O grande banquete – Um convite a reflexão

Por – Nilber Ferreira e Arkadt dos Santos
Estes últimos dias foram intensos. Perdemos uma grande referência na adoração: Ron Kenoly, que faleceu aos 81 anos, sendo cerca de 40 deles dedicados a conduzir a Igreja à adoração. Em outro âmbito, surgiram manifestações a respeito do sagrado e do profano, envolvendo cultura, arte, música, poesia, licença poética, ambiguidade, variações estéticas, discursos rasos, tons acalorados, o caminhar com fé — mas também com razão. Muitas expressões e inúmeros desdobramentos.As controvérsias levantadas passaram a flutuar nas redes sociais, ora de forma desenfreada, ora mais equilibrada. Elas se originaram da exposição pública de um recorte do sermão cantado “O Grande Banquete”, baseado na parábola da Grande Ceia, registrada em Lucas 14, produzido pelo Coletivo Candiero, uma trupe de artistas cristãos do Nordeste. A ideia central do grupo é difundir a brasilidade na música cristã e ocupar espaços além das quatro paredes eclesiásticas. Marco Telles, um dos líderes do Candiero, enfatiza uma Igreja que invada ambientes universitários, teatrais, cinematográficos e outros tantos que a cultura permita. Isso é salutar; é o IDE de Jesus, a Grande Comissão. Tantos ventos de informação, sem convergir para um refrão ou conclusão comum, causaram um grande “auê”. A canção acabou sendo tornada um “mantra”, um “chiclete”. Ao longo da história da humanidade — e também da Igreja — música e arte sempre apresentaram formatos, variações e misturas, jamais sendo estáticas. Músicos de diferentes vertentes têm abençoado a Igreja com inúmeras composições.

O lendário Luiz de Carvalho, nos anos 1950, surgiu tocando violão — então considerado instrumento da boemia e da malandragem —, interpretando boleros e lançando o disco Violão Convertido, enfrentando grandes resistências.
Em 1974, a missão VPC, que utilizava versões norte-americanas, lançou o LP Vento em Popa, considerado por muitos o melhor álbum da música cristã brasileira, com canções genuinamente de músicos brasileiros. Nelson Bomilcar (VPC), em Prontos para a Adoração, trouxe uma levada nordestina e cantou no refrão: “Jesus Cristo, nosso Lampião”. Janires, junto com o Rebanhão, pioneiros do rock cristão, vieram com baião em canções como “Paletó Listrado de Uma Listra Só”, “Coração… Bolha de Sabão…”, “Jesus, Mais Doce que o Mel”.
Mais à frente, no final dos anos 1980, o Catedral surgiu com rock alternativo, letras de amor e política, tendo Kim, sua voz principal, com forte similaridade a Renato Russo. Outras bandas como Novo Som, Katsbarnea, Resgate, Oficina G3 e Fruto Sagrado também nunca se moldaram a estéticas tradicionais das igrejas. O uso de bateria e o ato de bater palmas nos cultos, durante décadas, eram vistos como distúrbio litúrgico. Hoje, na grande maioria das comunidades cristãs, isso já não é um problema. Baden Powell, violonista consagrado dos Afro-Sambas (Canto de Ossanha), converteu-se na década de 1990. Sua intensa busca por sabedoria o levou ao Evangelho e a conhecer mais profundamente Jesus. Passou a cantar “Samba da Bênção” sem a expressão “saravá”, que fazia alusão a cultos afro-brasileiros dos quais havia participado. Nesse ambiente de tantas vozes, é necessário avaliar com mais minúcia. Nossa cultura é diversa: somos uma mistura de europeus, indígenas e africanos. Herdamos traços profundos desses povos.
Deixaríamos de cantar o Hino Nacional por causa da expressão “ó Pátria amada, idolatrada”?
Ou abandonaríamos hinos do Cantor Cristão, muitos deles vindos do estilo “Negro espiritual” criado por escravos nas lavouras do Sul dos EUA , nessas canções se misturava elementos da música africana e da religião cristã dos colonizadores. A expressão “oxalá” pode ser encontrada na Bíblia, em versões da escritura mais antigas como da João Ferreira de Almeida, significa “queira Deus”, “tomara” ou “quem dera” expressão de origem Árabe in sha’ Allah (“se Deus quiser”). Nossas datas comemorativas deixaremos de celebrar por não serem exatas. Lutero, o estopim da reforma Protestante, que trouxe avanços em várias áreas também escreveu literatura antisemita ( contrária aos Judeus).

