Otoniel Mota

Biografia

Otoniel de Campos Mota (1878-1951)

Pastor, professor, filantropo, homem de letras, poeta sacro

Rev. Otoniel Mota

Otoniel de Campos Mota notabilizou-se pela cultura literária, pelas iniciativas de cunho social e pelas controvérsias em que se envolveu. Nasceu em Porto Feliz (SP) no dia 16 de abril de 1878, sendo filho de José Rodrigues Paes e Bernardina Deoclécia da Mota Paes. Fez os estudos primários em sua cidade natal e os secundários em São Paulo, como aluno do Curso Anexo da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Converteu-se na igreja metodista, tendo sido o único membro de sua família a se tornar evangélico. Pouco depois, uniu-se aos presbiterianos.

No dia 4 de agosto de 1895, em companhia de Matatias Gomes dos Santos, foi recebido por profissão de fé na Igreja Presbiteriana de São Paulo. No segundo semestre de 1897, aos 19 anos, já tendo feito os estudos preparatórios, ingressou no Seminário Presbiteriano, então sediado na capital paulista. Era poeta e estreou no ano seguinte no mundo literário com sua Lira cristã. Themudo Lessa diz que ele e Alfredo Borges Teixeira foram os dois poetas daquela casa de profetas. Fez parte do corpo redatorial do jornalzinho dos estudantes, O Combate.

Foi licenciado pelo recém-organizado Presbitério Oeste de São Paulo na 1ª Igreja da capital, em 25 de julho de 1900, e ordenado pelo mesmo concílio, reunido em Brotas, no dia 14 de julho de 1901. O ato foi presidido pelo Rev. Laudelino de Oliveira Lima, sendo a parênese proferida pelo Rev. Herculano de Gouvêa. Seus primeiros trabalhos evangelísticos, quando ainda licenciado, foram realizados em Santa Cruz do Rio Pardo, Piraju, Taquari, Fartura e Anhumas, esta última no Paraná, perto da atual cidade de Ribeirão Claro. Como nessa época a Estrada de Ferro Sorocabana terminava em Cerqueira César, as viagens eram feitas a cavalo. Cheio de entusiasmo, cortou as estradas na égua Piaguaçu, visitando os crentes no sertão e descrevendo com humor as suas aventuras. Após a ordenação, permaneceu no mesmo campo.

Em 17 de março de 1903, casou-se com Rosalina Paes de Barros, filha do senador Antônio Paes de Barros e de D. Maria Paes de Barros. Quatro meses depois, tornou-se um dos sete ministros que organizaram a Igreja Presbiteriana Independente, sob a liderança de Eduardo Carlos Pereira, tendo sido o primeiro tesoureiro do Presbitério Independente. Inicialmente foi auxiliar do Rev. Eduardo em São Paulo. Também fez constantes viagens a Sorocaba, Tietê, Porto Feliz, Itapetininga, Porangaba, Torre de Pedra e outros locais. Ainda visitou Bebedouro e Iacanga. Em 1905, foi residir em Jaú, em cujo pastorado foi construído um templo. A seguir, foi para Ribeirão Preto (1907-1911), onde cooperou com a igreja metodista e iniciou suas atividades no magistério, sendo nomeado professor de português no Ginásio do Estado. Nessa cidade, foi redator da revista evangélica A Reforma.

Em 1912, foi transferido para o Ginásio do Estado em Campinas. Pastoreou a igreja independente local e lecionou por breve tempo no Seminário Presbiteriano do Sul (1921). Nessa região, em 1923, na fazenda Quilombo, fundou o Orfanato Betel, primeira de suas iniciativas de cunho social, que mais tarde foi transferido para Sorocaba. Preocupou-se com a questão do reflorestamento, tendo distribuído sementes de jequitibá. Em 1924, atuou como auxiliar do Rev. Alfredo Borges Teixeira na 1ª Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, após o longo pastorado de Eduardo Carlos Pereira (1888-1923). De 1925 a 1931, foi pastor eleito dessa igreja histórica. No final de 1934, voltou a ser pastor auxiliar da 1ª Igreja, no pastorado de Jorge Bertolaso Stella.

Certa vez sua primeira filha, já moça, sentiu-se grandemente debilitada, correndo o risco de contrair tuberculose. Em meio a angústias e dificuldades financeiras, o pai conseguiu um lugar de repouso na fazenda de um amigo em Torrinha, vindo a jovem a recuperar-se. Essa provação abriu seus olhos para a necessidade de uma instituição que atendesse pessoas em situação semelhante. Com isso, fundou a Vila Samaritana, em São José dos Campos, destinada a abrigar tuberculosos pobres, que posteriormente se transformou na Associação Evangélica Beneficente (28.09.1928). Após sete anos, sucedeu-o na presidência dessa entidade o médico Dr. Lauro Monteiro da Cruz, que ocupou o cargo durante 35 anos.

