Hinos – Texto e Música Como Parceiros Felizes – Rev. João Wilson Faustini

Definição de hino:

Hino é uma poesia métrica de estrofes sucessivas com a mesma estrutura e esquema de rima, para ser cantado com a mesma música. O compositor deve escrever de modo simples e claro, para que o hino possa ser geralmente cantado por uma congregação de analfabetos musicais. O hino precisa ser considerado como uma só entidade – texto e música. O impacto da música geralmente é instantâneo, por apelar imediatamente ao nosso sentido irracional, ou seja, mais na superfície¹.

Scott Westerman, assim classifica os elementos essenciais de um bom hino²:

1. A MÚSICA deve ser de um caráter tal, que por si própria, mesmo sem palavras, possua um claro valor devocional, e contribua para a realidade do culto de adoração:

a) O ritmo deve ser servo e não mestre. Quando o ritmo prevalece e chama a atenção, ele se torna o mestre, e pode até impedir que o texto seja bem compreendido.

b) A emoção deve ser genuína e sob firme controle. Músicas muito emotivas e românticas, da mesma maneira, prejudicam o discernimento.

c) A linha melódica não deve ser muito extensa, e permanecer dentro da tessitura normal da congregação.

d) As vozes da harmonia devem ser interessantes e bem escritas. As dissonâncias continuas causam tensão e desconforto, e embora enalteçam as consonâncias em suas resoluções, devem ser usadas com moderação e diferenciadas das músicas populares mundanas, para que a atmosfera do culto seja de fato reverente.

e) A associação de ideias não deve ser de natureza secular, pois seria um empecilho para o culto.

f) O efeito geral deveria ser o de reverência, dignidade, simplicidade e beleza.

2. O TEXTO deve ser um que tenha valor por si só, sem ajuda de música, como uma expressão sincera e reverente de amplas verdades bíblicas, e que esteja em bom português e tenha mérito literário genuíno:

a) O hino deve ter um conteúdo que mostre as aspirações e conceitos espirituais fundamentais da fé cristã.

b) Ele deve ter uma linguagem que não seja corriqueira ou chã.

3. A MÚSICA E O TEXTO devem possuir uma semelhança de atmosferas, definidas e consistentes, a mesma acentuação rítmica e a mesma intensidade de expressão, de tal forma que não causem nenhuma estranheza, ou aparente distorção do pensamento do texto, em lugar algum:

a) Ambos devem possuir semelhança de atmosfera geral. Se as estrofes do hino variam de atmosfera, a música deve ser adaptável, sem esforço, a essa mudança.

b) Devem possuir semelhança de atmosfera no aumento ou declínio da dinâmica e da intensidade de expressão.

c) Devem possuir semelhança no fraseado natural da expressão verbal, que deve condizer e combinar com o fraseado inerente da música. (Ex. “O Semeador, de O. Motta). S.L 269. Esse hino tem um excelente texto. Como a música tem suas frases melódicas consistentes em cada estrofe, o texto em alguns pontos não coincide exatamente com fraseado da música. O poeta se preocupou em fazer uma poesia, talvez sem conhecimento da regularidade da estética nas frases musicais. Os músicos devem se aperceber disto e procurar completar o sentido do texto, se necessário, ligando as frases musicais. Por exemplo: Na 3ª estrofe, devem ligar o verso 5 ao 6, para que o texto complete o sentido da frase: “E o semeador não desanima no labutar, nas provações” em vez de se cantar: “E o semeador não desanima (pausa) no labutar, nas provações”. Desta forma o texto se torna mais claro e compreensível.

d) A acentuação da música deve ser idêntica à das palavras.  Antigamente cantava-se “Horá bendita de oração” porque o acento forte do compasso ternário caía sobre a sílaba “hoRÁ”, Na revisão do hinário, foi corrigido para “Bendita hora de oração”, evitando-se esse erro de prosódia.

