Martinho Lutero

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Martinho Lutero (1483-1546)

 

Lutero e a Música

A reforma luterana foi precedida por um século de movimentos, liderados, entre outros, por Jan Huss (1369-1415), e tendentes a reformular a estrutura e funcionamento da Igreja Católica. Tomás de Kempis (1379-1471) e Erasmo de Roterdam (1467-1536) pretendiam purificar a fé católica e expurgar as instituições eclesiásticas, em meio à decadência moral da época.

Os abusos da Igreja, a teologia medieval, a influência dos místicos, os desprestígios e a tributação papal, o nacionalismo e o despotismo aceleraram a eclosão do movimento de protesto.

O inconformismo religioso na Boêmia e na Morávia, manifestado um século antes da reforma luterana, sobreviveu ao Concílio de Trento e à Contra-Reforma, e só foi interrompido violentamente depois de 1620.

Em seguida ao martírio de Huss, adepto das doutrinas de John Wyclif (1320-1384), criou-se a liturgia em língua popular; em 1417, pela primeira vez, a missa foi cantada em tcheco, em Praga. Os seguidores de Huss reduziram o repertório tradicional do Canto Gregoriano no “Jistebnicky Kancional” (Cancioneiro de Justebnice) e a comunidade dos Irmãos Morávios tornou-se um centro de cultura tcheca. A partir de 1501, foram impressos na Boêmia numerosas coleções de cânticos.

A Alemanha estava economicamente atrasada e politicamente subdividida. O espírito religioso era muito profundo no povo germânico, embora as classes sociais estivessem descontentes com a Igreja de Roma. Lutero foi a expressão religiosa das perturbações políticas e sociais da Alemanha no princípio do século XVI.

Em 1517, o comércio das indulgências servia a negócios políticos de autoridades religiosas. Nesse ano, Lutero teve oportunidade de aplicar a sua nova concepção da salvação cristã.

O papa Leão X (1513-1521) tinha decretado as indulgências, cuja renda reverteria em benefício da construção, em Roma, da nova Igreja de S. Pedro. Johann Tetzel (1470-1519), monge dominicano, encarregado de arrecadar as indulgências, no propósito de conseguir grandes somas de dinheiro fazia o elogio dos seus benefícios.

Martin Luther (1483-1546), convencido de que somente uma relação pessoal e íntima com Deus poderia trazer salvação, pregou contra as indulgências vendidas pelo papa e, em 31 de outubro de 1517, afixou à porta da igreja de Wittenberg as suas famosas “Noventa e Cinco Teses”; nesse dia, Lutero iniciou a maior revolução da história da Igreja Cristã: a Reforma Protestante.

A Reforma teve repercussões na doutrina, na organização eclesiástica, na literatura, na liturgia e na música cristãs da Europa.

Na Alemanha, houve a ruptura brusca com a Igreja de Roma; na Inglaterra, apesar da crescente tensão entre o reinado de Henrique VIII (1509-1547) e o papado de Leão X, a manutenção quase integral da liturgia romana; na França, foi mantida a tradição doutrinária, eclesiástica, litúrgica e musical católica. Em consequência, a Alemanha luterana adotou o choral e a Inglaterra anglicana o anthem, como formas de música litúrgica.

As congregações luteranas progrediam rapidamente, sem qualquer estatuto eclesiástico ou norma litúrgica.

Em 1521, após o Edito de Worms, Lutero refugiou-se no castelo de Wartburg, onde durante um ano ocupou-se com a tradução do Novo Testamento para a língua alemã.

Sem a liderança de Lutero, asilado em Wartburg, o movimento reformista sofreu os impactos e as desilusões dos adversários e dos revolucionários; começaram as divergências e as cisões.

Lutero ainda não tinha orientado os seus adeptos quanto às alterações necessárias no culto público da igreja reformada.

Gabriel Zwilling (1487-1558), em outubro de 1521, denunciou a missa, as imagens e os votos clericais, como “resquícios da Igreja Romana”.

No Natal de 1521, Andreas Bodenstein (1480-1541) celebrou a Ceia sem os paramentos, oferta sacrificial e elevação da hóstia, além de permitir à congregação participar do cálice; aboliu a confissão auricular, os jejuns e o celibato dos padres; opôs-se também ao uso do órgão e do Canto Gregoriano; fechou as irmandades religiosas e confiscou as suas propriedades; decretou a nacionalização da língua litúrgica; proibiu a mendicância.

Nessa mesma ocasião, chegavam a Wittenberg pregadores “radicais”, Nikolaus Storch e Markus Stubner, que condenaram o batismo infantil. Eram os Anabatistas.

A princípio, Lutero fortaleceu os radicais; depois, sentiu que sua causa estava em perigo por excessos cometidos.

Em março de 1522, Lutero voltou a Wittenberg e demonstrou seu conservadorismo doutrinário e litúrgico. Os dissidentes do Luteranismo estavam preocupando os príncipes germânicos, porque a reforma religiosa se transformava, aos poucos, em reforma social e política. Lutero teve de lutar, consequentemente, contra os romanistas e os revolucionários. Por isso, passou a contar com o apoio de alguns príncipes.

Lutero conservou alguns elementos do culto católico, tais como o uso de velas, do crucifixo e de imagens, mas o fato essencial na liturgia reformada é a supressão da doutrina da transubstanciação e a substituição da missa pelo sermão baseado na Bíblia.

O abandono de missas privadas e missas pelos defuntos criou um sério problema de sustento ministerial. Lutero permitia liberdade nos detalhes do culto, desde que a Palavra de Deus fosse conservada em posição central.

As várias congregações eram muito diversificadas, mas a tendência para o uso generalizado da língua alemã rapidamente cresceu. No exílio de Wartburg, Lutero escreveu uma coleção de sermões, que serviram de modelo para sucessivas gerações.

Lutero teve boa educação musical. Não era leigo, mas perito em música. Cantava, tocava flauta e alaúde, improvisando o acompanhamento; transcrevia composições vocais para o alaúde.

Como aluno da escola anexa à catedral de Magdeburg, provavelmente cantou nos serviços do culto; em Mansfeld e Eisenach, conheceu a teoria musical medieval; em Erfurt, teve instrução nas teorias musicais de Johannes Tinctoris e de Aristóteles; interrompeu seus estudos jurídicos em Erfurt para dedicar-se à teologia num convento agostiniano, quando aprofundou seu conhecimento dos conceitos musicais de Tomás de Aquino, e da liturgia católica, por ocasião de sua visita a Roma.

