Vivência Protestante na França de nossos dias e sua influência no Brasil – Cyrene Paparotti

Neste pequeno artigo, estou resumindo as ideias que desenvolvi ao longo da “tri lha sonora” da vida, esperando que essa possa trazer elucidação para os seus caminhos na adoração.

Comecei a ter uma leitura mais universal da música de culto, pelo fato de ter tido oportunidade de congregar em igrejas da Europa (França, Itália, Suíça), ou nos EEUU e vários estados do Brasil. Na França pude executar música salmódica calvinista, oriunda de Genebra e também música em dialetos e estética africana, como Lingala, Swahili e Malgaxe. Nos EEUU, tive a ocasião de cultuar a Deus em nossas igrejas mães (presbiteriana, batista, metodista), como também os cultos de igrejas com etnias afrodescendentes ou latino-americanas enraizados nos EUA. No Brasil, nasci em lar presbiteriano do Brasil em São Paulo/Capital, tendo uma incursão pela igreja Presbiteriana Independente. Na França, fui regente coral e organista da Igreja Reformada de Aulnay Sous Bois (de origem Calvinista) e da outra Evangélica Batista de Sevran. Na Bahia, fui regente do extinto Coro Cantor Cristão da Igreja Batista Sião e em paralelo trabalhei com o Grupo Louvor (formado por 12 cantores adventistas do sétimo dia) durante dois anos, o qual se esmera na qualidade da música sacra e do Madrigal Salmos também de confissão adventista. Em seguida, fui regente do coral na Igreja Presbiteriana Memorial na Barra e Igreja Presbiteriana de Ipitanga Salvador-Bahia, junto a meu marido e meus filhos

Devido ao quadro comemorativo dos 500 anos da Reforma Protestante, nesse ano, vamos desenvolver alguns aspectos da igreja reformada na França que vivenciei. Vamos começar por uma breve retrospectiva histórica.

No limiar do século XV, ao lado de missas, motetos ou outras músicas religiosas polifônicas, a canção toma grande importância e a forma mais comum era do canto sem acompanhamento (a cappella), os textos eram escritos pelos poetas da época. No século XVI, paralelamente à música religiosa, os madrigais, pequenos conjuntos de música profana se disseminaram por toda Europa, chegando ao seu auge. O alaúde, importado dos árabes, alcançou grande popularidade na época, a exemplo do violão em nossos dias. Este instrumento era um grande solista, como o acompanhador mór de canções e madrigais. No século XVI assistimos a uma mudança radical na música ocidental. Os modos gregos foram sendo triados de forma que dois deles ficaram privilegiados. Os antigos modos, jônico e eólio transformaram-se consecutivamente em duas escalas Maior e Menor. A música secular evoluiu também deixando, aos poucos, de ser modal passando a ser tonal. (J.S.Bach, publicou em 1722, portanto somente no século XVIII a primeira coleção de peças plenamente acabadas em todas as 24 tonalidades, O Cravo bem temperado) a transição modal-tonal foi lenta, mas foi radical para história da música ocidental.

A Igreja Católica Apostólica Romana sofrera um cisma em 1054, quando foi criada a igreja Católica Apostólica Ortodoxa. A música protestante de Lutero divergiu do padrão grego-ortodoxo, o qual adotou o uso dos modos gregos sobre palavras em idioma grego ou eslavo eclesiástico (uma língua morta e comum para os países eslavos, assim como o latim o é para as línguas românicas ou latinas). Lutero adotou a língua-pátria (o alemão) e as escalas tonais.

 A igreja Católica Apostólica Romana continuou a usar os modos eclesiásticos antigos, o qual é perceptível até nossos dias. Porém Lutero causou a grande ruptura. Para Lutero, a música dever ser mais simples. A música protestante inglesa e germânica passou a ser mais tonal que modal. As letras não se limitavam mais aos salmos e hinos bíblicos, todavia eram veículos de doutrina, com palavras espontâneas. O ex-padre Martinho Lutero (1483- 1546) restaurou o canto congregacional, que havia sido perdido desde o século II. Lutero utilizou desde cantos gregorianos, até canções populares, que receberam alterações para serem cantadas em estilo coral (melodia harmonizada a quatro vozes), sendo a mais conhecida “Castelo Forte”. Com a recente invenção da imprensa por Guttemberg (em1440), além da bíblia, a música era facilmente veiculada e a doutrina protestante se estabeleceu. A partir de então se criou uma hinódia protestante, que paulatinamente se distanciou muito do padrão católico apostólico romano ou apostólico ortodoxo.

