O Valor dos Hinos – João Wilson Faustini

O valor dos Hinos

O Salmo 106:12 nos fala a respeito de como Deus livrou os Israelitas do exército Egípcio no mar Vermelho. E aí nós lemos.

“Então eles creram nas suas palavras e lhe cantaram louvores.”

Eles creram, e então cantaram.

Hinários

A confissão de fé e a hinódia caminham de mãos dadas. As palavras proferidas pela boca são como janelas que mostram o coração, e do que ele está cheio. Então, se quisermos conhecer se a confissão de uma congregação, é boa ou herética, basta pedir a ela que cante uma meia dúzia de seus hinos favoritos.

“Dize-me o que cantas. e te direi o que crês”

A Igreja primitiva dizia “Lex orandi, lex credenti“, isto é, a lei da oração constitui a lei da crença. Em outras palavras, aquilo que a igreja fala ou canta em sua liturgia é o que ela confessa como sendo verdade, mesmo que seja uma heresia. Ouça o que a Igreja canta, e ela estará lhe expondo o que realmente crê. Os cânticos perpetuam verdades ou inverdades que poderiam de outra forma desaparecer em uma geração.

Walter Kallestad, autor de um livro entitulado “Entertainment Evangelism Taking the Church Public[1] afirma que ele escolhe música para o culto que seja “semelhante ao tipo de música que as pessoas ouvem a semana inteira”. O pastor Timothy Wright, da Community Churchof Joy, na Cidade de Phoenix, AR nos Estados Unidos, e autor do livro “A Community of Joy: How to create Contemporary Worthip“, comenta sobre a necessidade de se escolher o tipo de música “certo”, para se fazer um culto que seja sensível quanto a cultura. Ele aborda também acerca dos impedimentos de crescimento de uma comunidade, afirmando que eles têm muito a ver com o tipo de música usado na liturgia.

Admitimos que tanto Kallestad quanto Wright possam estar certos, que isto possivelmente seja verdade. Mas há outros aspectos muito importantes que precisam ser considerados.

Há pelo menos duas correntes de pensamento, e pelo menos duas maneiras de encarar o tipo de liturgia e música a serem usadas no culto moderno: a tradicional e a contemporânea.

REFORMADORES, que procuraram manter a boa tradição hinológica da igreja. A música contemporânea é um resultado direto dos REVOLUCIONARIOS da geração BOOM, que abandonou completamente todos os valores das gerações anteriores, e procurou estabelecer os seus próprios valores.

Atualmente temos os dois estilos em quase todas as igrejas. Como sempre, pode haver abusos, tanto pela rigidez e inflexibilidade da liturgia tradicional, como pela frouxidão exagerada e sem controle da ordem de culto contemporânea.

É hora de fazermos uma análise para ver o que pode ser melhorado, antes que seja tarde demais. O assunto é por demais complexo e não existe uma solução simples.

Por que hinos?

A música tem tanto poder que por isso é usada tanto para o bem como para o mal. Quando uma música própria para nos entreter é revestida de texto piedoso, mesmo os mais ortodoxos, a verdade é obscurecida. As ressonâncias seculares da música sobrepujam as afirmações sagradas do texto.

Qual o propósito dos hinos?

O propósito dos hinos dentro da liturgia não é o de fazer uma grande apresentação musical ao ponto de fazer a congregação se pôr em pé em aplausos. Os hinos proclamam uma mensagem divina que não é entretenimento, mas que deve nos alimentar espiritualmente. enquanto sustenta a Igreja peregrina em Sua caminhada pelo mundo, sem ser do mundo.

Entretenimento e diversão têm o seu lugar, que deve ser fora dos limites da igreja.

Muitos seminaristas dizem que aprenderam mais teologia nos cultos. cantando os hinos tradicionais do que em suas aulas. O mesmo pode ser dito de muitos leigos que participaram das diversas partes da liturgia dos cultos por longos anos, cantando hinos e ouvindo os sermões.