Ao começar o movimento reformista, em 1517, Lutero tinha uma sólida formação teológica, musical e litúrgica. Prestigiava a música: “Depois da teologia, dou à música o mais alto lugar e a mais elevada honra”. Para ele, a música não era apenas um belo ornamento a ser usado nas festas da Igreja; era um ingrediente essencial na vida intelectual e espiritual. Apreciava a música de Josquin des Prez, a ponto de escrever: “Deus também proclamou o Evangelho através da música, como a de Josquin”.

Durante seis anos (1517-1523), a igreja protestante não teve a sua própria música; nesse intervalo, a bagagem de Lutero foi enriquecida no relacionamento com Johann Walther (1496-1570), Konrad Rupsch (?-1525) e Georg Rhaw (1488-1548).

A principal fonte para estudar o conceito luterano da música encontra-se no seu  prefácio a uma obra de Rhaw, editor em Wittenberg; a música é um dom divino, desde o início do mundo, instilado em todas as criaturas.

Lutero preferiu a prática musical (óptima ars), ao invés da teoria musical (optima scientia), como meio de divulgar suas ideias reformistas e prestar louvor a Deus, a Cristo e ao Evangelho. Pretendia Lutero que a função litúrgica da música desenvolvia-se no louvor, na devoção e na evangelização, sem levar em conta a filiação religiosa do compositor e a língua em que fora escrita a composição. Se possível, seriam usadas as línguas alemã, latina, grega e hebraica. Em consequência desta declaração de Lutero, algumas igrejas, no fim do século XVI, ainda usavam alternadamente o latim e o alemão em seus cultos.

Lutero queria muitos cânticos alemães que a congregação pudesse cantar, por isso, escreveu alguns lieder, arranjados a quatro vozes, para atrair os jovens. Dizia que queria ver todas as artes, especialmente a música, usadas no serviço de Deus.

No início de seu movimento, aparentemente não pretendeu conferir, à congregação e à língua alemã, papéis mais importantes no culto. Foi após sua saída do castelo de Wartburg, em 22 de março de 1522, que Lutero começou a elaborar hinos congregacionais e introduzir nos cultos das igrejas reformadas alterações litúrgicas. É certo que hinos alemães, antes da Reforma Protestante, eram cantados durante os serviços religiosos nas igrejas católicas. Lutero foi o grande incentivador do canto congregacional.

A fim de ajudá-lo na parte musical de sua obra reformista, convocou a Wittenberg os compositores Rupsch e Walther. Com este, discutia o uso dos oito modos eclesiásticos: dava às Epístolas o 8.º tom, e ao Evangelho o 6.º tom, porque “Cristo é um Senhor gentil e Suas palavras são amáveis; Paulo é um apóstolo severo, por isso as Epístolas terão o 8.º tom”; o 7.º modo servia para expressar a alegria, enquanto o 2.º modo era reservado à tristeza.

A obra hinográfica e litúrgica de Lutero deu impulso ao desenvolvimento da música sacra protestante. Lutero foi o Gregório protestante. Até a Reforma, a canção alemã (lied) era extralitúrgica; depois, tornou-se a matéria-prima do canto litúrgico luterano.

No século XVI, o Luteranismo ainda se considerava ramo da Igreja Católica, embora substituísse a “Missa” em latim pelo “Culto” em alemão. Ao mesmo tempo uma participação ativa no canto eclesiástico, prestigiava a tradição musical católica.

O pregador radical Thomas Müntzer (1488-1525), cuja “ordem-de-culto” rompia com a tradição litúrgica romana, elaborou hinos que provocaram em Lutero o desejo de adotar o modelo, com texto e a melodia que fossem sentidos naturalmente pelo povo alemão.

Lutero, músico praticante e admirador de Josquin, passou a preocupar-se com a música a ser executada nas congregações. Sem renunciar à tradição católica, em Wittenberg reformulou a missa.

Sua grande realização consistiu em restituir à congregação os direitos dos quais tinha sido despojada, com a criação das escolas de canto (Schola cantorum), no século IV.

Lutero aprovava a utilização de coros treinados, mas apreciava o canto das congregações, possivelmente influenciado por Huss e pelos Anabatistas da Boêmia. Exortava seus contemporâneos a cantar ao Senhor “um cântico novo”. Enfatizou o valor da canção sacra no culto cristão. Dizia que “ao Diabo não devemos deixar as melhores melodias”…

O “chorgesang (canto coral), ou kirchenlied (canção de igreja), foi uma fonte de inspiração para os compositores eruditos. O coral luterano destinava-se a ser cantado pela congregação, sem acompanhamento de órgão. O papel de Lutero não consistiu na invenção da forma litúrgico-musical, mas no seu aproveitamento.

A ideia de Lutero foi a de registrar, nos cânticos, a linguagem e a alma do povo.

Os cânticos deviam ser cantados em uníssono, mas Lutero não tardou a compilar corais para as diversas vozes e a organizar grupos de cantores (Kantoreien), para executar os corais.

Em sua primeira Formula Missae, de 1523, Lutero apenas fez objeções contra o canto de longos graduais, e recomendou que a escolha de certos hinos fosse feita pelo oficiante.

A Sinaxe era aberta pela antífona do Introito, cantada pelo coro ou executada pelo órgão. Em seguida, o coro entoava uma estrofe de salmo e o Gloria Patri; o órgão executava um moteto. O coro e o órgão, polifonicamente, apresentavam o Kyrie. O ministro entoava o Gloria, enquanto o coro e o órgão, antifonalmente, executavam o Et in terra; fazia a saudação sacerdotal, respondida pelo coro e pela congregação. Na Coleta, coro e congregação diziam “Amém”. O ministro lia a Epístola, o coro cantava o “Aleluia” e o órgão executava um novo moteto. Então, o coro, o órgão e a congregação, alternadamente, apresentavam o Gradual, seguido pela leitura do Evangelho e entoação do Credo, pelo ministro; polifonicamente, o coro dizia o Patrem, e o órgão o Credo; a congregação cantava “Wir glauben all’an einem Gott”. O ministro proferia o sermão; o coro e a congregação cantavam antes e depois do sermão.

Seguia-se a Liturgia: na celebração da “Santa Ceia”, o coro cantava, polifonicamente, o Sanctus, o hino “Jesus Christus, unser Heiland”, ao qual se juntava a congregação, e o cântico da Comunhão. Finalmente, a Liturgia era completada pelo ministro e a congregação.

A Ordnung Gottesdienst (Ordem do Serviço Divino), de 1523, abandonou muitas peças da liturgia católica, mas a Formula Missae permitia a celebração inteiramente na língua latina.

