Antônio Cerqueira Leite

Biografia

Antônio Pedro de Cerqueira Leite (1845-1883)

 

Antônio C. Leite

Antônio Pedro nasceu no dia 29 de junho de 1845 em São João de Morro Azul, comarca de Limeira, sendo batizado em Rio Claro. Era filho do goiano Antônio Remígio Ordonho e da mineira Cândida Pereira Lima, e primo de Eduardo Carlos Pereira, sendo dez anos mais velho do que este último. Era o mais novo de seis irmãos (José Rufino, Francisco Messias, Remígio, Rodrigo e Álvaro) e tinha também duas irmãs (Bárbara e Maria Bárbara). Aos nove anos, residindo em São João da Boa Vista, já estudava latim, o que continuou a fazer em Brotas com dois sacerdotes, um dos quais o futuro Rev. José Manoel da Conceição. Com o auxílio deste, empregou-se no comércio em Limeira, onde aprendeu música, para a qual tinha grande talento. Em 1864 estava novamente em Brotas, vindo a organizar uma banda de música que animava as festas locais. Nessa época (1864-1865), o evangelho estava chegando a essa pequena cidade, através das visitas de missionários como Alexander Blackford, Ashbel Simonton, George Chamberlain e Francis Schneider, além de José Manoel da Conceição, que acabava de abraçar a fé evangélica. Este, quando ainda padre, já vinha falando aos seus paroquianos das famílias Gouvêa e Cerqueira Leite acerca das suas lutas espirituais. Através desses testemunhos e da leitura da Bíblia, Antônio Pedro se converteu. O mesmo aconteceu com a mãe (viúva e professora) e com os irmãos.

Convocado para a Guerra do Paraguai em 1865, descobriu que esse fato resultara de uma perseguição, motivada em parte por suas novas convicções religiosas. Retirou-se para o sítio de Henrique Gomes, entre Brotas e Piracicaba, onde o Rev. Blackford foi convidá-lo para estudar com vistas ao ministério. Por dois anos, foi contratado para fazer o serviço de colportor, vendendo e distribuindo Bíblias, Novos Testamentos e folhetos. Em agosto e setembro de 1866, saiu de São Paulo na companhia de outro recém-convertido, Miguel Torres, fazendo longa excursão pelo Vale do Paraíba até Cachoeira e depois ao sul de Minas, visitando Santana do Sapucaí, Pouso Alegre e Camanducaia. Em Santana residiam seus tios Manoel e Bárbara Pinto de Andrade, sendo esta irmã de sua mãe, D. Cândida. Em outubro e novembro os dois moços fizeram nova viagem, dessa vez por Bragança, Amparo, Serra Negra, Socorro, Capela Nova (Monte Sião), Jacutinga, Pinhal, Samambaia (Andradas), Santa Rita, Caldas e Santana do Sapucaí. Em 12 de novembro, achando-se em São José do Paraíso, correu perigo de ser recrutado, pois se esquecera do seu passaporte. Com isso, deixou Miguel Torres e partiu de imediato para São Paulo.

No dia 30 de dezembro de 1866, um domingo, estando presente o Rev. Simonton, Antônio Pedro foi recebido por profissão de fé e batismo na Igreja de São Paulo, organizada no ano anterior, e partipou pela primeira vez da Santa Ceia. Logo em seguida, novamente acompanhado por Miguel Torres e em parte do caminho pelos Revs. Blackford e Conceição, percorreu o Vale do Paraíba até Pindamonhangaba, distribuindo literatura e testemunhando. Em setembro de 1867, foi na direção oposta: Sorocaba, Tatuí e Itapetininga.