Quando Lutero escreveu as 95 teses, João Calvino tinha oito anos de idade; João Calvino (1509-1564), nunca foi ordenado sacerdote, era um intelectual que disseminou as ideias protestantes na França. Ele foi vítima das perseguições aos huguenotes na França, fugindo para a Suíça, onde suas ideias floresceram e Genebra passou a ser o centro do protestantismo europeu.

Cruz Huguenote

Mas que eram os huguenotes? Eram os franceses protestantes durante as guerras de religião (foram oito ao todo), na segunda metade do século XVI. A palavra huguenote aparece na França a partir de 1560, substituindo a palavra luterano. Mas a origem da palavra é folclórica e adversa. Por exemplo, na cidade de Tours, os protestantes se reuniam na porta Hugon (diminutivo de Hugues,). Em Tours, Huguet (outro diminutivo) era um termo genérico para designar fantasmas que vinham aterrorizar os vivos. Como os protestantes se reuniam à noite, começaram a chamá-los de huguenotes, para fazer chacota, eran os seguidores do Hugon. Ainda, Eingnot era o nome dado aos suíços partidários do Pequeno Conselho de Genebra. Eles eram camaradas ligados por um juramento. A conjugação das duas origens fez com que os protestantes fossem assim chamados. A Cruz huguenote* é um símbolo de resistência cristão sobre a morte. A Cruz de Malta era sinal de insubmissão ao Rei da França, a flor de Lis simboliza a Trinidade e a colomba figura o Espírito Santo.

Calvino foi para o povo francófono, o que Lutero foi para o povo germanofônico. O Dr Lutero foi o defensor das liberdades germânicas com seus discursos, sermões inflamados e músicas que veiculavam as novas doutrinas. Já o humanista, filósfofo pré-cartesiano, Calvino esquadrinhou planos de construir igreja e escola sempre em paralelo definindo um estilo. Os calvinistas achavam que a única letra digna de adoração seria a letra sacra dos Salmos e não poesia de invenção humana, como Lutero. Ajudado pelos poetas confirmados da época T. Bèze e C. Marot, mais os músicos, C. Goudimel, L. Bourgeois, P. Davantès, G. Franc, os Salmos foram metrificados (de prosa em poesia) e colocados em música nos modos eclesiásticos, com uma edição coral e uma edição polifônica

O protestantismo francês de hoje contém apenas 2% da ´população. Sendo a terceira religião após o catolicismo e o islamismo. O protestantismo é minoritário devido às perseguições do passado e é mais forte em duas regiões: Alsácia e Languedoc. A Igreja Protestante na França é dividida em cinco grupos e fazem parte da Federação Protestante da França:

1-Luteranos – considerada igreja histórica

2-Reformada Calvinista -considerada igreja histórica

3-Evangélicos-Igrejas advindas dos movimentos de reavivamento dos séculos XIX e XX (este nome tinha sido dado aos seguidores do reformista Farel no século XVI também. Normalmente batistas são desta linha

4-Anglicanos

5-Pentecostais- são oriundos dos EUA, do século XX e celebram a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos sobretudo com dons de língua, profecia e dons de cura)

Elas fazem parte de associações cultuais e trabalham em diversos setores, ação sanitária, social, expressão artística, relações internacionais etc. em geral todas apresentam um culto no domingo de manhã, que é celebrado por um pastor ou uma outra pessoa autorizada. E a liturgia varia de uma igreja à outra, embora a pregação seja central e a celebração dos dois sacramentos (batismo e santa ceia) seja pontual; O pastorado é exercido principalmente por homens, sendo 10% exercido por mulheres pastoras.

Logicamente essas igrejas seguem hinódia diferente: Sur les ailles de la foi (evangélicos), Arc en ciel (grupo de jovens e pentecostais), J´aime l´Eternel (reformados), A Toi la Gloire Chant de Victoire e o Psautier Français.

A tradição dos Salmos metrificados fica mais restrita aos reformados. É comum cantar a cappella, seguindo a tradição huguenote, mas tendo organista é melhor. As igrejas evangélicas e pentecostais muitas vezes apresentam bandas.

