudiosos de Alexandria.
O Sínodo de Antioquia (264-269) encorajou o uso de hinos ortodoxos. Clemente de Alexandria e Atenógenes (?-305) escreveram os dois mais antigos hinos, “Cristo, guia da infância” e “Luz radiosa”. Nessa época, à influência grega de Alexandria vai suceder, na criação de cânticos, a preponderância síria de Antioquia.

Com efeito, será a Síria o lugar privilegiado da hinografia e do canto congregacional. Entretanto, no momento mesmo quando Efraim da Síria (306-373) produzia centenas de hinos, ocorreu uma revolução litúrgica na igreja primitiva: a substituição da hinodia pela salmodia como fonte do canto litúrgico.

  1. A prevalecência da salmodia e do canto coral – Em meados do século IV, o latim passou a ser o idioma normal da liturgia cristã. Em 382, Dâmaso I confiou a Jerônimo (347-419) a tarefa de rever a tradução latina do Antigo Testamento, que ficou conhecida como “Vulgata”. A versão do Saltério foi adotada pela Igreja Romana. Isto implicou a necessidade de o canto litúrgico ser cultivado por uma elite: Silvestre I (314-335) tinha criado, em Roma, uma escola com a incumbência de executar uma boa parte do canto litúrgico; coerentemente, caberia a essa escola cantar em latim o Saltério adotado na liturgia. Então, o povo tornou-se muito mais espectador do que ator dos atos litúrgicos. Assim, o canto passou a basear-se no coro e na salmodia. Celestino I (422-432) organizou, como “Schola Cantorum”, a escola criada por Silvestre I; tinha a finalidade de não somente executar, mas também compor música litúrgica.

Coube a Gregório I, o Grande (540-604), a missão de organizar o tesouro (que ficou conhecido como Canto Gregoriano) dos textos e das melodias litúrgicas usadas pela Igreja Romana, com o propósito de unificar as liturgias ocidentais. Isto não impediu, até o século XV, a produção de motetos para uso coral extra-litúrgico, escritos por Hilário de Poitiers, Ambrósio de Milão, Venâncio Fortunato, Teodolfo de Orleans, Rabanus Maurus, Bernardo de Cluny, Bernardo de Clairvaux, Francisco de Assis, Tomás de Celano, Tomás de Aquino, Jacopone de Todi e Filipe de Vitry. Porém, durante 1.100 anos (424-1524), o canto coral do Saltério, em latim, prevaleceu na Igreja, e afastou  a possibilidade de a congregação cantar, em sua própria língua, a rica herança hinológica deixada pela prática pós-apostólica. (ver: Paul Huot-Pleuroux, Histoire de la Musique Religieuse – des origines a nos jours. Paris: Presses Universitaires de France, 1957).

  1. A tentativa luterana de restauração da hinodia e do canto congregacional Um dos propósitos de Martin Luther (1483-1546) na Reforma Protestante, influenciado pelo exemplo da comunidade de Jan Huss, era a restauração daquela herança. Em 1524, Lutero começou a promover a edição de uma série de hinários, contendo corais (coral, originalmente, era o arranjo polifônico do Cantochão, usado na liturgia católica alemã). Lutero adaptou esse arranjo para canto em uníssono pela congregação, na liturgia reformada. Hans Leo Hassler (1564-1612) e Samuel Scheidt (1587-1654) no século XVII começaram a harmonização de corais (ver: Henriqueta Rosa Fernandes Braga, Do coral e sua projeção na história da música. Rio de Janeiro: Kosmos, 1958), para uso congregacional nas igrejas reformadas.

O culto era celebrado em latim e em alemão; o latim era empregado nas partes mais importantes. Mesmo as partes da missa católica, tais como o Ofertório e a Comunhão, desde o início da Reforma rejeitadas pela doutrina luterana, tinham penetrado na liturgia reformada. A música poderia ser de um compositor católico ou protestante.

Nas igrejas, além do canto coral, havia música para órgão, que alguns músicos protestantes (Johann Walther, Hans Leo Hassler, Michael Praetorius, Johann Hermann Schein) compunham, para contrastar com a muita música de procedência católica.