4. O teor total do hino – PALAVRAS E MÚSICA deve apontar para Deus:

a) A terminologia descritiva do texto deve ser observada fielmente na concepção Cristã de Deus.

b) O texto deve evitar termos fantasiosos e irreais, e termos antropomórficos grosseiros.

c) O texto deve se submeter à música, em todos os aspectos, para se obter uma atmosfera de culto. A música deve ser uma oferta digna e adequada a Deus.

5 . Um bom hino deve ser fácil de cantar, e de uso prático:

a) A sua música, se for um pouco difícil, deve ser ensaiada. Os esforços de aprendizado da congregação serão compensadores, dando um bom e gratificante resultado.

b) As palavras de um hino devem expressar ideias que são relacionadas com a vida, mas que elevam a mente e o coração acima dos níveis comuns dos pensamentos corriqueiros.

c) O hino deve preencher uma ou mais das seguintes necessidades:

c.1. Ser uma expressão coletiva de culto, e não individual. Ser uma expressão da congregação. Que pela sua natureza, una os crentes.

c.2. Dar uma ideia da realidade de Deus na história e na vida quotidiana.

c.3. Afirmar a onipresença, e o poder transcendental de Deus, ressaltando o cuidado imanente e pessoal de Deus.

c.4. Elevar espiritualmente, através do louvor ou oração a Deus.

c.5. Dar maior compreensão de Deus através de Cristo Jesus – seu amor, seu perdão, sua santidade, etc.

c.6. Reconhecer o Reino de Deus, a união da humanidade, o valor eterno da alma, a paternidade de Deus, a justiça entre os homens, etc.

Raramente estes importantes tópicos aparecem nos cânticos atuais, o que é uma grande lástima. O povo deixa de ser discipulado e ensinado doutrinariamente, como acontecia que os hinos tradicionais. Em consequência disto, muitos membros de igrejas atuais não sabem articular sua fé e nem dizer o que realmente creem.

Convém, também, repetir e observar alguns princípios já mencionados, para se poder julgar e selecionar músicas para hinos, como nos orienta Ray Francis Brown³:

A música deverá:

  1. Expressar uma atmosfera correspondente às palavras a que está associada. A música deverá ressaltar aquilo que as palavras dizem.
  2. Ter a mesma acentuação rítmica de seu texto.
  3. Ser popular no sentido de ser acessível e bem aceita.
  4. Ser simples e fácil para o povo cantar.
  5. Ter uma boa estrutura ou forma, que demonstre equilíbrio.
  6. Ter uma melodia que não dependa da harmonia para soar bem.
  7. Ter uma melodia diatônica (tons e semitons) e uma harmonização basicamente diatônica.
  8. Ter uma harmonia que tenha interesse melódico em cada uma das quatro vozes, e que não use progressões de acordes primariamente para causar meros efeitos, sensacionalismo ou sentimentalismo ou efeitos baratos.
  9. Ter uma tessitura para canto congregacional, isto é, do Do 3 ao Ré 4, ou quando muito do La 2 ao Mi4.
  10. Ter um ritmo fluente que expresse dignidade e força.
  11. Não ter nem dar associações seculares.
  12. Ser usada, se possível, com um só texto.

O QUE É POESIA?

“Poesia é pensamento colorido por forte emoção e expressa em métrica.” (J.S. Mill)

Poesia pode ser pensamento, filosofia e argumentação, mas sempre é emoção.

A emoção pode muitas vezes ser enfraquecida pela sua associação ao pensamento, mas o pensamento sempre é fortalecido pela emoção. Na realidade o pensamento sem emoção é morto. A emoção, entretanto, tem vida própria e não depende do pensamento.

“O poeta descreve o que sente. Sua experiência é emocional, por isso a poesia expressa melhor aquilo que sentimos profundamente, por exemplo o amor, o heroísmo, a tristeza, etc. Cristianismo é experiência religiosa, portanto tem de ser poético.” (Dr. Theodore G. Soares).

O poeta está constantemente deixando aquilo que é supérfluo, passageiro e aparente, pela busca do que é significativo, permanente e real. O maior dom do poeta é o da compreensão e síntese. Tanto a poesia como o hino, expressam grandes conceitos com poucas palavras.