Em 1524, foi elaborada a segunda Formula Missae, simplificando o ritual luterano. Na Sinaxe, o coro cantava um hino ou salmo em alemão (“Ich will den Herrn loben” ou “Meine Seele soll sich rühmen”), e, por três vezes, o Kyrie. Depois da Coleta e da Epístola, era cantado o hino “Nun bitten wir den heiligen Geist”; depois do Evangelho, o hino “Wir glauben all’an einem Gott”. O ministro proferia o sermão. Na Liturgia, celebrava-se a “Santa Ceia”; depois da Consagração, o coro e a congregação cantavam os hinos “Jesaia, dem Propheten”, “Jesus Christus, unser Heiland” ou “Christe, du Lamm Gottes”. Esta “Ordem-de-culto” foi usada pela primeira vez no Natal de 1524, na igreja paroquial de Wittenberg, e publicada em 1525.

Em 1524, por três semanas, Lutero dedicou-se à composição de hinos, inventando as melodias com a ajuda de sua flauta.

Lutero desejava fazer “salmos alemães para o povo, isto é, hinos, de maneira que a Palavra de Deus possa permanecer entre o povo, também por meio do cântico”.

Em 1524, em Wittenberg, apareceu o primeiro hinário protestante alemão, Etlich christliche Lieder, Lobgesang und Psalm (Alguns Cânticos, Hinos e Salmos Cristãos), com oito hinos, dos quais quatro eram de Lutero, e quatro melodias; também chamado Achtliederbuch (Livro dos Oito Cânticos). Esses hinos foram ensinados nas escolas e divulgados pelos estudantes andarilhos (Kurrende Knabe). A educação musical e a catequese dos jovens tiveram o generoso apoio dos reformadores.

Os inimigos de Lutero diziam que ele tinha destruído mais almas através de seus hinos do que por meio de seus escritos e discursos.

Em 1526, em Wittenberg, foi publicada a Deutsche Messe und Ordnung Gottesdienst; em consequência da Dieta de Espira, a Igreja Reformada foi reconhecida em alguns Estados alemães e a missa em alemão foi institucionalizada. Entretanto, Lutero não abandonou completamente o uso do latim. Ainda em 1536 eram celebradas missas latinas. Apesar disso, foi influenciado por Müntzer.

Lutero conservou certas melodias gregorianas, mas evitou comprometer-se com a estética musical gregoriana.

Acredita-se que mais de mil hinos, medievais e renascentistas, foram admitidos no culto público, depois da Reforma Protestante; foram os primeiros hinos realmente destinados às congregações alemãs. Os protestantes de outras nações europeias resistiram à adoção de hinos em seus cultos públicos. Os Reformadores alemães preferiram os hinos às sequências de origem católica.

Em 1524, foram publicadas três coleções de hinos: Etlich christliche Lieder, Lobgesang und Psalm (Alguns Salmos, Hinos e Cânticos Cristãos), com 8 cânticos; Erfuter Enchiridion (Manual de Erfurt), com 25 hinos; e Geystliche Gesangbüchlein (Livreto de Cânticos Espirituais), com 38 corais.

As coleções incluíam hinos latinos, cânticos alemães e canções de origem folclórica. Foram conservadas melodias religiosas e aproveitadas melodias profanas.

Ainda na época de Lutero, foram publicadas duas coletâneas: em 1540, em Augsburg, o Neues Gesange mit dreien Stimmen für den Kirchen und Schulen (Novos cânticos a três vozes para as igrejas e escolas), por Johann Kugelmann; em 1544, em Wittenberg, o Neue deustche geistliche lieder (Novas canções espirituais alemãs), por Georg Rhaw.

Por volta de 1550, o repertório luterano estava baseado nos corais; na segunda metade do século XVI, foi simplificado para facilitar o canto congregacional.

Numa carta a seu amigo católico Ludwing Senfl, em 1530, Lutero opinava assim: “A música é uma disciplina que toma as pessoas mais pacientes e mais afáveis, mais modestas e mais razoáveis. Ela é um dom de Deus. Depois da teologia, nenhuma arte não pode ser igual à música. A música é o bálsamo mais eficaz para acalmar, para alegrar e para vivificar o coração daquele que está triste, daquele que sofre…É imprescindível cultivar a música nas escolas…É necessário habituar a juventude nesta arte…O canto é a melhor arte e o melhor exercício”.

Lutero usou a música como eficaz meio evangelístico.

Lutero aproveitou canto uníssono (baseado na tradição do Canto Gregoriano), canto monofônico (na tradição alemã) e polifonia (na arte erudita europeia) na formação da música sacra protestante. Além de escrever hinos originais, conscientemente usou cânticos anteriores à Reforma: cânticos litúrgicos em latim, cânticos religiosos em alemão e canções folclóricas, que foram traduzidos ou adaptados. Sem muito êxito, procurou produzir uma liturgia que evitasse a influência do radical Thomas Müntzer. Proscreveu as sequências latinas da Igreja Católica, devido ao fato de serem usadas em festas mariolátricas e hagiográficas; os cânticos marianos eram sempre modificados.

Da hinodia baseada em cânticos litúrgicos latinos, Lutero traduziu ou adaptou doze peças; Jesus Christus, nostra salus, em “Jesus Christus, unser Heiland”, 1524, A solis ortus cardine, em “Christum wir sollen loben schon”, 1524; Veni, Creator Spiritus, em “Komm, Gott Schopfer, heiliger Geist”, 1524; Veni Sancte Spiritus, em “Komm, heiliger Geist”, 1524; Veni, redemptor gentium, em “Nun komm der Heiden Heiland”, 1524; In Deum patrem omnipotentem, em “Wir glauben all’an einen Gott”, 1524; Grates nunc omnes, em “Gelobet seist du”, 1524; Media vita in morte summus, em “Mitten wir im Leben sind”, 1524; Da pacem Domine, em “Verleih uns Frieden Gnadglich”, 1529; Te Deum laudamus, em “Herr Gott, dich loben wir”, 1529; Hostis Herodes impie, em “Was furchtest du, Feind Herodes”, 1541; e O lux beata Trinitas, em “Der du bist drei in Einigkeit”, 1543.

Lutero elaborou sete hinos baseados em salmos na língua latina: Salvum me fac, Salmo 12, em “Ach, Gott vom Himmel”, 1523, Dixit insipiens, salmo 14, em “Es spricht der Unweisen”, 1524; De profundis, salmo 130, em “Aus tiefer Not”, 1523 e 1524; Deus misereatur, salmo 67, em “Es wollt uns Gott”, 1524; Nisi qui Domini, salmo 124, em “War Gott nicht mit uns”, 1524; Beati omnes, salmo 128, em “Wohl dem, der in Gottesfürchte”, 1524; Deus noster refugium, salmo 46, em “Ein feste Burg”, 1529.

