Os Primeiros Hinólogos Evangélicos no Brasil – Bill H. Ichter

Casal Kalley

Casal Kalley

No hinário SALMOS E HINOS, atualmente há 182 hinos com o nome Kalley, sendo 169 da autoria ou traduções de Sara Poulton Kalley e 13 do Dr. Robert Reid Kalley.

No CANTOR CRISTÃO, há 35 hinos assinados simplesmente com “K”, porém sabemos que destes há pelo menos 31 que são da autoria de D. Sara. Dois hinos (nºs 74 e 105) são da autoria do Dr. Robert Kalley, e quanto a outros dois (Nºs 516 e 536) temos certas dúvidas, mas pelo estilo diríamos que também foram escritos por D. Sara Kalley.

Mas não é somente por ter escrito tantos hinos que o casal Kalley se torna importante. Foram eles os responsáveis pelo primeiro hinário evangélico no Brasil. Continha 50 hinos sem música.

Robert Reid Kalley nasceu em Monte Floridan, Escócia, no dia 8 de setembro de 1809. O seu pai exercia a profissão de negociante em Glasgow, mas faleceu quando Kalley tinha menos de um ano de idade. Dois anos mais tarde, a mãe de Kalley, que era uma crente fervorosa, casou-se com o viúvo David Kay, pai de quatro filhos.

Quando Kalley tinha apenas 5 anos de idade, sua mãe faleceu, e assim ele foi criado principalmente pelo seu padastro, que era um consagrado presbiteriano. David Kay queria um dia que o menino Robert se tornasse pregador presbiteriano.

É mais do que certo que o excelente tratamento dado ao jovem Robert pelo seu padrasto o influenciou grandemente para muitos anos mais tarde adotar dois filhos, sendo um deles o hinólogo João Gomes da Rocha.

Em 1835, Kalley casou-se, mas sua esposa Margarete veio a falecer em 1851.

Kalley estudou medicina e diplomou-se em 1838 pela Faculdade de Medicina e Cirurgia em Glasgow. Ao exercer a sua profissão de médico, ficou muito impressionado com a vida altamente exemplar duma paciente que, apesar do seu sofrimento, mostrava-se tranquila e aceitava calmamente o desenrolar dos acontecimentos.

Kalley, que até aquele ponto da sua vida não havia aceito a Cristo como seu Salvador pessoal, converteu-se e resolveu dedicar-se ao estudo teológico.

Tal como H. Maxwell Wright, Kalley pensou que Deus o queria como missionário na China. Fortunato Luiz, no seu livro “ESBOÇO HISTÓRICO DA ESCOLA DOMINICAL DA IGREJA FLUMINENSE”, disse: “A princípio se destinava a evangelizar na China; devido, porém, ao estado de saúde da esposa, resolveu ir à Ilha da Madeira, onde chegou em 1838.”

A perseguição aos crentes na Ilha da Madeira foi uma coisa terrível. Em 1843, Kalley escapou da morte, mas todos os seus papéis, móveis, etc., foram queimados por uma multidão fanática, deixando Ele a ilha da Madeira. Muitos dos crentes também saíram da ilha entre os anos de 1946-48, e um bom grupo foi morar nos Estados Unidos, onde estabeleceu colônias, principalmente em Flórida e Illinois. Ele, porém, retornou à Inglaterra.

No dia 14 de dezembro de 1852, Kalley casou-se com Sara Poulton Morley, jovem inglesa que ele havia conhecido na Palestina, durante uma viagem que realizou para aquela terra no início do ano. Ela foi a companheira perfeita para Kalley, sendo talentosa poetisa e pintora. Era irmã dum proeminente membro do parlamento inglês.

Kalley ainda queria servir em algum lugar. No dia 24 de janeiro de 1855 ele, numa carta pastora às igrejas da colônia portuguesa no Estado de Illinois, EE. UU., escreveu as seguintes linhas que estão registradas na página do livro “Lembranças do Passado”, de João Gomes da Rocha: “peçam a Deus que me abra o caminho para o lugar onde quer que eu trabalhe por Ele. Tenho alguma esperança de que seja entre gente portuguesa, onde não há Bíblias nem pregadores do Evangelho; e se assim for, talvez alguns de vós sentirão muita alegria em rogar a Deus que Ele espalhe mais a Sua Verdade entre os que falam vossa língua…Por ora, ainda não está decidido.”