Durante o período inicial da Reforma, a Igreja Católica já tinha uma firme tradição musical e um imenso repertório de composições para coro. Por isso, os compositores alemães não tiveram bastante ânimo para produzir música de acordo com as doutrinas reformadas. Apesar de todos os esforços para estabelecer uma ordem-de-culto caracteristicamente protestante, Lutero não conseguiu desviar os músicos alemães da tradição musical, que era católica e italiana. A música sacra erudita católica substituía o canto congregacional protestante. E mais: diminuía rapidamente o interesse em cantar hinos, predominavam o canto coral em latim e a música de órgão durante o culto, competindo com o sermão pastoral e a leitura bíblica.

O Sínodo Provincial de Colônia, em 1536, censurou o fato de o canto coral e a execução de órgão estarem pondo de lado a leitura da Epístola, do Credo e da Oração Dominical….Na época, tornaram-se cada vez mais frequentes as recomendações eclesiásticas no sentido de dar oportunidade ao canto congregacional em alemão; a música erudita deveria estar subordinada ao canto congregacional. Estranhamente, um grande número de antologias católicas foi publicado, entre 1537 e 1559, em Nuremberg, centro protestante da Alemanha…

Em pouco tempo, as ideias básicas de Lutero a respeito da música da Igreja Reformada tinham sido esquecidas.

O resultado dos esforços dos líderes eclesiásticos para adaptação e acomodação da Igreja Protestante à realidade do século XVI foi a divisão da congregação. Com a predominância do latim e a preponderância da salmodia e da música de origem católica, o culto reformado atendia às necessidades estéticas das pessoas cultas. A contemplação do canto coral ameaçou substituir a meditação no sermão pastoral.

No século XVII tornou-se mais evidente a separação entre o canto congregacional protestante e a música erudita europeia.

Para o crente simples, a música erudita executada nas igrejas tornou-se tão estranha, e quase tão ininteligível, quanto o estilo bombástico de sermão

do século XVII, que usava uma linguagem artificial, sobrecarregada de citações pomposas.

A rigor, entre 1520 e 1620, não houve diferença substancial entre os compositores sob a influência do ideal luterano e aqueles que trabalhavam para a liturgia romana (ver: artigos nº.s 443 e 444, “Músicos Protestantes”, I e II, O JORNAL BATISTA, 12 e 19 nov .89, p.02).

Por não rejeitar o ritualismo, o próprio Lutero tinha contribuído para a situação da música reformada naquele período.

Eram necessárias uma enérgica reorganização do canto congregacional e a deliberada supressão do latim, a favor da língua alemã. Estas medidas demoraram cerca de 200 anos para terem eficácia nas igrejas luteranas. O que pode ser creditado a Lutero foi ter incentivado centenas de poetas e compositores a trabalharem para a hinodia e o canto congregacional. A partir do início do século XVII, a Igreja Reformada na Alemanha passou a prestigiar os poetas e compositores (Philip Nicolai, Martin Rinkart, Heinrich Scheidt, Johann Crüger, Paul Gerhardt, Joachim Neander, Erdmann Neumeister, Gerhard Tersteegen) que ainda acalentavam o ideal luterano de oferecer à congregação oportunidade de participação no canto eclesiástico. Entretanto, o preço pago pelas igrejas reformadas que privilegiaram a hinodia e o canto congregacional foi a gradual perda de sua importância no desenvolvimento da música eclesiástica erudita, devido à hesitação na escolha de estilos musicais. No sul da Alemanha, alguns músicos (Paul Hainlein, Johann-Kaspar Kerll), protestantes, ainda mantêm a tradição católica. Em Leipzig, em 1710, a ordem-de-culto ainda usava textos latinos.

  1. A insistência calvinista e anglicana na salmodia

Jean Calvin (1509-1564) em 1533 aderiu ao reformismo luterano. Divulgou, na França e na Suíça, os ideais reformistas, mas desde cedo preocupou-se com a introdução do canto congregacional, embora baseado no Saltério, nas igrejas de Genebra. A música calvinista se fixou na salmodia, e não suscitou novos compositores, além de Louis Bourgeois e Claude Goudimel. Calvino era refratário ao uso de música “artística” no culto.

Na Inglaterra, além do canto coral, que empregava o antema, equivalente ao moteto católico, o canto devocional, extra-litúrgico, também usava o Saltério, influenciado pela música calvinista.

