O Canto das Crianças – Rolando de Nassau

No final do século 20, na Grã-Bretanha, em KiddleyDivey, Sally Murphy idealizou uma organização social, sem objetivo de lucro, destinada a criar coros de crianças, por meio de franquias, para promover a inclusão social, o lazer e a educação musical, cantando peças de música profana.

Depois, foram criados coros para execução de música litúrgica. Essa experiência, fora do ambiente restritamente eclesiástico, foi imitada pela American Choral Directors Association (associação americana de regentes corais).

Algumas igrejas copiam o método anglo-americano, que conhecíamos desde 2006, e temíamos que chegasse ao Brasil, desembarcado no Rio de Janeiro, na Praça Mauá.

No artigo anterior, delineamos um método de trabalho musical com crianças inspirado por missionários batistas americanos (Bennie May Oliver, Bill Ichter e Joan Sutton) que algumas igrejas adotaram nas décadas de 80 e 90. Esse método era estruturado num coro infantil, composto de crianças de 6 a 8 anos de idade, pertencente ao ministério de música.

Além da função de instruir, o coro infantil tinha a de educar, a fim de incutir na mente das crianças a missão do canto coral na igreja.

A característica daquele método era serviço pessoal, permanente e regular, prestado pelas crianças durante cultos previamente escalados, como parte de um processo educativo, na execução da hinodia evangélica e do canto religioso erudito.

As igrejas não aceitavam música profana.

No método antigo e tradicional, o maior número possível de crianças na igreja seria objeto dos cuidados do ministério de música.

É mais interessante gastar recursos humanos e financeiros, durante um ano, aplicando-os no ministério de música, para que as crianças e os jovens cantem o verdadeiro louvor. A finalidade do antigo método é desenvolver nos participantes o senso de que existem diversos coros na igreja. É um método notadamente social; as crianças perceberão o que cantam.

Cremos que o ensino e a educação musical das crianças e dos jovens cabe ao ministério de música; em geral, o ministério das crianças e o ministério da juventude não têm o pessoal tecnicamente capacitado. Às vezes, a juventude não sabe escolher os que participarão musicalmente dos eventos.

No método anglo-americano, as atividades artísticas (musicais, teatrais, coreográficas) são concentradas no ministério das crianças. Uma ou duas vezes por ano as crianças cantam, principalmente, música de entretenimento, com objetivos pragmáticos. Neste método, o Natal, por exemplo, é visto como produto, sob a ótica do “marketing” (mercado), para atender a demanda do público por certas mercadorias (“merchandising”) destinadas ao segmento infantil.

Este novo método funciona pelo “franchising” (licenciamento) de marcas. A “franchise” (franquia) é a autorização concedida a alguém para vender ou distribuir bens ou serviços de um produtor. O nome do produto, sob o qual uma série de subprodutos é distribuída ou vendida, às vezes é mais conhecido que o do produtor.

Os promotores dos eventos, que se interessam não pela música-de-culto, mas pela de entretenimento, além de ampliar o seu mercado interno (os membros da igreja), querem oferecer subprodutos ao mercado externo (membros de outras igrejas), coisas que possam ser doadas às crianças como “presentes de Natal” (CDs, DVDs, livros com textos e diálogos dos personagens do “musical”), ou compradas por pessoas que lidam com sonorização e iluminação; cenários; logística de palco etc.

Supomos que uma grande equipe de voluntários trabalha na elaboração de instruções, a fim de planejar minuciosamente as tarefas atinentes à execução do espetáculo musicado (“musical show”); todos cedem gratuitamente os direitos de autoria à igreja patrocinadora do evento.

A comercialização costuma ser proibida; entretanto, nos projetos é incluída a comercialização, na fase de distribuição dos subprodutos.

A preocupação com o “marketing” torna-se mais evidente quando o roteiro é justificado pela necessidade de fornecer aos interessados orientação para reprodução do “musical”, especialmente em outras igrejas. Essa preocupação denota a ideia expansionista dos entusiastas do método.

É razoável crer que os promotores do novo método sempre pretenderão vendê-lo para convenções, igrejas batistas, e escolas de outras denominações evangélicas. Algumas igrejas promovem excursões temerárias para cantar no exterior.

Pouquíssimas igrejas no Brasil têm condições de utilizar a metodologia e tecnologia necessárias à execução deste caríssimo empreendimento artístico. Elas não sabem o custo.

As igrejas ainda interessadas na conservação de suas tradições teológicas, doutrinárias e musicais não quererão cooptar o novo método, que despreza as suas tradições.

No método antigo e tradicional, o maior número possível de crianças na igreja seria objeto dos cuidados do ministério de música.

Pelo novo método, é formado um pequeno grupo “selecionado” para participar da gravação de áudio em estúdio; no dia da apresentação, as outras dezenas de crianças fingirão que estão cantando, porque será tocado um “playback” enganoso.

Os pais das crianças privilegiadas assinarão contratos cedendo os direitos autorais de voz e imagem das crianças. Isto significa que as crianças não são donas de suas vozes quando cantam “em louvor a Deus”. Neste tipo de espetáculo “infantil” quem mais participa são os adultos. Até os protagonistas são ventríloquos, mas com direitos autorais.

Recrutar tanta gente, durante metade do ano, para apresentar um único “musical show”, a fim de entreter os membros da igreja, é gastar dinheiro num projeto com pouco retorno no desenvolvimento musical; poucas crianças serão instruídas e educadas a prestar um culto racional; ver é pensar, mas os espectadores verão o “show” irracional sem razão para refletir.

Há público para esse tipo de espetáculo? Sim, pois o que vemos e ouvimos é o que somos (ver: BLOOM, Harold. A anatomia da influência. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013).

O coro infantil entoa hinos durante os cultos; embora seja importante, é desprezado por muitas igrejas.

Com a ajuda da parafernália de luzes e sons, o coro de franquia se exibe num “show” para obter um produto.

O segundo método, que recorre à franquia, deve ser tecnicamente eficiente; ao primeiro, que se apoia nas orações da igreja, basta que seja espiritualmente eficaz.

Rolando de Nassau

© 2015 de Rolando de Nassau – Usado com permissão

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2 Resultados

  1. Jônatas Fernandes disse:

    Que os nossos pequenos louvem a Deus!
    Cultivar o amor e louvor desde cedo através dos nossos hinos é riquíssimo!

  2. Jônatas Fernandes disse:

    Que os nossos pequenos louvem a Deus!
    Cultivar o amor e louvor desde cedo através dos nossos hinos é riquíssimo!

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