Dois meses e meio mais tarde, Deus tornou clara a Sua vontade, e o casal Kalley saiu da Inglaterra, chegando ao Rio no dia 10 de maior de 1855.

Estabeleceram residência em Petrópolis, e foi ali que, no dia 19 de agosto do mesmo ano, D. Sara estabeleceu a primeira Escola Dominical no Brasil. A sua classe era formada por cinco crianças, filhos de ingleses. Três semanas mais tarde, o Dr. Kalley começou uma classe para alguns homens de cor.

Logo as classes de estudo bíblico foram conduzidas em três idiomas: português, alemão e inglês.

Na página 109 do seu livro MÚSICA SACRA EVANGÉLICA NO BRASIL, Henriqueta Rosa Fernandes Braga disse: “Os primeiros hinos evangélicos cantados no Brasil em língua portuguesa, foram provavelmente aqueles entoados nessa incipiente Escola Dominical.”

Na primavera daquele ano, a cólera, que já havia vitimado muitas pessoas em Pernambuco, alastrou-se em Petrópolis. Kalley foi autorizado pelo governo a prestar a sua colaboração médica, e assim se apresentou uma boa oportunidade de ele se estabelecer na cidade; e por causa da sua atuação como médico, ele chegou a pregar o evangelho para muitos que de outras maneiras não teriam ouvido as suas pregações.

Em 9 de outubro de 1858, depois de passar vinte meses na Inglaterra, onde foram visitar uma tia gravemente enferma de D. Sara, os Kalleys voltaram, e logo no mês seguinte Kalley batizou o primeiro crente português em Petrópolis.

Depois de quatro anos, marcados por perseguições e doença, mas também por um grande acontecimento – a publicação de SALMOS E HINOS, pela tipografia Laemmert – os Kalleys voltaram novamente para a Escócia, onde passaram um ano, antes de voltar ao Brasil em 1863.

No dia 16 de setembro de 1863, Sara Kalley inaugurou “uma classe de música, a fim de se ensaiarem convenientemente os hinos usados no culto”. Esta classe se reunia uma hora antes do culto das quartas-feiras-, costumo que, por sinal, ainda é praticado hoje na Igreja Evangélica Fluminense.

Kalley escreveu muitos folhetos e traduziu várias obras, a mais importante das quais, do ponto de vista clássico, foi O PEREGRINO, de João Bunyan.

Foi Kalley a primeira pessoa no Brasil a usar a impresa secular para proclamar o evangelho, pois ele usou frequentemente o jornal O CORREIO MERCANTIL para este fim.

No dia 10 de julho de 1876, o casal Kalley deixou o Brasil. Seria a última vez que Kalley veria esta terra que ele tanto amava, pois, no dia 17 de janeiro de 1888, faleceu e foi enterrado no Deam Cemetery.

Sara fundou na Escócia uma organização chamada “HELP BRAZIL”, destinada a ajudar a colocar outros missionários no Brasil.

Os hinos de Sara Kalley estão entre os mais cantados do CANTOR CRISTÃO. Entre estes, queremos destacar os seguintes: Os hinos 8, 39, 116 (as três primeiras estrofes deste são traduções, mas a última é original de Sara Kalley); e os de nºs 380 e 525.

Alguns hinos dela que se encontram no CANTOR CRISTÃO possuem a letra original, enquanto a de outros são traduções do inglês ou do alemão.

Com 82 anos de idade, Sara Kalley morreu em Edinburg, no dia 8 de agosto de 1907. Ela foi sepultada ao lado do túmulo do seu marido, no Deam Cemetery.

Henriqueta Rosa Fernandes Braga diz que “eram, antes de tudo, cristãos consagrados; além disso, possuíam fina educação aliada à sólida cultura e a notáveis dons artísticos”.

Ainda hoje, cento e trinta e nove anos* depois da sua saída definitiva do Brasil, estamos sentindo a grande influência de Sara e Robert Kalley, que foram “Os Primeiros Hinólogos Evangélicos no Brasil”.

Bill Ichter

* Referente a 2015 (no original – quase cem anos)
© 1967 de Bill H. Ichter – Usado com permissão
“Publicado originalmente em: “O Jornal Batista”, Ed. 9, Fevereiro 1967, pág. 5 – Coluna “Canto Musical”

 

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