Foram oito os hinos baseados em passagens bíblicas: Dies sind die heiligen zehn Gebot, Decálogo, em 1524; Mensch, willist du leben, Decálogo, 1524; Mit Fried und Freud, Cântico de Simeão, 1524; Jesaia, dem Propheten, Visão de Isaías, 1526; Sie ist mir lieb, A Igreja descrita no Apocalipse, 1535; Vom Himmel hoch, A Natividade, 1535; Vater unser, Pai Nosso, 1539; Christ, unser Herr, Batismo de Cristo, 1541.

Em 1524, Lutero adaptou quatro cânticos religiosos alemães medievais: Christ ist uferstanden, em “Christ lag in Todesbanden”, para a Páscoa; Nun bitten wir den heiligen Geist, para o Pentecoste; Gott sei gelobet und gebenedeit. Esses cânticos, provenientes de hinários boêmios hussistas, constituíram a segunda fonte do canto luterano.

Lutero escreveu a letra original de cinco hinos: Ein neues Lied, em memória de dois mártires queimados em Bruxelas, 1523; Nun freut euch, em ação de graças, 1523; Jesus Christus, unser Heiland, para a Páscoa, 1524; Erhalt uns, Herr, para as crianças, 1541; e Vom Himmel hoch, para o Natal, 1543.

Assim, Lutero escreveu, traduziu ou adaptou a letra de 36 hinos, dos quais o mais famoso é “Castelo forte é o nosso Deus”, de 1529, cuja música foi incluída no Gesangbuch de Joseph Klug, impressor de Wittenberg.

São atribuídas a Lutero 13 melodias. A participação de Lutero na composição das melodias é difícil de determinar.

Na época de Lutero, o coral não tinha acompanhamento de órgão.

São atribuídas a Lutero as seguintes melodias: “Aus tiefer Not”, “Ein neues Lied”, “Es spricht der Wunweisen”, “Mensch, willst du leben”, “Mit Fried und Freud”, “Jesus Christus, unser Heiland”, “Wohl dem der in Gottes fürcht steht” e “Nun freueuch”, todas compostas em 1524; “Jesaia, dem Propheten”, 1526; “Nun freut euch”, Klug, 1529; “Ein feste Burg”, 1529; “Vater unser in Himmel hoch”, 1540.

Assim como o rito romano considerou as melodias gregorianas como partes essenciais da liturgia católica, tão importantes quanto os textos, as melodias luteranas tornaram-se litúrgicas nas igrejas reformadas.

Lutero escreveu 36 hinos, dos quais 23 foram elaborados entre 1523 e 1524; os outros 13 hinos, depois de 1524. Isto confirma a tese de que os escritos litúrgicos do Reformador imediatamente suscitaram a compilação e publicação dos primeiros hinários protestantes, de Walther e Klug.

Lutero rejeitava a doutrina católica da transubstanciação, por isso eliminou muitas orações por ocasião da celebração da Ceia do Senhor e reduziu os atos litúrgicos.

A Formula Missae, de 1523, estabeleceu partes com textos permanentes ou variáveis, correspondentes ao Ordinário e ao Próprio da missa católica.

Em 1526, sob a influência do radical Müntzer, a missa protestante ainda permitia o uso de partes em latim, mas o sermão deveria ser em alemão. Desta vez, foi dada maior oportunidade ao canto congregacional.

A canção religiosa medieval Gott sei gelobet und gebenedeiet serviu para sustentar o argumento de Lutero favorável à distribuição dos dois elementos da Ceia do Senhor, embora ele fosse contrário à observância da festa católica do Corpus Christi.

Lutero elaborou uma nova versão para a canção natalina Gelobet seist du, Jesu Christi, que foi incluída em hinários católicos.

A canção medieval Gott der Vater wohn uns bei era uma litania usada em procissões e iniciada por nomes de santos; Lutero transformou-a numa invocação à Santíssima Trindade, o mesmo fazendo com o cântico litúrgico Wir glauben all’an einen Gott.

Os reformadores aproveitaram antigas canções folclóricas, adaptadas “ao uso cristão”, isto é, apropriadas ao culto luterano, pois também tinham sido usadas em paróquias católicas, apesar da resistência dos liturgistas romanos.

Do folclore, temos alguns exemplos: Ich hort ein Fraunleinklagen (em “Herr Christ, der einig Gottes Sohn”); Mein Gemut ist mir verwirret (em “O Haupt voll Blut”) e Innsbruck, ich muss dich lassen, já aproveitada por Heinrich Isaac, em 1475 (em “O Welt, ich muss dich lassen”.)

Os reformadores também usaram a técnica do contrafactum (elaboração de um texto religioso para uma melodia profana) para mais facilmente divulgar suas doutrinas e estimular a participação do canto congregacional. Na época de Lutero, não importava se o texto primitivo era religioso ou profano;  aceitar uma melodia profana não constituía problema. A técnica da contrafactum significava a mistificação da melodia. Lutero não queria, todavia, que todas as belas melodias fossem monopólio dos ímpios…

Isso implicou na introdução de contrafacta, às centenas, no repertório luterano.

Vom Himmel hoch é um exemplo de contrafactum feito por Lutero; a princípio, o texto luterano foi associado à melodia original; depois, com a melodia atualmente ainda em uso, talvez composta por Lutero.

O conservantismo de Lutero, que alguns eruditos consideraram “homem medieval” fez com que ele relutasse em abandonar a língua latina e a liturgia católica. Em 1523, ele julgava não haver contradição entre a missa latina e o culto reformado em alemão. Em 1526, prescreveu uma missa em alemão, porém manteve o ofício em latim. Lutero admirava sua antiga língua litúrgica e supunha que ela ainda estava sendo usada pela juventude.

Entretanto, a liberdade que concedeu às paróquias reformadas para a realização de seus cultos públicos contribuiu para a lenta formação da genuína música sacra protestante. As paróquias rurais tinham uma liturgia e uma execução musical modestas. As urbanas desenvolveram uma nova liturgia e uma nova música sacra.

Nas igrejas que possuíam coros treinados, eram executadas obras eruditas, em geral na língua latina. Nas congregações modestas, o canto congregacional era na língua alemã. O coral luterano continha elementos folclóricos, por isso teve aceitação pelo povo. Mais tarde, compositores eruditos aproveitaram temas de corais.