A maior tendência da nossa geração parece ser a de cantar a respeito de si mesma, isto é, de nós próprios, e com música popular. Paulo entretanto, nos aconselha que devemos nos encher da palavra de Cristo para cantar:

“Habite ricamente em vós a palavra de Cristo, (não a palavra do homem) instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria. louvando a Deus com salmos, hinos, e cânticos espirituais, com gratidão em vosso coração. (Col. 3:16)”

E onde a palavra de Cristo está, Cristo, a Palavra encarnada, também está. Por isso é essencial também que a congregação cante hinos que são sem erros de doutrina. Os hinos devem proclamar Cristo e seus benefícios, isto é, o evangelho. Um corinho pode dizer tudo que é verdade a respeito de minha gratidão, meu louvor e minha glorificação de Cristo, mas se a sua mensagem principal é só esta, estará pondo de lado o evangelho, e eu poderei estar empanando a obra de Jesus.

Os teólogos sempre exaltaram os benefícios de revestir os hinos com a melhor teologia, a melhor música e a melhor poesia possível.

Erick Routley, um dos maiores hinólogos do século XX descreveu como Calvino reconstruiu culto reformado, ao revisar a missa romana, nos seguintes termos: “A Reforma de Calvino foi totalmente baseada na razão, e a sua igreja seguia princípios rijos de disciplina. Ele insistia no canto congregacional e não permitia cânticos que não fossem os Salmos metrificados em uníssono, a Oração Dominical e os cânticos tradicionais (Gloria Patri, Gloria in Excelsis, e Nunc Dimitis). Chegou a proibir o canto em harmonia, o uso do órgão e o uso de cânticos cujas palavras não fossem bíblicas.”[2]

Esta ideia prevaleceu por muitos anos e não havia referência a Jesus Cristo nos cânticos, apesar dos Salmos pulsarem com o sangue de Cristo. Eles testemunham Cristo e da sua obra salvífica a nosso favor.

O papel da cultura

Muitos justificam a introdução da música secular nos cultos, dizendo que é importante usar as músicas da nossa cultura. Mas as culturas não são estáveis, e mudam constantemente. Em vez de se casar com o estilo musical da cultura presente e se divorciar em seguida, conforme as mudanças culturais, a igreja deveria manter a sua própria música, em sua própria cultura histórica, A Igreja tem uma contracultura, uma cultura cujos ideais e crenças, e propósitos são contrários e diferentes da vasta gama de culturas seculares onde ela peregrina. É a cultura do santo, onde a sua hinódia testemunha a presença da Santa Trindade em seu meio. A sua cultura é a verdadeira, do Deus Vivo.

Cada geração acrescenta a sua pincelada no quadro que a Igreja pinta para a eternidade, mas o que já foi pintado não deve ser apagado, para se começar tudo novamente!

Por que não buscar, na enorme gama das tradições musicais históricas da Igreja, até as atuais, em vez de oferecer para as nossas congregações somente músicas populares contemporâneas, como country. polcas, sambas, xaxados, bossa nova e estilos influenciados pelo rock? Essas músicas, independentes dos seus textos, apontam para nós mesmos e para as nossas formas favoritas de entretenimento, típico da nossa cultura atual, que procura, acima de tudo, o que lhe promove prazer e diletantismo! Sobriedade é uma boa coisa em assuntos espirituais.

O exemplo de um hino universal, que não está ligado a cultura alguma, a não ser à cultura da própria igreja, e que aparece nas diversas versões da nossa língua, que glorifica a Deus, mas que a geração atual se nega a cantar é:

Deus está no templo
Pai Onipotente
A Seus pés nos humilhemos

Como seria diferente se observássemos estes critérios, antes de aceitar qualquer tipo de música no culto que prestamos ao Deus, que é três vezes santo!

Lutero usou melodias populares da sua época, mas o que muita gente não sabe, é que ele usou de um artifício chamado contrafacta, no qual mudou completamente o ramo irreverente das melodias populares, revestindo-os de majestade e reverência para poderem ser usadas no culto. Ele deu até mais ênfase do que o próprio Calvino, no uso das artes e da beleza a serviço da adoração.