Em São Paulo, Otoniel Mota exerceu as funções de diretor da Biblioteca Pública do Estado e de professor de literatura luso-brasileira e, mais tarde, de filologia portuguesa na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (fundada em 1934), cargo esse em que se aposentou. Também foi nomeado professor da Faculdade de Teologia da IPI, onde lecionou arqueologia e grego por vários anos. Foi delegado ao Congresso da Ação Cristã na América do Sul (Montevidéu, 1925) e membro da comissão revisora do Livro de Ordem da IPI.

Em 25 de agosto de 1938, numa reunião extraordinária do Sínodo Independente convocada para tratar da chamada “Questão Doutrinária”, pediu exoneração do ministério da IPI por “sentir-se fora da letra e do espírito do Sínodo” em suas ideias teológicas. Há muitos anos fazia questionamentos sobre vários pontos da escatologia ortodoxa, como expressou numa série de panfletos (“Uma passagem interessante”, “Novas luzes”, “O paraíso e o céu”, “A pregação além-túmulo”, “Meu credo escatológico”), fazendo parte da chamada “ala liberal”. Quatro anos depois, em 5 de abril de 1942, foi um dos organizadores da Igreja Cristã de São Paulo, cujos princípios essenciais eram a liberdade doutrinária, a tolerância e o espírito ecumênico. Seus colegas nessa iniciativa foram Eduardo Pereira de Magalhães, Epaminondas Melo do Amaral, Erintos e Olímpio Batista de Carvalho, Rui Gutierres, Tomás Pinheiro Guimarães, Isaac Nicolau Salum e outros mais.

O Rev. Otoniel faleceu no dia 14 de agosto de 1951, em sua residência na Rua Apa, no bairro de Santa Cecília, exatamente um mês após o transcurso do seu jubileu ministerial. Seu corpo foi levado para a capela da Igreja Cristã, na Rua Baronesa de Itu, no mesmo bairro. A cerimônia religiosa foi dirigida nesse local pelo Rev. Epaminondas do Amaral e no Cemitério do Redentor pelo Rev. Alfredo Borges Teixeira, antigo colega de seminário. No dia 31 de outubro, a Igreja Cristã de São Paulo promoveu uma solenidade memorial na Igreja Metodista Central, na qual o professor Albertino Pinheiro leu um discurso em homenagem ao ministro falecido. O periódico Cristianismo dedicou ao personagem uma edição inteira, com artigos de Jorge César Mota, Jorge Bertolaso Stella, Alfredo Borges Teixeira, Teodoro Henrique Maurer Júnior, Isaac Nicolau Salum e outros, bem como uma seleção de textos e poemas de sua autoria. Seu nome foi dado a ruas em São Paulo, Campinas e outras cidades, e também a escolas públicas em Ribeirão Preto e São Paulo.

Otoniel Mota destacou-se pela honradez, nobreza, inteligência, fé e otimismo. Um amigo disse que ele se caracterizou por um coração de ouro, mente privilegiada, mãos que não se cansaram de fazer o bem e uma vida de devotamento aos mais sublimes ideais. Também possuía um grande senso de humor, sendo o riso um dos temas mais frequentes de seus escritos. Seu colega professor Isaac Nicolau Salum disse que ele foi sempre e acima de tudo um pastor – todas as suas outras atividades eram marcadas por esse fato. Era dotado de profunda sensibilidade, expressa nos belos poemas que escreveu. Uma de suas composições mais tocantes foi inspirada pela morte de um crente humilde, Jaime Ambrósio, arrumador de quartos da Pensão Brasileira, de D. Belisária Ribeiro.

O Rev. José Borges dos Santos Júnior também destacou alguns aspectos de sua personalidade. Era um homem apaixonado pelo que fazia. Quando estudava um assunto, entregava-se a ele completamente. Por exemplo, ao escrever um estudo sobre Os Lusíadas, não falava de outra coisa – era o tema constante com os amigos, com os alunos, com a esposa. Assim foi com tudo o mais que empreendeu. Tinha grande firmeza em suas convicções, lutando por elas de maneira firme e intransigente. Sua sinceridade era implacável, mas ao mesmo tempo tinha um coração afável e cordial, pronto para acolher os que divergiam dele.

Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, da Academia Paulista de Letras (na cadeira nº 17, tendo como patrono Júlio Ribeiro) e da Sociedade de Estudos Filológicos de São Paulo, da qual foi um dos fundadores e o primeiro presidente. Escreveu amplamente na imprensa secular (Planalto, Papel e Tinta, Correio Paulistano, Folha da Manhã, Revista do Arquivo Municipal), em particular no campo de sua especialidade – a filologia, da qual era estudioso constante. O jornal O Estado de São Paulo, que o teve como assíduo colaborador por muitos anos, publicou seu último artigo, intitulado “Sereias Desafinadas”, exatamente no dia de sua morte. Colaborou com revistas e jornais evangélicos como O Estandarte, Revista de Cultura Religiosa, Semana Evangélica (publicada em 1928-1929), Unitas, Cooperador Cristão e Cristianismo. Seu talento de exegeta pode ser visto nos artigos que escreveu sobre Pedro e a pedra (Mt 16.18).