“Poesia é a revelação do desconhecido através do comum, do eterno, através do transitório. É o grito apaixonado do coração na presença maravilhosa da vida. O poeta é um habitante de dois mundos – o visível e o invisível.” (Edwin Markham).

“Poesia é um arranjo apaixonado das palavras, quer em verso, quer em prosa, contendo a exaltação, o esplendor, o ritmo e a beleza da vida”. (Richard Le Gallienne).

“A busca para encontrar pensamentos definidos na poesia, pode, muitas vezes, ser totalmente infrutífera.” (R. H. Hutton).

“A antítese da poesia não é a prosa. É a ciência.” (Wordsworth).

“Grande poesia obtém sua força da vida”. (Jung).

“Os poetas do nosso século falam mais de si próprios do que aos outros e acham que têm o direito de ser profundos.”

Verso e poesia são de valor não porque são poesia, mas por que ajudam as pessoas a se lembrarem. Um bom poeta é como um bom jornalista, isto é, tem as mesmas tarefas: apresentar seu tema claramente, de maneira que as pessoas se lembrem do que foi dito, no mais limitado espaço possível4.

DIFERENÇA ENTRE POESIA E HINO

Não se deve exigir que os hinos sejam poesia, mas temos o direito de ter num hino, bons versos, com bom conteúdo de expressão Cristã sincera.

O hino deve ser diferenciado da poesia no sentido de que evite aquilo que é sutil. Não deve ser dúbio ou de difícil compreensão. A base do hino deve ser a da fé histórica, e não de mitos.

Nancy White Thomas mostra como os hinos elaboram ideias e realçam significado5:

Os comentários humanos sobre a verdade de Deus podem ser orações, sermões e hinos.

Os hinos prolongam as expressões humanas de súplicas, de louvor, de afirmações de fé, e de as aspirações e reflexões (Prof. A.J.B Hutchings).

“O Senhor é meu pastor” – é a afirmação do salmo. O restante do salmo é elaboração dessa ideia, é o desenvolvimento da imagem usada. A Bíblia, portanto, reconhece o valor da elaboração da ideia. Não é suficiente conhecer a verdade. Somos estimulados pela Palavra de Deus a “meditar” na lei de Deus de dia e de noite (Salmo 1:2, Josué 1:8) O sentido completo só virá através da reflexão. Os hinos fornecem esses meios para a contemplação da nossa fé.

  1. Quais algumas das maneiras pelas quais os hinos elaboram as ideias?
  2. Pela repetição da ideia, de maneiras diferentes.
  3. Pela comparação da ideia com outras semelhantes.
  4. Contrastando a ideia com outras ideias opostas – desde a diferença simples até a oposição dramática.
  5. Ilustrando-a ou fazendo uma aplicação dela.
  6. Explorando a ideia através de perguntas e respostas.
  7. Entrelaçando a ideia através de perguntas e respostas.
  8. Usando-a em linguagem simbólica – imagens ou metáforas adequadas para explica-la.
  9. Examinando-a de um determinado ponto de vista ou ângulo, etc.

Exemplos:

  1. Repetição com variações

“Não sei por que de Deus o amor a mim se revelou”. A revelação do amor de Deus é um mistério e uma realidade.

“Não sei por que” …mas eu sei”

Este paradoxo é repetido entre cada estrofe e coro, tocando em pontos doutrinários importantes, como eleição, justificação, segunda vinda e vida futura.

  1. Comparação

“Belo és, ó Cristo” ó formoso Cristo

A beleza de Cristo é enaltecida, quando comparada com as coisas mais belas da natureza e os anjos do céu, sendo que Cristo é mais belo do que tudo.

  1. Contraste

“Ó Deus, eterno ajudador” (O God our Help in Agespost)

Este hino mostra-nos a realidade da fragilidade e transitoriedade humanas – contrastadas com a eternidade e poder ilimitado de Deus.