No início de março de 1868, embarcou em Santos no vapor Santa Maria. Chegou à corte no dia 8 e ingressou no Seminário do Rio de Janeiro, fundado por Simonton quase um ano antes. Foram seus professores os Revs. Schneider e Blackford; teve aulas de álgebra com aquele e de oratória com este, além de outras matérias. Seus colegas eram Modesto Carvalhosa, Antônio Trajano e o companheiro de viagens Miguel Torres. Os estudantes eram treinados a fazer debates sobre os assuntos mais diversos, ouvindo críticas de todo o grupo. Além de estudar, Antônio Pedro ensinou música na escola paroquial anexa à Igreja do Rio. Saudoso do lar e dotado de um temperamento sensível, escreveu muitas cartas com informações interessantes e curiosas sobre o seu estado de ânimo e as atividades acadêmicas do seminário. Lutou com muitas dificuldades, até que um incidente desagradável fez o cálice transbordar. Numa sexta-feira de 1870, ao iniciar um discurso que preparara como parte de seus deveres acadêmicos, ficou nervoso e esqueceu-se do que devia dizer.  Abandonou o seminário e regressou a Brotas, onde se dedicou ao ensino primário na escola evangélica anexa à igreja.

Em abril e maio de 1872, acompanhou o Rev. Robert Lenington, pastor da Igreja de Brotas, em uma longa excursão evangelística ao sul de Minas, passando por Araras, Mogi-Mirim, Borda da Mata, Pouso Alegre, Bom Retiro, Campanha e Caldas. No mesmo ano, a Sra. Mary Ann Annesley, esposa do Rev. Chamberlain, o persuadiu a continuar os estudos em São Paulo, para onde se dirigiu em setembro. Incentivado pela mãe, venceu o seu natural acanhamento, bem como as saudades de Brotas e da família. Em 30 de dezembro de 1872, numa reunião extraordinária do presbitério em São Paulo, foi aceito como candidato ao ministério. Deu prosseguimento aos seus estudos com os Revs. Chamberlain e Emanuel Vanorden, e cooperou com Palmira Rodrigues, uma das primeiras professoras da Escola Americana (desde fevereiro de 1872). Foi licenciado em 10 de agosto de 1873 e poucos dias depois, em 18 de setembro, na residência do Rev. Chamberlain, casou-se com Palmira, que também era dotada de grande talento musical, sendo exímia pianista. Ela havia sido arrolada na Igreja de São Paulo em 3 de junho de 1872. No mesmo dia do casamento o casal seguiu para Soracaba, onde Antônio Pedro iria cumprir a licenciatura. Durante três anos, realizou estudos especiais por determinação do Presbitério do Rio de Janeiro.

Após ser aprovado no exame final de teologia e proferir os votos constitucionais, Antônio Pedro foi ordenado ao ministério no dia 8 de agosto de 1876, no Rio de Janeiro, proferindo a parênese o colega Modesto Carvalhosa, ordenado cinco anos antes. Residiu em Sorocaba durante dez anos, desde a sua licenciatura até o final da carreira, em 1883. Trabalhou em prol da construção do templo local e dedicou-se de maneira especial à música sacra, criando o primeiro coral presbiteriano do Brasil (1876), que se tornou muito afamado. No dia 22 de junho de 1883, escreveu de Paranapanema durante uma viagem: “Espero que os membros do nosso coral se tenham adiantado nos ensaios e que a nossa jovem organista tenha aprendido a tocar muitos hinos durante estes 32 dias que já tenho estado ausente, afora os que ainda vou gastar para chegar em Sorocaba. Quando lá chegar, quero ter o prazer de ouvi-la tocar bastante”.

