Zely de Paula

BiografiaEntrevistas e Depoimentos

Zely de Paula Simon (1930-1961)

”Ars longa, vita brevis”

Zely de Paula

Patrona da Cadeira nº 28 da AFESL – Academia Espírito Santense de Letras.

Nascimento: 14/06/1930 – Ipanema/MG.

Morte: 27/01/1961 – Vitória-ES

Filha do professor José Francisco de Paula e de Orlinda Pereira de Paula, fez o curso primário em Castelo, sul do Espírito Santo. Posteriormente, entrou para o Colégio Americano Batista de Vitória, onde cursou o ginasial e o colegial. Demonstrando grande sensibilidade poética, aos 14 anos escreveu o seu primeiro poema – Sonho, num caderno de uma amiga de escola.

Em 1949, contemplada com uma bolsa de estudos, foi para os Estados Unidos, formando-se pelo Golden Gate Seminary de Berkeley, Califórnia, onde obteve o título de Masters Degree em Educação Religiosa. Nesse período, especializou-se também em música sacra, cursando, com brilhantismo, canto e piano tendo sido solista em Berkeley, e nas rádios de São Francisco, Califórnia.

Foi tradutora e intérprete requisitadíssima, no Espírito Santo e nos EUA, participando de conferências e intercâmbios culturais.

Ao terminar o Curso de Letras na Universidade do Rio de Janeiro, onde se especializou em Inglês, obteve conceito máximo – With Honors – ao prestar exame para o Michigan e o Cambridge, diplomando-se em língua e literatura inglesa. Obteve ainda o Certificado de Proficiency. Retomando ao Espírito Santo, integrou o quadro de professores do Colégio Americano Batista de Vitória, onde lecionou Espanhol e Inglês nos cursos ginasial e colegial.

Como educadora, escreveu, em co-autoria com o pai, a série didática intitulada My English Book, em três volumes, adotados nos cursos ginasiais do Espírito Santo e em outros Estados do País, alcançado várias edições, mesmo após a sua morte. A continuidade de revisão e novas publicações ficou sob a responsabilidade dos professor José Francisco de Paula e Paulo Spurgeon de Paula respectivamente pai e irmão da autora.

A série foi publicada, com sucesso, pelas maiores editoras didáticas do Brasil, naquela época: a FTD, de São Paulo e a Editora do Brasil S/A.

Zely de Paula foi fundadora e professora do Instituto Brasil Estados Unidos de Vitória (IBEUV), cuja biblioteca tem o seu nome; e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal do Espírito Santo.

Idealizadora, de espírito jovem e audaz, organizou a Campanha para Intercâmbio Internacional da Cultura entre Brasil e Chile que tinha por objetivo arregimentar bolsas de estudo para seus alunos. Com a sua morte, a campanha foi transformada em Fundação Zely de Paula, numa homenagem prestada por seu Diretor, Décio Cunha e companheiros de profissão que militavam ao seu lado. A Câmara Municipal de Vitória homenageou-a, dando seu nome a uma rua do bairro de Goiabeiras.

Foi também profícua colaboradora dos trabalhos da Igreja Batista de Vitória, à qual pertencia, traduzindo e adaptando hinos evangélicos escritos originalmente em Inglês.

Durante a sua permanência nos Estados Unidos, proferiu diversas palestras sobre o Brasil sendo, na ocasião, convidada para lecionar Inglês na Universidade de Hardin Simmons, Texas.

Zely de Paula Simon foi casada com o capixaba Franz Luiz Simon, com quem teve três filhos. Sua morte prematura abalou a intelectualidade vitoriense do início da década de 60.

© Família de Paula Simon / Paulo de Paula – Usado com permissão

Zely de Paula traduziu o hino “Longing for Jesus” / “Tenho saudade de Jesus, meu Mestre”, de Richard Baker, gravado pela dupla evangélica brasileira “Dico e Rosinha”.

“Eu vou, eu venho, eu recomponho
E afundo num coração puro!
Haverá um peito tão duro
Que não queira alojar um sonho?”

Paul Valéry

Para captarmos a essência da alma prática e generosa dessa jovem intelectual, desde tenra idade radicada no Espírito Santo, é preciso recorrermos aos Salmos de Davi, aos Provérbios Bíblicos, aos Cânticos de Salomão, ao sentimento universal de unidade e permanência, e ao mesmo tempo, de fugacidade da vida e vulnerabilidade do homem diante dos caos da existência. É necessário, também, refletirmos sobre o Tempo e a Morte, não como limites em sim, mas como possibilidade intrínseca de transcendência e superação de todo o egoísmo, de toda vaidade, de toda dor e de todo sofrimento.