Richard Baxter, Benjamin Keach e Joseph Stennett advogavam o uso do canto e de hinos (cuja letra não era baseada em texto bíblico, mas em poemas de livre composição humana) pelas congregações protestantes e evangélicas inglesas.

A Versão Nova do Saltério, publicada em 1696, culminado 134 anos de prática da salmodia congregacional através de melodias e versões metrificadas dos Salmos, abriu caminho para a hinodia que, na Inglaterra, já era preferida pelos cristãos “dissidentes”, não-filiados à Igreja Anglicana.

  1. A lenta ascensão e a possível deterioração da hinodia e do canto congregacional.

Na opinião de Edmond Keith (ver: Hinódia Cristã. 2ª. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1987), “a idade áurea da salmodia começou com a Reforma e permaneceu até os meados do século dezessete”.

No início do século XVIII, enquanto a Igreja Anglicana ainda usava a salmodia, as igrejas independentes (Batistas, Congregacionalistas, outros grupos evangélicos), graças ao trabalho de Isaac Watts, contemporâneo de Bach, deram maior ênfase à hinodia e maior oportunidade ao canto congregacional, cujo exemplo estendeu-se a toda a Europa e à América do Norte.

Na Alemanha, em 1723, Johann Sebastian Bach (1685-1750) foi nomeado “Kantor” da escola de S. Tomás e “Director musices” das cinco igrejas luteranas de Leipzig. Além de compor muita música para vozes solistas, coro, diversos instrumentos, orquestra e órgão, Bach elaborou três melodias (BWV-452, 478 e 505) para a coleção de canções sacras de Georg Christian Schemelli e o baixo contínuo para as outras 66 canções (BWV-439-507) dessa coleção, escritas pelos famosos poetas Paul Gerhardt, Heinrich Elmenhorst, Valentin Erns Loescher, Christian Scriver, Johann Franck, Johann Gottfried Olearius e Simon Dach. Para quatro vozes, Bach harmonizou 186 corais (BWV-253-438); muitos desses corais, de uso congregacional, foram incorporados em seus oratórios e cantatas sacras. No serviço religioso luterano, uma peça para órgão, o “prelúdio coral”, precedia frequentemente o canto congregacional; ao todo, Bach compôs 141 peças para órgão (BWV-559-768) baseadas em corais,  que são os hinos da Igreja Luterana. Com a obra de Bach, a hinodia e o canto congregacional, quanto à qualidade, chegaram ao apogeu.

Somente em meados do século XIX, depois da iniciativa de Reginald Heber e do chamado movimento liturgista de Oxford, é que a Igreja Anglicana permitiu o uso de hinos, desde que estivessem subordinados à liturgia. William Henry Monk, compositor de um hino vespertino que consta no “Cantor Cristão” (de n.º 291, além do n.º 01), foi um dos editores musicais de “Hymns Anciet and Modern), o hinário adotado em 1861 pela Igreja Anglicana.

Neste século em que vivemos, depois de 300 anos de lenta transformação formal do hino, todas as denominações protestantes e evangélicas praticam o canto congregacional baseado na hinodia.

Até mesmo a Igreja Católica Romana, que em 1958 fez uma renovação de sua liturgia, prestigiando a hinodia, ultimamente através do movimento da Renovação Carismática, tem estimulado a produção e o uso de hinos.

Os fatores mais significativos na evolução da hinodia evangélica norte-americana, no século 20, têm sido o hino evangelístico (“gospel hymn”), o cântico espiritual dos negros (“negro spirituals”) e a canção evangelística (“gospel song”), com a introdução do elemento rítmico.

A mais recente ameaça à pureza doutrinária e à beleza artística da hinodia encontramos na música de “rock”, com todas as suas origens profanas, o que faz prever consequências danosas à espiritualidade das congregações durante o culto divino.

Rolando de Nassau

(Artigos publicados originalmente em “O Jornal Batista”, nos.472, 473 e 474, nas edições de 21 out 1990, 04 nov 1990 e 18 nov 1990, e republicados no site “Hinologia Cristã”, desde abril de 2016)

© 1990 de Rolando de Nassau – Usado com permissão.

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2 Resultados

  1. Jônatas Fernandes disse:

    Que Maravilha este Artigo!!!!! PARABÉNS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  2. Jônatas Fernandes disse:

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