Foi incansável evangelista, empreendendo longas viagens a cavalo até os sertões de Faxina (Itapeva). Sua primeira visita a essa antiga cidade ocorreu em 1875, quando ainda era licenciado. Consta que, ao aproximar-se do lugar, desceu do cavalo e orou de joelhos, apreensivo. Bateu à porta de um membro da família Moura. Veio recebê-lo uma criada, que foi depressa contar ao dono da casa: “Aí está um homem parecido com Jesus Cristo”. A igreja foi organizada no dia 4 de maio de 1879. Na ocasião, foram recebidos três membros e batizadas duas crianças. Um dos pioneiros foi o presbítero João Antunes de Moura, que trabalhou como colportor e evangelista, indo até Guarapuava, no interior do Paraná. Foi pai do Rev. Uriel de Moura, que serviu por muitos anos ao Presbitério de Itapetininga. O vasto campo de Antonio Pedro também incluía localidades como Tietê, Tatuí, Itapetininga, Guareí, Lençóis, Paranapanema, Rio Novo, Capão Bonito e Apiaí. Numa de suas cartas, ele disse: “Andei pelo Rio Novo, Faxina e Paranapanema. O evangelho vai entrando por esse sertão que é um gosto ver-se”. Organizou a Igreja de Guareí no dia 12 de junho de 1882. Pouco antes de sua morte, foi convidado para pregar no estado vizinho. Diz ele: “Nesta minha viagem tencionava penetrar no Paraná e pregar nas cidades de Castro e Ponta Grossa, mas o tempo era impróprio, por ser inverno. Tive, porém, o prazer de receber um abaixo-assinado, firmado por nove pessoas, que de Castro me pediam que fosse lá pregar”.

Foi colaborador assíduo da Imprensa Evangélica, revelando-se hábil polemista. Em 1880, escreveu nesse jornal uma série de artigos que dois anos depois foram enfeixados em um opúsculo de cinquenta páginas, As Bíblias Falsificadas, Resposta a uma Velha Pastoral. Consistia na refutação de uma pastoral do arcebispo da Bahia, D. Manoel Joaquim da Silveira, que fora escrita em 1862, sendo mais tarde reproduzida pelo Dr. Estêvão Leão Bourroul em seu jornal O Monitor Católico, de Franca, São Paulo. No púlpito, o jovem ministro era uma figura atraente. Alto, pálido, fronte ampla, cabelos pretos e bigode espesso, olhos negros e brilhantes, tinha voz timbrada e simpática entrecortada pela emoção, dicção clara, exposição simples e agradável, sem grandes arroubos, gesticulação apropriada e postura modesta, formado um conjunto que impressionava agradavelmente o auditório.

O operoso ministro faleceu durante a 19ª reunião do Presbitério do Rio de Janeiro, realizada na capital do império. Pouco antes, realizara a longa excursão a cavalo pelo seu vasto campo, mencionada acima. Portador de problemas cardíacos, seu médico havia desaconselhado a ida ao presbitério. Sendo o moderador do presbitério no ano anterior, Antônio Pedro presidiu a sessão de abertura, pregando um inspirador sermão sobre Lucas 7.39-48. Após os trabalhos, dirigiu-se com o colega Miguel Torres para Santa Teresa, onde estavam hospedados na residência do Rev. James T. Houston, pastor da Igreja do Rio. Ao raiar do dia seguinte, 31 de agosto de 1883, logo após responder ao colega, que lhe perguntara como havia passado a noite, o Rev. Antônio Pedro foi vitimado por uma síncope fulminante, falecendo aos trinta e oito anos de idade e sete de ministério. Foi sepultado no dia seguinte, 1° de setembro, no Cemitério de São Francisco, no Caju. Oficiou no enterro o Rev. Robert Lenington e Miguel Torres proferiu tocantes palavras de despedida. Foi o quarto obreiro presbiteriano a falecer, depois de Simonton, William Pitt e José Manoel da Conceição. Pretendia iniciar a evangelização do Paraná logo após o regresso do presbitério.