Além de criar uma atmosfera reverente e adequada, o hino congregacional sendo mais artístico, prepara o coração do adorador para que ele esteja aberto espiritualmente, livrando-o de associações mundanas. Se o hino congregacional é teologicamente correto, ele é um meio eficaz de transmitir as dádivas de Cristo ao homem. Ele se assemelha a um sermão em miniatura, que é cantado em rima, para facilitar a memorização.

Hinários

Os benefícios dos hinos são muito maiores do que aqueles do momento em que são cantados, e vão muito além das paredes do templo. As melodias que são estéticas e belas frequentemente voltam à memória, quando estamos em outros lugares e situações, trazendo com elas, novamente, o seu texto e os seus ensinos, geralmente bem estruturados na doutrina.

Muitos hinos pregam mais e ensinam mais em quatro estrofes, do que um pastor possa dizer ou ensinar pregando o seu sermão de seis ou mais páginas! Isto porque são compostos com maior cuidado teológico e porque são recorrentes, isto é, voltam frequentemente com suas melodias à memória.

Na pregação dos hinos, o Espírito opera através da Palavra para repreender, ensinar, consolar e curar.

O hino não deve ser visto como entretenimento ou diversão. O comércio e a indústria de gravações transformaram radicalmente a maneira que as pessoas encaram o propósito da música e dos cânticos. A música como entretenimento tem o seu lugar na sociedade, mas cada vez mais, a sua função como divertimento se alastra para suas demais funções e isto logicamente afeta muito a música religiosa. Tradicionalmente a música tem sido usada na educação e em outros setores, com a finalidade de aprimorar o aprendizado e a memorização. É. sabido que Lutero fez mais com os seus hinos para doutrinar a Alemanha do que com os seus sermões eloquentes. Entretanto, nos últimos quarenta anos, a música tem se tornado numa grande fonte de exploração. A qualidade das músicas atuais não é mais avaliada pela sua beleza ou arte, nem pela verdade que contém, mas pelo efeito emocional que despertam nas pessoas.

Infelizmente, com grande frequência, os textos e as músicas, mais do que nunca, refletem as paixões carnais do homem pecador. Amy Grant, uma cantora popular americana que contribuiu muito para este estado de coisas, expressou esta tendência muito claramente quando disse numa entrevista para a USA Today em novembro de 1985:

“Nós preferimos ser um pouco mais flexíveis quanto ao uso das palavras nas músicas. Quando a gente usa os termos da igreja, as pessoas fogem!”

Quando essa cantora falou a respeito dos ritmos de bateria e dos gritos ensurdecedores do seu estilo musical, bem como de suas roupas sensuais, o repórter secular concluiu a sua entrevista perguntando aos leitores, se eles achavam que isto seria realmente boa música evangélica… Em 1986 essa mesma cantora disse:

“Há músicas que podem servir para dois propósitos. Eu as chamo de ‘God-girlfriend songs’ ,isto é, você pode estar cantando para Deus ou para a sua namorada…”

Sabemos que coisas semelhantes a isto estão acontecendo também em grande escala, e não só nas músicas, mas nos textos, que cada vez mais, deixam de glorificar a Deus para glorificar ídolos. Podemos pensar que esta mistura de sacro e secular seja um fenômeno moderno, mas este não é o caso. Gregório de Naziansus (ca.379) descreve o que já acontecia nos seus dias, e já naquela época a reverência do culto cristão estava sendo ameaçada.:[3] Salomão estava certo, não há nada de novo debaixo do sol. Lendo-se os escritos de São Gregório, parece que ele descreve o que acontece nos nossos dias.

A arte e o belo

Na tradução grega de Gen. 1:31 lemos:

“E Deus viu que tudo quanto fizera e eis que era extremamente belo” (kala).

Santo Agostinho de Hippo (354–430) em sua exposição dos Salmos descreve como a beleza da criação de Deus reflete a beleza de Deus.