  1. Ilustração – aplicação

“Minha vida consagrada seja a ti, Senhor”

Nesse hino Francês Harvergal elabora a ideia da mordomia da nossa vida, enumerando cada item, como as mãos, pés, voz, dinheiro, capacidade, vontade, amor, desejo, etc. os quais consagramos ao Senhor.

  1. Pergunta e resposta

“Triste estás, cansado, aflito?

A alma cansada e em desespero só encontra o descanso e a salvação eterna em Cristo Jesus.

“Sentinela vai-se a noite, que sinais me tens a dar?” (S.L. 73).

Chega o tempo do cumprimento das promessas de vinda de Cristo, e a sentinela as anuncia ao caminheiro esperançoso.

  1. Drama

“Jesus, está à porta” (S.L. 161)

Os personagens são: o narrador, Cristo, e nós os pecadores. O narrador descreve Cristo, com suas mãos transpassadas, batendo à porta e pedindo entrada: “Morri por vós, meus filhos, não me deixais entrar? “Ao que respondemos: “Senhor, agora abrimos o nosso coração, ó entra, e faze nele eterna habitação!”

  1. Figuras simbólicas

“Nas tormentas desta vida”

Descreve o pecador soçobrando no mar agitado da vida, enquanto nós, os Cristãos, podemos guia-los à salvação.

  1. Ponto de vista

“Quando eu contemplo aquela cruz” (S.L 119)

O autor vê, do seu ponto de vista, os valores da cruz, obtendo assim uma perspectiva verdadeira na relação com Cristo.

Os hinos realçam o significado

De que maneira?

O poeta é obrigado a economizar suas palavras. Ele também precisa usar descrição, narração, exposição e argumentação, como escritor de prosa, mas não pode usar muitas palavras – (apesar de estar elaborando e desenvolvendo ideias). Ele é forçado, então, a coordenar suas palavras com grande habilidade. Precisa escolher as palavras bem exatas, as mais pitorescas e de grande poder de associação e coloca-las no lugar próprio em relação às outras. O resultado deverá ser uma poesia compacta, que de maneira concreta focalize e intensifique o significado do assunto – de maneira breve, simples e direta. Na própria Bíblia estão os melhores exemplos de narração de acontecimentos históricos e das respostas poéticas a respeito dos mesmos. Vejamos, por exemplo, os capítulos 14 e 15 de Êxodo, com isto em mente. Ambos os capítulos são grande literatura; ambos são inspirados, ambos são a respeito do cruzamento do Mar Vermelho, mas o capítulo 14 é uma narração histórica e o 15, uma reação poética do fato. Examine cuidadosamente como o “Cântico de Moisés” realça o significado do evento histórico.

CONCLUSÃO

Quando um significado é assim realçado e é mais enfatizado ainda, ao ser cantado com uma melodia adequada, obtemos um instrumento de expressão e impressão de singular e inigualável valor – que se chama HINO.

A construção do hino é mais rígida do que a poesia comum, embora o seu autor use as mesmas formas métricas que o poeta. O hino é enquadrado numa certa disposição de acentos fracos e fortes, e esse padrão deve ser observado rigidamente para todas as estrofes, porque geralmente todo o hino é estrófico. Se usássemos a forma “durchkomponiert”, tão comum nos “lieder” alemães, talvez o poeta pudesse ter mais liberdade. Para o compositor não faria tanta diferença, porque ele partiria do texto existente, e poderia sem dúvida se tornar até mais expressivo, mudando sua linha melódica e ritmos quando necessário, para que as acentuações fossem corretas e o canto se tornasse expressivo. Entretanto o estilo “durchkomponiert” em nada facilitaria o canto congregacional, e embora mais artístico, é menos prático que o hino estrófico. Fruto do auge do romantismo, levado também pela emoção do texto, mesmo disposto estroficamente pelo poeta, o compositor se liberta da repetição rígida das estrofes, faz mudanças da melodia, do ritmo, usa modulações, e elabora no acompanhamento para criar as atmosferas específicas para as palavras de cada estrofe. É interessante de se notar que muitos hinos, geralmente “compostos”, mas “não escritos” pelos jovens de hoje, seguem o estilo “durchkomponiert”, libertando-se mais ou menos do rigor das estrofes, das acentuações e também das rimas. Não há dúvida que é uma árdua tarefa, a de se cantar duas ou mais estrofes, que dizem coisas que não são idênticas, com uma mesma música. Um exemplo típico deste constraste existente em um mesmo hino, que é preciso ser cantado com a MESMA música, é o hino “Cristo já ressuscitou”. A mesma frase musical é usada para cantar dois versos postos:

“Cristo já ressuscitou, Aleluia!” e “Sobre a cruz Jesus sofreu, Aleluia!”

ou

“Mas agora vivo está, Aleluia!” e “Ele à morte quis baixar, Aleluia!”

Se o organista inteligente faz uso de uma dinâmica preparatória nos acordes que prescedem estas frases, aumentando ou diminuindo o volume, de acordo com a lógica do texto, ele sem dúvida fará com que o texto se torne vivo e expressivo. Se ele não prestar atenção na letra, e tocar tudo fortemente e triunfantemente, manterá apenas o teor geral do hino, sem delinear seus ricos contrastes, que dão vida e um significado mais profundo às palavras.

O hino é um canto, mas como poesia, ele pode às vezes ser inexpressivo, até que seja vitalizado pela música. A música e a poesia de um hino não precisam necessariamente ser compostas por duas pessoas distintas. Roger Quilter, por exemplo, Lutero e outros, foram tantos poetas como músicos.

Um hino deve fornecer prazer vocal intelectual, musical, etc., mas não deve ser tão abusivamente atraente, ao ponto de se tornar um empecilho para a devoção e o enlevo espiritual. Se Platão ensinava que os jovens precisam aprender textos para serem cantados para que se tornem “mais gentis”, harmoniosos e rítmicos em suas vidas”, assim também nossos hinos devem ensinar a fé cristã e ter um conteúdo ético que possa ser lembrado durante a vida, através dessa associação com a música (6).

A música não acrescenta nenhum elemento essencial que esteja faltando às palavras, nem aumenta o significado das palavras. Pelo contrário, as palavras é que acrescentam significado à música. Quando as palavras e músicas são combinadas, ambas perdem algo. O resultado é um comprometimento, UMA NOVA ENTIDADE, que não pode ser estendida unicamente em termos de texto ou de música. É impossível de se concordar, por exemplo, de como uma poesia deva ser lida, quanto ao seu exato fraseado e inflexão de voz. Há muitas opções. Mas quando o texto é colocado em música, as acentuações, fraseados, inflexões, etc., são obrigadas àquelas da música. Não há opção. O texto é então proferido da maneira que a música o faz. Bom texto, não significa música pobre, nem boa música um texto fraco. Entretanto, palavras ou músicas “toleráveis”, podem ser o que existe, para uma determinada situação. De nada adianta ser “boa” – letra ou música, SE SÃO IRRELEVANTES7.

“Muitas vezes um poeta escreve para agradar-se a si mesmo e satisfazer o seu impulso criativo. O autor de um hino preocupa-se em transmitir uma mensagem. O excesso de adjetivos jamais enriquece os versos de um hino. Linguagem clara, direta e objetiva, sim. Ele precisa escrever com clareza suficiente, para que uma congregação possa fazer duas coisas de uma só vez: compreender o significado das palavras e cantar a melodia. Os maiores hinos são obras primas de profunda simplicidade. Entretanto, muitas vezes em busca de simplicidade, o autor pode se tornar facilmente barato, vulgar, ou cheio de chavões corriqueiros.