Zely de Paula Simon morreu aos trinta anos, no auge da juventude e no início de maturação das experiências vividas aqui no Espírito Santo, Rio de Janeiro e Estados Unidos da América. Mas sua passagem pela vida, sua busca incessante do outro – para ela havia sempre a possibilidade do encontro e do entendimento com os seus semelhantes -, sua alegria intensa e seu amor pela vida marcaram profundamente todos aqueles que tiveram a oportunidade ímpar de alcançarem – ao som do Messias de Handel, que ela também solava – os espaços secretos, as planuras iluminadas, os sítios sagrados de sua alma bíblica, alimentada pelo sonho imemorial de um mundo fundamentado na alegria e no prazer de se doar integralmente aos seus semelhantes.

Passamos a transcrever trechos da entrevista realizada com seu irmão, Paulo de Paula, Mestre em Comunicação, nos Estados Unidos, e professor do Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES); escritor, jornalista, e um dos mais respeitados teatrólogos do Estado do Espírito Santo:

– Paulo, como foi a infância de Zely?

– Ah, ela gostava muito de andar a cavalo, de bicicleta e patins. Gotava muito de ler e viajar pelo interior, fazendo visitas às fazendas. Tinha uma verdadeira predileção por equitação e natação. Nadava muito bem. Quando nós viemos de Castelo para Vitória, em seguida começamos a frequentar a Praia da Costa, onde ela nadava sempre, ali atrás da Praia da Sereira até aquela ilha e voltava. E eu, por mais que tentasse, não conseguia…

Também era marcante o seu amor pelos livros. Lia muito e fazia sempre estudos comparativos entre os autores de sua predileção. Lia de tudo, desde as historinhas de João e Maria, quando ainda era uma menina, até os livros mais complexos destinados aos leitores adultos.

Era uma pessoa muito inteligente, muito capaz e muito dedicada ao conhecimento. Talvez tivesse um terceiro sentido, não sei… Às vezes fico pensando nisso pela aceitação da vida e a preparação absoluta para a morte que ela demonstrou na fase adulta.

Era uma pessoa apaixonada pela leitura. Tinha um cabedal de leitura muito vasto e era muito religiosa. Sua preocupação com o ser humano era devida a essa formação religiosa (religião, aqui, no sentido mais dinâmico e moderno de atuação e participação intensa na sociedade). Tinha um interesse imenso pelo próximo, uma coisa bíblica e intrínseca à sua pessoa e ao seu caráter.

– Quais eram suas predileções literárias?

– Apreciava os clássicos da literatura. Apaixonada por Shakespeare, Edgar Allan Poe e o brasileiro, chamado Malba Tahan, que ensinava inclusive Matemática, através de histórias, e era muito interessante. Ela se entusiasmava com a didática de Malba Tahan, pelo fato de ele ensinar narrando pequenas histórias.

Quando Zely escreveu a sua série de livros didáticos em Inglês, adotados em quase todo o Brasil, utilizou-se do mesmo recurso. Os textos, para leitura, dos seus livros didáticos eram compostos e criados por ela mesma, sempre com uma história, ou uma fábula de conhecimento universal, ou fatos relacionados ao seu dia a dia e à sua experiência nos Estados Unidos.

– Mas qual era o seu interesse maior na Literatura?

– Língua e Literatura Inglesa – naturalmente era esta a sua área de maior interesse, mesmo gostando muito da literatura em geral. Quando era garota, eu me lembro dela lendo aqueles mesmos romances que outras meninas de sua idade liam: romances de M. Dely e histórias de Monteiro Lobato. Na fase madura, sua paixão era pelos clássicos, especialmente por Shakespeare.

– Por que essa predileção de Zely pela obra shakespeariana?

– Ah, era por causa do aspecto psicológico que ela mesma associava a Machado de Assis, um dos escritores brasileiros que ela mais admirava e que, a seu ver, o que mais assimilou o modo de escrever e narrar a literatura inglesa, muito mais do que os outros escritores brasileiros que ficaram atrelados à escola francesa. Tanto que a gente conversava muito sobre as semelhanças entre Macbeth e Dom Casmurro: o ciúme e a Capitu, como Desdemona; e Dom Casmurro, como Macbeth. Ela ressaltava as semelhanças, o estudo psicológico, na obra dos dois autores. Lembrou-me até de um artigo, assinado por Helen Caldwel, que nós lemos e discutimos bastante.

– Paulo, a Zely se sentia uma pessoa do Estado do Espírito Santo?

– Mas claro! Ela veio para cá com dois anos de idade e embora tivesse pensando, algumas ocasiões, em se dedicar ao trabalho missionário, no Amazonas, chegou à conclusão de que poderia ser útil aqui mesmo, onde ela estava e tinha fundamentado suas experiências. Não era necessário, segundo ela, ir a outro lugar para ser útil.

–  Qual a citação bíblica que melhor definiria a Zely?

– Eu acho que é um versículo que ela repetia sempre – apesar dela ser apaixonada pelo Salmo 23 e pelo Sermão da Montanha – porque exprimia a sua fé e o seu desejo de realizar as coisas:

“Posso todas as coisas naquele que me fortalece”.

© Família de Paula Simon / Paulo de Paula – Usado com permissão

Fotografia enviada pelo Colaborador Paulo Spurgeon de Paula

(1930-1961)

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