Os franceses reformados teriam sido os primeiros protestantes a pisar em solo brasileiro ainda no século 16. Os reformados calvinistas cantavam muito. Quando da perseguição dos huguenotes na França, milhares deles foram condenados à forca ou fogueiras. Como eles cantassem até na hora da morte, as suas línguas eram cortadas. (Bost, 1980).

Os huguenotes espalharam-se pelas Américas com o cântico do Saltério de Genebra, fizeram seus cultos em solo brasileiro. No dia 10 de março de 1557 foi oficiado o primeiro culto pelo Rev. Pierre Richier cantando o Salmo 5 com a leitura do Salmo 27;4. Porém nossos irmãos foram logo expulsos e com a debandada, a música sacra brasileira perdeu esta tradição. Os huguenotes moravam na Baia da Guanabara, na Ilha de Villegaignon, onde foi contruido o Forte de Coligny. O governador geral Men de Sá, destruiu este forte, desestruturando a colônia francesa chamada França Antártica. Seu sobrinho, Estácio de Sá terminou por combater os huguenotes e expulsá-los. Cabe dizer que alguns padres capuchinhos vieram em meio aos huguenotes, o que também provocou um enfraquecimento estratégico entre os próprios colonos. Como eles estivessem já enfraquecidos entre si, não foi difícil ao dominador português desbaratá-los.

Ainda, após a investida francesa aqui chegaram os holandeses, com uma esquadra de 23 navios contendo 3.000 tripulantes, chegaram à Bahia em 1624 e se estenderam a Olinda e Recife até o ano de 1654. O comandante era o almirante Jacob Willekens e estes protestantes dos países baixos, conseguiram fundar uma colônia governada por José Maurício de Nassau. Eles catequizavam os índios e cantavam nos cultos. Mas não se tem registros de tradução de hinos da época, apenas de um catecismo trilíngue (holandês, português e tupi). O domínio holandês durou 24 anos e foram derrotados na sangrenta batalha de Guararapes.

A documentação hinológica de fato começou no Brasil em 1855 quando desembarcaram no Rio de Janeiro Robert Reid Kalley e Sarah Poulton Kalley. O casal havia sido missionário em Portugal, na Ilha da Madeira e consigo trouxeram alguns hinos traduzidos em português. Deu-se em 1861, a primeira edição do hinário Salmos e Hinos, graças aos missionários americanos que aqui chegaram no século XIX. Desde então, herdamos uma rica coleção de Salmos e Hinos que em sua maioria eram anglo-saxônicos. A primeira edição continha 18 Salmos e 32 Hinos, perfazendo um total de 50 cânticos (Ichter, 1967).

Em 1861 foi publicado o primeiro hinário destinado à confissão batista.  Eram apenas 16 hinos, a maioria advinda do trabalho dos Kalley. O missionário batista Salomão Ginsburg impulsionou a hinologia batista.

Desde então muitos outros hinários surgiram. Estes outros fizeram revisões dos já publicados e acrescentaram mais itens. São eles, a Harpa Cristã (1929); o Hinário Evangélico (1945); Seja Louvado (1972); Cantai ao Senhor (1973); Hinário Presbiteriano (1981), Hinário para o Culto Cristão (1997), Hinário Adventista (1980).

De forma bastante positiva podemos observar que inicialmente importamos hinos e os traduzimos. Passados algumas décadas, os missionários e seus discípulos compunham hinos no Brasil em português, baseados na harmonia e ritmos aprendidos. Aos poucos, os compositores brasileiros foram se libertando da pura tradição europeia, compondo hinos solenes com um “sotaque nacional”.

Tudo que tem fôlego, louve ao Senhor. Aleluia! Sl.150. 6

Referências

BOST,C. Histoire des Protestants de France. Ed. La Cause: Carrières-sous-Poissy, 1980 pp.58e59

ICHTER, B.H. Vultos da Música Evangélica no Brasi.l Ed JUERP: Rio de Janeiro,1967pp.81-86

SANTOS, Gilson  Do Salmo 5 ao Atos 2

https://musicaeadoracao.com.br/recursos/arquivos/tecnicos/historia/salmos_e_hinos_brasil.pdfv(28 set 2017)

Le protestantisme aujour´hui.

https://www.museeprotestant.org/notice/le-protestantisme-aujourdhui/ (28 set 2017

Cyrene Paparotti 

© 2018 de Cyrene Paparotti – Usado com permissão

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