O autor de hinos é limitado a um assunto cristão, e além disso, precisa estar submisso a formas métricas rijas. Com a melhor boa vontade do mundo, é quase impossível de se obter sempre, cesuras ou interrupção de frases musicais de textos, que coincidam exatamente com as cesuras da frase musical e todos os acentos, pulsações rítmicas em todos os versos de cada estrofe! O ideal é que o texto sempre se encaixe na música como uma luva, tanto no fraseado, nas acentuações, como no espírito ou atmosfera. Muitas poesias boas, colocadas em musicas baratas, são desvalorizadas. Muitos poetas preferem escrever um texto para uma melodia já conhecida, para depois de escrito, providenciarem uma música própria para o novo hino8.

A música de um hino não é primariamente uma produção musical, mas nem por isso deva ser composta “a toque de caixa” e sem esmero.

Ela deve ser uma serva de um texto, que por sua vez, deve ser o veículo de adoração e culto. Como um hino é culto e é experiência musical ao mesmo tempo, é óbvio que somente um compositor que está interessado em ambos pode fazê-lo bem.”9

“Enquanto cantarmos hinos, seus textos e músicas precisam ser parceiros felizes – não importa quais formas, novas e criativas possam aparecer para eles no futuro.”10

Adam Fox disse que hinos são poesia por coincidência, e que dizer se a poesia é boa ou ruim não responde a pergunta se um hino é bom ou ruim.”11

Rodgers e Hammerstein, famosos parceiros de shows musicais – libretista e músico, mostraram em peças como “The Sound of Music” (A noviça rebelde) e “South Pacific”, principalmente na canção “Bali Hai”, como a música influencia o caráter do texto, e vice-versa. É um processo duplo, cada elemento mudado e afeta o outro. Somente aí haverá um verdadeiro casamento de letra e música.”12

O editor da revista “The Hymn” calculou em 1958, que se escreve em média, seias a oito textos, para cada música de hinos! É mais fácil de se escrever um texto bom do que uma boa música. Mediocridade revela-se mais prontamente na música. Quase sempre a música é escrita para o texto, raramente o oposto, como no caso de FINLÂNDIA.13

A música tem um valor inconfundível no hino. Ela volta à mente com frequência, quando o texto já foi esquecido, e ajuda a memoriza-lo. Ela associa-se também com outras coisas que podem afetar nossos sentimentos e nos faz lembrar de experiências e memórias antigas.14

O hino como poesia excita a emoção e o pensamento. Quando o hino é cantado, ele também une a mente ao coração.16

Provavelmente, o mais importante progresso na investigação científica da música, foi a descoberta que a música é percebida através daquela parte do cérebro que recebe o estímulo das emoções, sensações e sentimentos, SEM SER primeiro submetida aos centros do cérebro que envolvem a razão e a inteligência responsáveis pela compreensão do texto.17

Entre os muitos problemas que o compilador de um hinário tem de resolver, está o de escolher a música certa para a letra de cada hino. Há diversos textos que não têm música definida e que em cada hinário estão ligados à diferentes músicas. Alguns hinários incluem diversas opções, com duas ou até mais músicas, naturalmente levando-se em conta que serão usados por congregações bastante diferentes, desde as pequenas da roça, até as catedrais da grande cidade.

Há hinos, entretanto, que são só usados com a mesma música, sendo que texto e melodia são inseparáveis. Um desses hinos é o “Santo, Santo”, outro é o “Ao Deus de Abraão Louvai! Por que não se pensa em separar estes textos das melodias NICAEA e LEONI? Naturalmente são boas combinações de texto e música, e num bom “casamento”, não se justificaria uma troca.18\

Procure no índice das melodias do seu hinário as melodias denominadas PASSION CHORALE e AURÉLIA. Agora experimentemos cantar “Ó fronte ensanguentada” que usa a melodia PASSION CHORALE, com a melodia de AURELIA, do hino “Da igreja o fundamento”.  Não é evidente que isto é um mau casamento?