Antônio Pedro e Palmira tiveram sete filhos: Filúvio (morto na infância), Júnia, Lisânias, Algina, Lisenor, Jaziel e Nefália. Pelo menos duas filhas, Júnia e Nefália, foram batizadas pelo Rev. Chamberlain. Todos estudaram na Escola Americana. O obreiro falecido deixou um continuador na pessoa do seu filho Lisânias de Cerqueira Leite (1875-1943), que foi engenheiro civil e ocupou importantes cargos em empresas ferroviárias. Mais tarde, estudou no Seminário Unido e foi ordenado pastor em 1925. Herdou do pai o gênio de polemista, tendo refutado um livro do padre Leonel Franca. Júnia foi professora em Cajuru e baluarte da igreja daquela cidade (faleceu em 17-11-1902); Lisenor foi membro atuante da Igreja Unida de São Paulo e a caçula Nefália veio a casar-se com o Rev. José Ozias Gonçalves. Outro destacado membro da família foi o sobrinho e discípulo de Antônio Pedro, Remígio de Cerqueira Leite (1858-1904), que por muitos anos lecionou na Escola Americana e depois na Escola Normal da Praça da República.

Dona Palmira casou-se em segundas núpcias com o Sr. João Exel, com quem teve duas filhas: Scintilla e Alísia. Residiu em Mococa (SP), onde fundou o Colégio Americano, e foi professora por muitos anos no Colégio Carlota Kemper, em Lavras. Faleceu em julho de 1912, vitimada por um acidente na Estrada de Ferro União Valenciana, perto de Valença, para onde se dirigia. Após ter residido em Lavras, a professora Scintilla mudou-se para Belo Horizonte, sendo arrolada na igreja presbiteriana daquela nova capital em 23 de fevereiro de 1925 e designada superintendente da escola dominical. Da família Cerqueira Leite procederam vários outros ministros, como os Revs. Hélio de Cerqueira Leite (1917-1970) e Mário de Cerqueira Leite Júnior (falecido em 21 de dezembro de 1969). Hélio era filho de Raul e neto de José Rufino, irmão mais velho do Rev. Antônio Pedro (era, portanto, sobrinho de Elvira, irmã de Raul e esposa do Rev. Herculano de Gouvêa). Por sua vez, o Rev. Mário era neto de Francisco Messias, outro irmão de Antônio Pedro, e sobrinho do professor Remígio de Cerqueira Leite.

Dr. Alderi Matos

Fontes:

Vicente T. Lessa, Annaes, 45, 86a (foto), 87, 95, 112, 116, 125s, 141, 145, 220-223; Júlio A. Ferreira, História da IPB, I:85-88, 136, 150, 187s, 190s, 198-202, 279; Eduardo Carlos Pereira, “Traços Biográficos do Rev. Antonio Pedro de Cerqueira Leite”, O Estandarte (4 e 11-01-1912), 17-30; Notas de falecimento de D. Palmira Exel: O Puritano (11-07-1912), 6, e O Estandarte (18-07-1912), 16; “Rev. Antônio Pedro de Cerqueira Leite”, Nosso Álbum (Brotas, 1933); Júlio A. Ferreira, O Apóstolo de Caldas, passim; McIntire, Portrait, 5/40s; Lázaro Lopes de Arruda, “A Igreja Presbiteriana de Itapeva no marco de cem anos”, Brasil Presbiteriano (15-05-1979), 7; Henriqueta Braga, Música Sacra Evangélica, 349s; Oswaldo Emrich e Túlio Vargas, Pioneiros da Evangelização Presbiteriana no Paraná, 7; Boanerges Ribeiro, Protestantismo e Cultura Brasileira, 262s; Lázaro Lopes de Arruda, Os Meus Dias (Indaiatuba: Rumograf, 1997), 90; Samuel Kerr, Atividade Musical na Igreja Presbiteriana Unida, 45-49; Genealogia da Família Cerqueira Leite, Arquivo Presbiteriano.

© Alderi Souza de Matos – Instituto Presbiteriano Mackenzie – Usado com permissão

Fotografia enviada pelo Colaborador Alderi Matos

(1845-1883)

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2 Resultados

  1. Ralph Franco disse:

    Meu ancestral.

  2. Ralph Franco disse:

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