A música do Candiero em questão, apesar de dialogar com o universo do worship, traz melodias tipicamente brasileiras. Vale lembrar que “Auê” não é uma canção de liturgia regular das igrejas, mas pode ser utilizada em ocasiões específicas, eventos culturais, artísticos e teatrais. O ponto central está no “miolo” da canção: Zé e Maria entram na festividade, na ciranda, junto à criança, e surge o termo “auê”. Na forma como apresentado, gerou ambiguidade, neste contexto a a interpretação assume muitos contornos, nas religiões de matriz africana o termo significa: algazarra, confusão.
Em contraponto, Marco Telles explica que Zé e Maria representam o povo simples e esquecido, incluído no Grande Banquete, “auê”, no tupi-guarani, significa festa e ciranda é uma dança típica do litoral pernambucano.
Comunicar também envolve como o outro entende e assimila. O ruído nasce dessa multiplicidade de interpretações. Música é poesia, e a poesia explora o imaginário, que pode ser lido de diversas formas. Daí surgiu uma enxurrada de opiniões nas redes, algumas chegando a extremos. O problema, muitas vezes, está na polarização que tem marcado nossa sociedade. Jesus, em Mateus, entra na sinagoga e pergunta: “É lícito curar no sábado?”
Paulo discursa no Areópago utilizando alegorias do panteão grego.
Cantares de Salomão é um livro poético que trata do amor e da sexualidade entre um homem e uma mulher. São contrastes culturais que sempre se entrelaçam na história. É nossa responsabilidade, nós que nos chamamos cristãos e temos a Bíblia como regra de fé, buscar conhecimento, estudar, ler, meditar, dialogar, orar, jejuar , praticar o IDE, acima de tudo amando — o próximo e até o inimigo — como Jesus nos ensinou. O maior ensinamento do sermão de Lucas 14 é a mesa e o banquete é para todos lavados e remidos no sangue de Jesus.
O álbum foi lançado em 2025 e a canção sempre esteve no perfil de Marco Telles no YouTube, sem restrições. Recomendamos assistir ao sermão completo “O Grande Banquete” e conhecer a obra do Coletivo Candiero. É cultura nordestina, é brasilidade Se não gostar, tudo bem — é opcional, o campo das ideias é o espaço para trazer luz a tanto “Auê” o ponto de equilíbrio é Cristo acima de qualquer ideologia ou pensamento, nossa razão contaminada pelo pecado precisa se curvar à graça escancarada, escandalosa, deste amor vivido, morto e ressuscitado em Jesus Cristo. Não se deve lançar o trabalho de qualquer grupo ou ministério na avenida da desonra, que faz esquina com a rua da análise rasa. lições foram aprendidas para ambos os lados. O Deus supremo, que sonda os corações, pode fazer o devido apontamento. Marco Telles afirmou em entrevista ao podcast Positivamente, em 2025: “A vida não dá pra ser respondida num stories de 15 segundos numa caixa de perguntas do Instagram.” Nenhum de nós possui a guarda dos tesouros da sabedoria, a vida é ampla, cheia de aprendizados. Vamos errar e acertar. Com franqueza de coração cabe a nós , inclusive o Candiero um auto exame no prumo da palavra de Deus. Desejamos que o Candiero prossiga fazendo sua arte, valorizando a linda cultura nordestina — assim como outros grupos no cenário nacional focando em Cristo, buscando a identidade e a Cultura do céu. Um dos cinco solas da reforma Protestante é “Sola SCRIPTURA”essa observação fiel do evangelho é um dos pilares de uma igreja bem alicerçada a música tem seu papel nesta construção.

O teólogo e hebraísta Luiz Sayão, em live recente, propôs diálogo, reflexão, oração, intercessão e empatia. Fica, então, o convite para participarmos da pluralidade de dons que o Espírito Santo concede, cada um na sua vibe, nesta vasta cultura brasileira, do Oiapoque ao Chuí. O povo de Deus é convocado para cumprir o IDE, alcançar pessoas e preparar o povo para o Grande Banquete celestial, na centralidade de Jesus Cristo e do seu Evangelho simples e puro.
De que estamos nos alimentando espiritualmente e fornecendo de alimento para o povo ?
Estamos preparados para o escândalo da cruz e do negar- se a si mesmo ?
De que forma estamos comunicando nas variadas expressões do pensamento o evangelho ?
Seguimos a Cristo ou as trends das redes sociais?
Estamos amando como Cristo amou o nosso irmão? O banquete farto está posto à mesa. O pão vivo que desceu do céu, a água da fonte da vida — Jesus Cristo — está disponível a todos nós. Acenda a luz do Candiero, celebre a Deus na ciranda contínua da vida, sem cortes ou filtros, exercitando o dom que permanece: o Amor de Cristo, no individual e no Coletivo.
Matéria – Nilber Ferreira e Arkadt dos Santos
O Grande Banquete Sermão cantado Lucas 14 – 15
AUÊ (A FÉ GANHOU) – Coletivo Candiero https://www.youtube.com/watch?v=ze1P41wcH5A
Prontos Para a Adoração – Nelson Bomilcar e Jorge Rehder