Os filhos de Deus devem refletir a beleza de Deus. As vestes dos sacerdotes do Velho Testamento eram feitas “para glória e para beleza (ou ornamento)” (Ex. 28:2,40) Cristo, como o Renovo do Senhor é descrito como sendo de “beleza e de glória” em Is. 4:2; e o salmista pede do Senhor somente uma coisa:

“que possa morar na Casa do Senhor todos os dias da sua vida, para contemplar a beleza do Senhor e meditar no Seu templo.”
(Salmo 27:4)

De fato, Cristo e Sua igreja são belos e são caracterizados pela philokalia, que é o amor do que é belo.

Os que desenham os templos, os que fazem as vestes ou pinturas eclesiásticas devem estar cheios de philokalia. Devem amar aquilo que está cheio de beleza, porque quem é que tem prazer de ver coisas feias?

Philokalia não é apenas para os olhos. É para os ouvidos também. Os que compõem música e tocam instrumentos devem se esforçar para tocar, cantar e compor dentro dos princípios da arte e da estética, que promovem equilíbrio e beleza, como todas as demais coisas criadas por Deus.

Palavras chavões e muito batidas, ritmos muito preponderantes, melodias pouco intuitivas, frases musicais desproporcionais, vozes esganiçadas e sem técnica não deviam ter lugar na liturgia da igreja.

Eu creio que Deus, sendo um Deus de misericórdia, deve aceitá-las, mas isto com certeza, deve ser um verdadeiro insulto à majestade divina! Há uma tentação sempre presente entre os jovens, e até entre pastores, de se aceitar conjuntos, corinhos e solos de segunda e terceira categoria, com a justificativa esfarrapada de que é “para louvar a Deus”, ou “para atrair os jovens”, como se Deus merecesse lixo!

Alguns até olham com suspeita para aqueles que têm paixão pelos hinos e pela perfeição, e dizem a eles “eu não entendo muito a respeito dos hinos, mas eu sei de que tipo de música eu gosto”. O seu gosto pessoal parece ser mais importante que tudo. Na realidade isto não passa de ingratidão. Desprezar e não reconhecer, nem fazer uso das grandes dádivas encontradas na hinologia, que Deus tem dado para a Sua Igreja através dos séculos! Seria como se Deus nos mostrasse uma grande manada de gado e dissesse: “Aqui vocês têm leite, queijo, manteiga e carne” e nós disséssemos: “Não obrigado, não gostamos disso. Preferimos algodão doce.”

Outra comparação é a do apito de lata. Alguns dizem: “Podemos fazer música com um apito de lata para a glória de Deus, e Deus se alegrará com isso.” É verdade! mas Deus nos deu muito mais que um apito de lata. Ele nos deu todos os instrumentos debaixo do céu, com os quais podemos louvá-lo. Neste caso o apito de lata não é sinal de humildade. mas sim de grande orgulho e desprezo de nossa parte para Aquele que é digno de todo o louvor e glória.

William M. Taylor (1829-1895) que era presbiteriano, resumiu o propósito dos hinos e do hinário, dizendo que “um hinário reflete a história da igreja, incorpora as doutrinas da igreja, expressa a vida devocional da igreja e demonstra a unidade da igreja.”

Não há maior recurso litúrgico que este, disponível a pastores e leigos.

Normalmente os hinários representam a melhor fonte de teologia cristã escrita em poesia, não só para o uso na igreja, mas também nas casas, hospitais e escolas, e onde quer que a Palavra de Deus precise ser ouvida.

[1] Walter Kallestad, autor  de um livro entitulado “Entertainment Evangelism Taking the Church Public” Nashville: Abingdon Press, 1996, p.61

[2] Christian Hymns Observed: When in Our Masic God is Glorified Princeton, NJ Prestige Pubbicatiuns, 1982, p. 19 e 20.

[3] Prolegomena. ed. Philip Schaft e Henry Wacem Vol. III: Nicene and Post-Nicene Father of the Christian Church (Grand Rapids. Wm. B Eeardmans, 1955) p. 196

Rev. João Wilson Faustini

© Copyright 2020 de João Wilson Faustini – Usado com permissão
Publicado originalmente no 2.º Congresso de Música nas Igrejas, Sorocaba/SP, 2020.

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