Lutero marcou para sempre o culto protestante: adoção da língua vulgar, uso mais frequente da Bíblia, maior participação da congregação, aproveitamento de melodias folclóricas, autonomia dos pastores na elaboração da Ordem-do-Culto.

O culto público das igrejas cristãs foi afetado pela teologia dos reformadores, que propunha quatro novas perspectivas:

1) a ênfase sobre o sacrifício, representado na missa católica, passou para a ação-de-graças, que caracteriza o ritual luterano.

2) a ênfase sobre o elemento visual (cerimonial) transferiu-se para o elemento verbal (sermão);

3) a ênfase sobre o dogma cedeu lugar ao texto bíblico;

4) a ênfase sobre o ofício quotidiano (horas canônicas) foi abandonada em proveito do serviço semanal (culto dominical). Essas perspectivas orientaram os compositores ligados a Lutero (Walther, Rupsch, Senfl, Rhaw, Martin Agrícola, Arnold von Bruck, SIxt Dietrich, Benedictus Ducis, Johannes Lupus Hellinck, Stephen Mahu, Johannes Kugelmann, Thomas Stoltzer, Balthazar Resinarius) na elaboração do repertório musical reformado.

Por outro lado, a teologia, depois da Reforma Protestante, foi afetada pela música, pois tornou mais fácil o acesso do crente ao seu Criador; o canto devocional ou congregacional foi a expressão da doutrina do sacerdócio universal dos crentes.

Lutero escreveu seu primeiro hino, Ein neues Lied (Um novo cântico), em 1523, comovido com o martírio de dois jovens monges agostinianos que aderiram à Reforma em Bruxelas.

Lutero era homem afetuoso. Depois do jantar, costumava cantar hinos com seus filhos e amigos. Em 1535 dedicou o hino Vom Himmel hoch (Do alto céu venho) a um dos seus seis filhos.

Musicista inato e culto, além de uma monografia, escreveu um poema em louvor da Música.

Com a morte de Lutero, em 1546, terminou a primeira etapa da música protestante. Passados mais de 435 anos, a influência de Lutero ainda é sentida na música ocidental.

Em 31 de outubro de 1517, Martin Luther (1483-1546) afixou à porta da igreja de Wittenberg as suas “Noventa e Cinco Teses”, iniciando a maior revolução na história da Igreja Cristã: a Reforma Protestante.

Dentro de poucos anos, excomungado pelo papa em 1520, Lutero tornou-se o líder da Reforma Religiosa do século XVI.

Intimado a comparecer perante o tribunal de Worms, sua jornada foi marcada pela ovação popular. Conta-se que, em abril de 1521, a caminho do julgamento, cantava hinos que expressavam sua fé.

No tribunal, afirmou que a substância de seus escritos era irretrátável. O imperador Carlos V (1500-1558) tentou dissuadí-lo, mas Lutero declarou categoricamente: “Não posso fazer de outro modo. Mantenho o que escrevi. Que Deus me ajude”. Tamanha coragem impressionou e dividiu os juízes. Pouco depois, foi banido do Sacro Império Romano-Germânico, e permaneceu o resto de sua vida sob a  condenação imperial. Tivesse a Alemanha da época um forte governo central, Lutero teria sido martirizado. Mas o Eleitor da Saxônia, Frederico, o Sábio (1486-1525) protegeu a vida de Lutero, conduzindo-o secretamente para o castelo de Wartburg, perto de Eisenach. Nesse esconderijo, Lutero durante quatro meses de 1521 traduziu o Novo Testamento, do grego para o alemão.

Após a saída do castelo, abandonando o asilo, em março de 1522, Lutero começou a se preocupar com a organização do culto público das igrejas reformadas.

Em 1523 iniciou a elaboração dos poemas de 36 hinos, dos quais o mais famosos é Ein feste Burg ist unser Gott (Castelo forte é o nosso Deus).

Nesse ano publicou um escrito litúrgico combatendo o conceito católico de sacrifício e sugerindo o sermão e o canto congregacional como as partes indispensáveis do culto divino. Separando-se cada vez mais da tradição católica, recomendou, em 1526, que a missa fosse cantada em alemão.

Na Dieta de Speier (Espira), convocada em fevereiro de 1529, a maioria católica estava muito hostil ao movimento luterano e pretendia praticamente a abolição da organização da Igreja Evangélica em bases territoriais. Lutero temia que todo seu trabalho fosse perdido. Incapazes de revogar a nova legislação, os representantes luteranos, em 19 de abril de 1529, apresentaram formalmente seu protesto; desde então, ficaram conhecidos como “Protestantes”.

Nesta situação crítica, inspirado pelo Salmo 46 (“Deus é nosso refúgio e fortaleza”), Lutero escreveu a letra do hino Ein feste Burg ist unser Gott. Relata-nos Philip Melanchton (1497-1560) que as estrofes foram concebidas sem esforço, pois Lutero na ocasião necessitava sincera e profundamente da consolação divina. Há divergências entre os musicólogos quanto à autoria da composição. O hino foi publicado, com música, no Geistliche Lieder (Cânticos Espirituais), de 1529, por Joseph Klug, impressor de Wittenberg. Na edição de 1535, saiu com o título latino Deus noster refugium et virtus.

Este hino contém “reminiscências gregorianas”; a melodia, se verdadeiramente foi concebida por Lutero (ver: Friedrich Blume, Protestant Church Music. London: Victor Gollancz, 1975, pp. 43 e 66), era, todavia, original; foi alterada por Johann Sebastian Bach (1685-1750), que lhe deu o caráter marcial, de maneira a satisfazer o gosto musical de sua época. Se pudéssemos ouvir o hino na execução de Lutero e de seus amigos, provavelmente soaria muito estranho e triste; apesar disso, tornou-se o hino de batalha e a canção de desafio dos primeiros protestantes (ver: Richard Friedenthal, Luther. London: Weindenfeld and Nicolson, 1970, pp. 460-464).

O Eine feste Burg dos germânicos (A Mighty Fortress, para os ingleses) é um hino universal; o poeta Heinrich Heine (1797-1856) denominou-o de “a Marselhesa Protestante”.

Para Lutero, este hino devia sublinhar as verdades evangélicas; por isso, utilizou-o, no caminho para a Dieta de Speier, como instrumento de propaganda doutrinária.