Sendo um mestre da língua portuguesa e talentoso poeta, produziu muitos escritos valiosos. No campo da filologia deixou cerca de dez obras; na esfera religiosa, cerca de treze; no terreno da história, pelo menos duas; traduziu diversos livros. Escreveu contos e romances, conferências e pequenos estudos enfeixados em folhetos, e um livro de poesias (Lira cristã), além de poemas esparsos publicados em jornais e revistas. Utilizou em alguns de seus escritos de controvérsia o pseudônimo “Frederico Hansen”. Produziu diversos livros didáticos que primavam pela clareza com que expunha a matéria. Entre eles tornaram-se bem conhecidos Lições de português, Comentários aos Lusíadas e O meu idioma. Escreveu ainda o romance evangélico Amor que santifica (1909, sob o pseudônimo Bar Joseph), os contos Selvas e choças (1922) e os estudos sociológicos Perdeganha (1937) e Do rancho ao palácio (1941), este último sobre a evolução da civilização paulista. Também produziu um estudo biográfico sobre o político Cesário Mota Júnior (1847-1897), com o qual era aparentado.

Outras obras suas no campo da filologia são Ensaio linguístico; O pronome “se”; Questões filológicas; A evolução do gerúndio; As geórgicas de Virgílio; O lirismo grego; Chave da língua; Horas filológicas; Seleta moderna e A origem do lirismo português. No âmbito histórico e religioso deixou Natal ou refúgio; Israel, sua terra e seu livro; O evangelho de São Mateus; Breves anotações ao Livro dos Atos; O caso Anchieta-Bolés; Temas espirituais e O adorável bilhete ou a Epístola a Filemom. Também publicou opúsculos de interesse moral e religioso, como Serviço altruístico; A continência; O cristianismo e a mulher; Algum riso, muito siso; Historietas e Um pouco de folclore, bem como uma série em resposta ao padre Leonel Franca (1933), uma série sobre assuntos escatológicos (1938) e vários folhetos. Traduziu os livros O valor, O amigo e Temas espirituais para pequenos e grandes, de Charles Wagner, e os opúsculos O problema do sofrimento, É crível a história do evangelho? e Véu rasgado.

Foi autor* de conhecidos hinos que constam nos principais hinários brasileiros, como “Nossas almas jubilosas”, “Nosso Pai, aqui reunidos”, “Eu bato à porta da alma triste”, “Pelo vale escuro” e “Na tênue luz da madrugada”. O hino “Nossas almas jubilosas” foi especialmente escrito em 1940 a pedido de Henriqueta Rosa Fernandes Braga, para figurar em sua coletânea Cânticos do Natal (1947). Na Confederação Evangélica do Brasil, fez parte da comissão que preparou o Hinário Evangélico.

Sua esposa, Rosalina de Barros Mota, pertencia a uma das mais tradicionais famílias de São Paulo. Era filha de D. Maria Paes de Barros (1851-1952) e bisneta do Brigadeiro Luís Antônio. A mãe, as tias e a avó tornaram-se membros da Igreja Presbiteriana de São Paulo. Rosalina e sua irmã Otília foram recebidas por profissão de fé nessa igreja em 7 de maio de 1893. O casal Mota teve seis filhos: Maria Mota Pirotelli, Adelina Mota de Cerqueira Leite, José de Barros Mota, Emília Mota de Cerqueira Leite, Antônio de Barros Mota e Gerte Mota Fink. A enfermeira Maria Mota Pirotelli foi diretora administrativa do Hospital Evangélico de Sorocaba. Adelina Cerqueira Leite teve aprimorada formação em música e arte dramática. Produziu literatura infantil e peças teatrais. Na área da hinologia, fez traduções de hinos e corais, e trabalhos originais. A coleção Cânticos do Natal teve doze produções de sua autoria. Ela e seu esposo, o industrial José Cândido de Cerqueira Leite, instituíram em 1943 a Fundação Cerqueira Leite, com objetivos sociais.

Dr. Alderi Matos

 © Alderi Souza de Matos – Instituto Presbiteriano Mackenzie – Usado com permissão

(1878-1951)

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2 Resultados

  1. Jaci Alves disse:

    Boa pesquisa e informaçoes relevantes7

  2. Sonia Maria disse:

    Gostei muito do texto! O grande Otoniel Mota foi casado com uma tia minha!
    A historiadora Maria Paes de Barros era minha bisavó e o Rev.Eduardo neu bisavô.
    Eduardo Pereira de Magalhaes, irmao do meu pai!
    O Rev Bertolaso Stella me batizou e fez minha Profissão de Fé.

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