Ó fronte ensanguentada                            Da igreja, o fundamento
Em tanto opróbrio e dor                             É Cristo, o Salvador;
De espinhos coroada                                Em seu poder descansa
Com ódio e com furor!                              E é forte em seu amor,
Tão gloriosa outrora,                                 Em Cristo bem firmada
Tão bela, tão viril,                                     Segura sempre está
Tão abatida agora,                                    E sobre a Rocha eterna
Da afronta e escárnio vil.                           Jamais se abalará.

Cada música, mesmo sem texto algum, tem a sua atmosfera adequada, que pode expressar bem o espírito da letra ou não. Ouçamos, por exemplo, o espírito que estas músicas podem transmitir, sem letra alguma:

CWM RHONDA – Vigor, poder, desafio

STILLE NACHT – Tranquilidade, doçura, paz

EIN’ FEST BURG – Audácia, coragem de ferro, confiança

Quando o “casamento” entre texto e música é perfeito, o hino torna-se elemento para produzir um responso emocional diante das verdades religiosas. Agostinho foi sensibilizado pelo cantochão composto por Ambrósio em Milão. “Eu chorei”, disse ele, “diante da beleza dos hinos e cânticos, e fui fortemente tocado pelo mavioso som da sua igreja cantando.”19

Um jovem sacerdote anglicano, num culto da catedral de São Paulo, de Londres, ouviu o salmo cantado pelo coro de meninos falar ao seu coração: “Das profundezas clamo a ti, Senhor.” Este foi, na realidade, o início do grande reavivamento inglês liderado por João Wesley.20

Rev. João Wilson Faustini

NOTAS

1. William Osborne, Hymns for Today, The Hymn, Out. 1969, vol. 20, nº 4. pg.115.
2. “The Essential Elements of a Good Hymn” – W. Scott Westerman
The Hymn, Jan. 1953, vol. 4 nº 1, págs. 25 e 26.
3. Appraising 20th Century Hymn Tunes, The Hymn, Abril 1972, vol. 3, nº, pág. 37.
4. Michael Hewlett. Thoughts About Words, The Hymn, jul. 1969, vol. 20, pg. 90.
5. Nancy White Thomas, The Hymn, vol. 13, number 1, January 1962, pg. 24.
6. Frank. B. Merryweather, Poetry and Hymns, The Hymn, out. 1954, vol. 5, nº4, pgs. 109 a 115.
7. Greg Ampersand Mark, Words and Music in Public Worship, The Hymn, out. 1976, vol. 27, nº 4, pgs. 110-111.
8. Frederick Pratt Green, Hymn Writing Today, The Hymn, out. 1971, vol. 22, nº 4, pg. 118.
9. Austin, C. Lovelace, Tunes Alive, in 85, The Hymn, jan. 1972, vol. 23, nº 1, pg. 10.
10. Frank B. Merrywesther, Poetry and Hymns, The Hymn, out. 1954, vol. 15, nº4, pg. 115.
11. George Litch Knight, The Language of Hymnody, The Hymn, abr. 1957, vol. 8, nº 2, pg. 38
12. Michael Hewtett, Thoughts About Words, The Hymn, jul. 1969, vol. 20, nº 3, pg. 90.
13. George Litch Knight, Texts or Tunes, The Hymn, ou. 1958. vol. 9, nº4, pg. 100.
14. Alfred B. Hass, Hymn Tunes and Emotions, The Hymn, jan. 1960, vol. II, nº 1, pg. 8.
15. Max Schoen, Psychology of Music, New York: Rohald, 1940, pg 69.
16. Ruth Ellis Messenger, Emotion Blending with Thought, The Hymn, abr. 1960, vol. II, nº 2. pg. 34.
17. Dorothy Schullian e Max Schoen – Music and Medicine, New York: Henry Schumann, Inc., 1948, pgs. 270-271.
18. George L. Knight, “Settling on the Proper Tune”, The Hymn, abr. 1956, vol. 7, nº2.
19. “Confissões de Agostino”, 3 Livro IX
20. Alfred B. Hass, Hymn Tunes and Emotion, The Hymn, jan. 1960, vol. II, nº 1, pg. 8.

© João Wilson Faustini – Usado com permissão

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