Durante a vida de Lutero, foram publicados cinco arranjos deste hino: um, para três vozes, com a melodia no tenor, na coletânea Neue Gesang, mit dreien stimen, für den Kirchen und Schulen, de Johann Kugelmann, em Ausburg, em 1540; três arranjos, para quatro vozes, com as melodias no baixo, elaboradas por George Rhaw, Martin Agricola e Johannes Lupus Hellinck, incluídos na coletânea Neue deutsche geistliche Gesang, de Rhaw, em Wittenberg, em 1544; e um arranjo, para cinco vozes, com a melodia no tenor, também na coletânea de Rhaw, feito por Stephen Mahu.

Johann Walther elaborou, em 1545, uma composição manuscrita, a quatro vozes, para o poema de Lutero, incluída no Geistliche Lieder und Psalmen (Cinquenta Salmos e Cânticos Espirituais), publicado em 1586, que se tornou o protótipo dos hinários luteranos.

Johann Friederich (1600-1638) fez um cânone e Johann Crueger (1598-1662) uma harmonização do hino.

Samuel Scheidt (1587-1654) e Johann Pachelbel (1653-1706) compuseram o hino para órgão.

Johann Sebastian Bach (1685-1750) aproveitou em 1730 a melodia na Cantata n.º 80, em comemoração do Dia da Reforma e do bicentenário da Confissão de Augsburg.

Johann-Christian Kittel (1732-1809), Max Reger (1873-1916) e Franz Eckhardt (1887) também aproveitaram a melodia em peças para órgão.

Mais recentemente, Kurt Thomas compôs um moteto coral sobre o poema de Lutero.

Ein feste Burg ist unser Gott foi traduzido para as línguas inglesa (“A Might Fortress is our God”), francesa (“C’est um rempart que notre Dieu”), italiana “(Forte rocca è il nostro Dio”), espanhola (“Castillo flerte es nuestro Dios”), portuguesa (“Castelo forte é nosso Deus”) e muitas outras línguas.

Em 31 de outubro, é cantado em todo o mundo.

Para Friedrich Blume, “é um dos mais excelentes exemplos de perfeita unidade entre letra e melodia”.

Para James Moffatt, “é o maior hino do maior homem do maior período da história alemã”.

Além da cantata de Bach, este hino de Lutero figura na ópera “Les Huguenots”, de Meyerberr, na sinfonia “Reforma”, de Mendelssohn, na marcha “Kaiser-marsch”, de Wagner, e na abertura “Festival”, de Nicolai.

A influência de Lutero sobre a música foi intensa em sua época e tem perdurado nos últimos 400 anos. Sua obra musical, ainda merece estudo e cultivo entre os musicistas evangélicos.

Rolando de Nassau

Revisto em 02 de outubro de 2016.

(Publicado em “O Jornal Batista”, I – no. 267 – OJB, 04 set 1983 / II – no. 268 – OJB, 11 set 1983 / III – no. 269 – OJB, 18 set 1983 / IV – no. 270, OJB, 25 set 1983 / V – no. 271, OJB, 02 out 1983)
© 1983 de Rolando de Nassau – Usado com permissão

 

O Hino de Lutero

(Dedicado ao leitor Cláudio Costa, de Niterói, RJ)

Martin Luther (1483-1546) empreendeu, na primeira metade do século XVI, uma série de reformas na Alemanha; foi um movimento de ideias e práticas religiosas, conhecido como Reforma Protestante, que teve repercussões na religião, teologia e liturgia, na hinódia, canto e música, na literatura e política.

Escondido no castelo de Wartburg, perto de Eisenach, iniciou realmente a sua obra reformadora traduzindo a Bíblia do latim para o alemão. Na literatura, “Lutero é o maior escritor da língua, o Dante da literatura alemã” (ver:

Carpeaux, Otto Maria, História da Literatura Ocidental, vol. I-A, pp. 607-615 e 657. Rio de Janeiro: Edições “O Cruzeiro”, 1961).

Na política, escreveu “A liberdade de um cristão”; quando os camponeses alemães insatisfeitos (durante muito tempo esquecidos econômica e socialmente) ouviram as palavras de Lutero, guardaram-nas e marcharam atrás de Thomas Munzer para mudar pela força a ordem social (o que Lutero rejeitava) na revolta iniciada em 1525.

O movimento impulsionado por Lutero dividiu a Igreja cristã ocidental em duas facções opostas: a Igreja Católica Romana e as igrejas reformadas.

A teologia ensinada por Lutero na universidade de Wittenberg estava baseada na Bíblia, e não nas tradições da Igreja Romana; dava ênfase à doutrina da “justificação pela fé”.

Para ter uma liturgia “reformada”, foi necessário alterar a missa católica. A Igreja na Alemanha tinha desenvolvido uma tradição própria; além de usar tropos e sequências, na língua alemã eram cantados os Dez Mandamentos, as Sete Últimas Palavras de Cristo, alguns Salmos, o Credo e a Oração Dominical, bem como cânticos folclóricos no estilo “gregoriano”.

Lutero realizou uma gradual mudança na forma do culto; modificou o culto divino, que era celebrado na forma da missa católica, até então cantada exclusivamente pelo coro e sacerdotes, ao permitir o canto da congregação.

Na infância, tinha sido educado para tornar-se um cantor no “Kurrende”, um coro que ia de casa em casa para cantar em cerimônias matrimoniais e fúnebres. Na juventude, Lutero tomou conhecimento, e era ardoroso apreciador, da música coral de Ockeghem, Isaac, Obrecht e Josquin.

Entre 1524 e 1545, Lutero compilou nove hinários, cujas melodias eram procedentes de:

  1. Hinos alemães medievais;
  2. Hinos latinos (sequências, tropos, etc.);
  3. Composições destinadas à liturgia “reformada”. Como exemplo das melodias do primeiro grupo, citamos “In dulci jubilo”; do segundo grupo, “Veni, Redemptor genitum”, “A solis ortus cardine” e “Veni, Creator Spiritus”; do terceiro grupo, “Vom Himmel hoch” e “Allein Gott in der Hoh sei Ehr”. Lutero abandonou “Aus fremden Landem komm’ Ich her”, porque era melodia usada nas tavernas.

Em 1524 foi publicado o primeiro hinário reformado, “Achtliederbuch” (livro dos oito cânticos), contendo quatro hinos de Lutero. Ele contou com a colaboração de Johann Walther na publicação do “Wittenberg Gesangbuch” (livro de cânticos de Wittenberg); Lutero selecionou as melodias e os textos, enquanto Walther elaborava as composições polifônicas. Lutero era músico prático na direção da música-de-igreja; convocava compositores profissionais para ajudá-lo. Ele teve participação importante no desenvolvimento do “coral”, hino destinado à participação da congregação na liturgia “reformada”; a ele são atribuídos 37 corais, cujos textos e melodias adaptou com base no repertório usado pela Igreja antes do movimento reformista (ver: Riedel, Johannes, The Lutheran Chorale, 1967).

O mais conhecido de seus “corais” é “Ein Feste Burg ist unser Gott”

(Um castelo forte é o nosso Deus), cuja melodia procede do Canto Gregoriano; o texto é uma paráfrase do Salmo 46. Podemos imaginar Lutero contemplando os muros do castelo de Wartburg nos dias que antecederam seu julgamento em Worms (ver: OJB, 08, 15 e 22 out 2006). Sua confiança estava em Deus. Ele sabia que Satanás era o seu grande Inimigo; seu defensor era Jesus. Os adversários procuravam prendê-lo e matá-lo; a Palavra de Deus tinha poder para salvá-lo. Nada – ódio, ofensa, morte – poderia atingi-lo, porque o Reino de Deus é eterno! Lutero cria que o hino tinha poder para transmitir substância teológica.

O “Lutheran Book of Worship” (livro luterano para o culto), publicado pela “The Evangelical Lutheran Church in America”, contém a melodia original. Os hinários brasileiros em que figura o famoso hino de Lutero são os seguintes: “Hinário Luterano” (no. 165); “Hinário Evangélico” (no. 206); “Novo Cântico” (no. 155); “Cantai Todos os Povos” (no. 409); “Salmos e Hinos” (no. 640); “Cantor Cristão” (no. 323); “Hinário para o Culto Cristão” (no. 406); “Harpa Cristã” (no. 423).

No tempo de Lutero, os “corais” (hinos para a congregação) eram cantados sem acompanhamento instrumental; o órgão-de-tubos fazia o prelúdio; esse instrumento era usado em alternância com o coro: um verso tocado pelo órgão e o verso seguinte pelo coro e a congregação.

Quanto à data de elaboração do hino, existem algumas hipóteses:

  1. Numa noite de abril de 1521, preparando-se para obedecer à intimação pelo imperador Carlos V de comparecer perante o parlamento em Worms, onde defendeu suas obras teológicas; tendo saído de Wartburg e passado a noite com os Agostinianos na fortaleza Marienberg, em Wurzburg, próxima do rio Meno; o papa Leão X tinha inscrito o nome de Lutero na lista dos herejes, banindo-o da Igreja Católica;
  1. Algum tempo depois de 1521, lembrando-se do julgamento em Worms;
  2. Em 1527, quando sofreu sua primeira crise renal;
  3. Em outubro de 1527, por ocasião do décimo aniversário da afixação das Noventa e Cinco Teses na porta da capela do castelo em Wittenberg;
  4. Em 1527, quando soube da execução de crentes reformados em Bruxelas;
  5. Em 1529, por ocasião da invasão turca do Ocidente.

Lutero imprimiu o hino em folhas de papel, sem a melodia, que rapidamente se espalharam pela Alemanha; em 1529, o hino foi incluído na coletânea “Geistlich Lieder” (cânticos espirituais), publicada por Joseph Klug.

Em 19 de abril de 1529, as autoridades alemãs que adotavam as idéias de Lutero apresentaram, ao parlamento reunido em Espira, um protesto (daí o apelido “Protestantes”) contra as medidas legislativas referentes à liberdade de culto, que significavam séria ameaça à Reforma. Neste ambiente crítico, deprimidos, mas inspirados pelo Salmo 46, os crentes cantaram o hino de Lutero.

Tímida, angustiada e sombria, esta parece ser a interpretação fiel do hino (tal como gravada, em 1962, pelo Coral Luterano de Porto Alegre, regido por Hans Gerhard Rottmann, no LP-CAVE-DAVEL-CAV-4/6); e não intrépida e reluzente, como ocorre na grande maioria das execuções congregacionais e corais.

A ideologia nacionalista, apoiada por Otto Von Bismarck,  Heinrich Treitschke e o imperador Guilherme II, propunha-se a tornar a Alemanha uma potência européia. Pressentindo a eclosão do pangermanismo, Harry Heine deu ao hino de Lutero a alcunha, algo jocosa, de “Marselhesa da Reforma Protestante” …

Rolando de Nassau

 (Publicado em “O Jornal Batista”, 02 set 2007, p. 4).
(www.abordo.com.br/nassau/) Música N.720
© 2007 de Rolando de Nassau – Usado com permissão

Reforma e Música

Além de estar no centro de um novo movimento teológico, Lutero estava também no centro de um novo movimento musical. Martim Lutero foi, dentre os reformadores do seu tempo, o único a reconhecer o valor inestimável da Música e de recebê-la de braços abertos. Lutero pensou, trabalhou e utilizou a Música de modo singular na sua época, dispensando especial atenção para o uso e a função que a mesma passaria a ter na Igreja. É certo que ele apreciava todas as artes, a pintura, a escultura, a arquitetura. Isto porque ele entendia e enfatizava as expressões artísticas como parte da criação de Deus, uma dádiva de Deus para ser usada na proclamação da Palavra.

Entretanto, é certo também que, sobretudo, Lutero amava a Música e, em suas preleções sobre Gênesis (1535-1545), escreveu: Os milagres que se apresentam aos nossos olhos são muito menores do que aqueles que apreendemos com os nossos ouvidos. Sobre a Música, disse também, em 1538, no prefácio que escreveu para uma coleção de canções intitulada Symphoniae iucundae (que quer dizer ´Música agradável´) e que é um dos seus escritos mais completos e ´sistemáticos´ sobre Música: A Música é uma esplêndida dádiva de Deus e eu gostaria de exaltá-la com todo o meu coração e recomendá-la a todos […] e, por mais que eu queira exaltá-la [a Música], a minha exaltação será insuficiente e inadequada.

Com base nessa particular e profunda perspectiva, Lutero iniciou, sem meios termos, a ´sacudida´ mais completa que a música sacra já recebera, ou seja, estabelecer o canto comunitário como ingrediente vital do culto, colocando a música nos lábios e nos ouvidos das pessoas e, consequentemente, nos seus corações e na sua estima.

A partir deste conceito reformador, Lutero possibilitou que a Música e o canto comunitário, uma atividade que era apenas tolerada e aparecia em raríssimas ocasiões na Igreja medieval, adquirisse um novo status, o status de elemento central e indispensável no culto da Reforma Luterana. Assim Lutero o fez, porque estava convicto que não era suficiente que as pessoas estivessem apenas presentes às missas (cultos), mas as suas súplicas deveriam ressoar dos seus próprios lábios por meio de canções que pudessem traduzir o arrependimento e a contrição das suas almas e a sua fé e o seu louvor irromperem jubilosos em canto e música. Martim Lutero vislumbrou isso de modo especial por meio do que mais tarde foi denominado Coral Luterano, colocando em textos poéticos, na língua comum e em melodias cantáveis e bem compostas, a Palavra e a fé evangélica. Rapidamente, os hinos da Reforma espalharam-se pela cultura oral da Alemanha do século XVI.

Não há dúvidas de que um dos maiores aportes de Lutero foi o seu entendimento de que a música da Reforma deveria falar sobre o Evangelho diretamente para as pessoas. Ele estava convicto de que o tipo de hino que uma congregação canta determina o tipo de Teologia/espiritualidade destas pessoas. Caso se queira que esta Teologia/espiritualidade reflita o Evangelho, então, há que se ter em alta consideração e se cuidar muito bem daquilo que está sendo cantado pelas pessoas. Lutero pôs as mãos à obra, cercando-se da ajuda e do conhecimento dos melhores Poetas e Músicos da época, que ele fez questão de escolher a dedo. Lutero e os seus colaboradores não rejeitaram as tradições musicais da sua época. Pelo contrário, de forma genuína e genial, usaram e incorporaram à música das Igrejas da Reforma as práxis musicais existentes! Atentemos para algumas dessas principais práxis.

A música da Reforma Luterana herdou a grande tradição musical da Idade Média e da Renascença, que consistia basicamente da música polifônica e do canto gregoriano. Nestas ricas tradições, praticamente não havia espaço para o canto congregacional de cunho popular. Diferentemente, outra grande tradição musical da época da Reforma, a versão metrificada dos Salmos cantada em uníssono e a cappella (sem acompanhamento), abria vastas possibilidades para o canto congregacional. Nesta tradição, não havia espaço para uma arte musical mais elaborada. Lutero e as gerações de Músicos luteranos que o seguiram nos séculos posteriores fizeram uso de ambas as correntes, combinando a tradição musical mais artística e elaborada com o canto congregacional de cunho popular.

O resultado musical desta combinação foi o Coral Luterano, com os seus textos poéticos centrados no Evangelho e escritos no vernáculo (na língua local) e não mais em Latim, com melodias vigorosas e com saltos e extensões de voz pensadas para o canto grupal, com cadências (pontos de repouso) ao final das diversas frases, com estruturas rítmicas fortes e baseadas em padrões de ritmo recorrentes. No seu conjunto, estas características resultaram em composições musicais em que texto e melodia formam uma totalidade, permitiram que o Coral Luterano fosse percebido como algo familiar e possibilitaram que comunidade, Coros e Instrumentistas se sentissem confortáveis, ´em casa´, enquanto cantavam e tocavam.

Lutero levou adiante a sua reforma na Música, ocupando-se não apenas com resultados musicais finais, como adaptação e composição de novos hinos, escritos sobre Música, publicações de hinários, missas cantadas, etc., mas, como educador que era, preocupou-se igualmente com a base, com a formação e o ensino. Lutero tinha clareza que a Música deveria ser uma parte integral da educação das crianças e da formação de Professores e Ministros e foi inflexível em acentuar essa importante tarefa. Dentre várias das suas falas a respeito, salienta-se: A necessidade exige que a Música permaneça nas escolas. Um Professor deve saber cantar, do contrário não o considerarei. Antes que um jovem seja admitido ao Ministério, ele deve praticar Música na escola.

Martim Lutero agiu diretamente com as instâncias públicas, responsáveis pela educação e formação de lideranças. Em 1524, Lutero escreveu e fez recomendações ´Aos Conselhos de todas as cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas´, destacando sobre a Música: Falo por mim mesmo, se eu tivesse filhos e tivesse condições, não deveriam aprender apenas Línguas e História, mas também deveriam aprender a cantar e estudar Música. Mais tarde, já pai, ele escreveu ao Reitor Marcus Crodel: Estou lhe enviando meu filho João para que seja incluído no grupo de meninos que serão instruídos em Gramática e Música […]. E diga a Johann Walther que eu oro por seu bem-estar e que confio meu filho a ele para aprender Música, pois eu, é claro, formo Teólogos, mas gostaria também de formar Filósofos e Músicos.

Johann Walther, a quem Lutero enviou o seu filho para estudar Música, é considerado o primeiro chantre (Diretor Musical) luterano e foi um dos grandes Compositores e Poetas da época, além de conselheiro musical e amigo pessoal de Lutero. Em 1538, Walther publicou uma obra em rimas, de cunho didático, intitulada ´Louvor e Exaltação à Arte da Música´, na qual desenvolveu toda uma Teologia da Música. Para esta publicação, ele pediu a Lutero que escrevesse um prefácio. Acompanhando o espírito do escrito de Walther, Lutero escreveu em versos o ´Prefácio a Todos os Bons Hinários´ e, seguindo o costume de Poetas, Pintores e Escultores da época, de representar a Música como uma figura feminina, colocou os seus versos nos lábios da ´Dama Música´ (citado em um fragmento abaixo), exaltando as suas qualidades, expressando a sua admiração e libertando a Música de uma gama de ideias que limitava o seu uso e as suas possibilidades, tendo-a como uma atividade essencial e vivificante na Igreja, uma legitima viva vox Evangelii, a viva voz do Evangelho.

A Dama Música [assim diz]: Dentre todos os prazeres sobre a terra não há maior que seja dado a alguém do que aquele que eu proporciono com meu canto e com doces sonoridades. Não pode haver má intenção onde houver companheiros cantando bem, ali não há zanga, briga, ódio nem inveja; toda mágoa tem que ceder, mesquinhez, preocupação e o que mais atribular não mais oprimem o coração. […] E, [a música] rainha de todos, rouxinol que o coração de todos alegrará com o seu canto maravilhoso. Por isso, devemos ser-lhe sempre agradecidos. Mas primeiro a Deus, nosso Senhor, que por sua Palavra a criou para ser sua própria cantora e da música amante. Para nosso querido Senhor ela entoa seu cântico, em seu louvor noite e dia, a ele eu ofereço meu canto e agradeço por toda a eternidade.

Prof. Dr. Werner Ewald

© 2012 de Werner Ewald – Usado com permissão
Fonte original: Jornal Evangélico Luterano, 2012, outubro – Portal Luteranos

(1483-1546)

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1 Resultado

  1. Ótimo trabalho! Parabéns ao autor!

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