“Hinódia Horizontal” – Patrick Dugan

Um dia na década de 80, fui impactado pela capacidade comunicativa da música.  Estive sentado no meu escritório no interior de Minas Gerais quando apareceu um moço que eu nunca tinha visto.  Era um vendedor de Santa Catarina que queria me conhecer.  Um moço bem comunicativo, entrou dizendo quanto ele gostou de um disco que havíamos lançado naquele ano.  E, de repente, começou a cantar de cor uma música minha, “O Carpinteiro”…e sem errar a letra.  Esta música é uma música séria, que ensina a doutrina do Verbo Encarnado. Pensei comigo:  Às vezes, duas semanas depois de pregar na igreja nem eu me lembro o que preguei, e este moço decorou palavras minhas!  Que ferramenta de ensino; e que responsabilidade para o compositor!

Esta visita inusitada me levou a refletir sobre música como ferramenta de comunicação.  É claro que os marqueteiros sabem muito bem disso:  Qual o comercial que não inclua música nas suas vendas?  Mas, será que a gente sabe aproveitar, como devemos, este aspecto da música cristã?

Como eu entendo, há duas direções da comunicação musical no âmbito do Reino de Deus: vertical e horizontal.  Em primeiro lugar, com a música comunicamos nosso louvor a Deus: comunicação no vertical.  Não é a única forma que devemos louvá-Lo, mas ao reunirmos em nome dele devemos entoar hinos que exaltam seus atributos e feitos. Somente ele merece o louvor e estamos a fim de agradar o coração dele.  E, de fato, estamos ensaiando para fazer parte daquele coral celestial cantando o hino do Cordeiro: “Grandes e maravilhosas são as tuas obras, Senhor Deus todo-poderoso”. (Apoc.15.3). Com certeza esta comunicação vertical deve ser predominante cada vez que sua igreja se reunir em culto público.

Mas, a música pode ser usada também para comunicar aos homens as verdades de Deus – o sentido horizontal da música cristã.  No mesmo texto acima, João faz menção do “cântico de Moisés”.   Não sabemos qual o cântico a que está se referindo, (possivelmente de Ex.15), mas, é interessante notar que entre os cânticos de Moisés do Pentateuco, há cânticos dele direcionados horizontalmente.  De fato, Deus explicitamente direciona Moisés a escrever uma canção para ensinar o povo:

“Agora escrevam para vocês esta canção, ensinem-na aos israelitas e façam-nos cantá-la, para que seja uma testemunha a meu favor.” (Deut. 31.19)

 O cântico em seguida (32:1-43) sim, exalta os atributos e feitos de Deus, mas, é  claramente didática e histórica, destinada aos ouvidos do povo de Deus para não esqueçam sua instrução e aliança com ele (31.21).

Vemos evidências do mesmo aspecto horizontal da comunicação musical no Novo Testamento. Sabemos muito pouco sobre os conteúdos das músicas cantadas pela igreja do Novo Testamento, mas, os estudiosos geralmente consideram Filipenses 2.6-11 como um cântico da igreja primitiva.  A letra é didática e teológica, realçando a encarnação e humildade de Cristo.  Glorifica a Deus, sim, mas, é direcionado horizontalmente, música comunicando com os homens.  Outro texto que aponta o aspecto horizontal da música sacra é Efésios 5:19 onde Paulo comanda que os cristãos devem falar “…entre si com salmos, hinos e cânticos espirituais”.

Não temos espaço para aprofundar nesse assunto, mas, acredito que temos razão de redescobrir o poder de comunicação da música no sentido horizontal.  Proponho para compositores de que considerarem com seriedade, também, a produção de músicas que falam, “uns com os outros”, músicas que impactam o povo com as verdades de Deus:

Musicas que ensinam teologia:  Como alguém disse, música é “teologia portátil”.  Vamos fazer músicas que comunicam princípios realmente bíblicos, como fizeram compositores antigos como Charles Wesley. Até músicas que nos levam a decorar textos bíblicos.

Músicas evangelísticas: Conhecemos pessoas que converteram através de músicas que pregam o evangelho de forma melódica e poética.  Vamos fazer músicas que evitam jargão evangélico e comunicam o evangelho com clareza para usar em ambientes apropriados.

Músicas históricas: Como Moisés e os salmistas, faremos cânticos que relembram o povo da poder e fidelidade de Deus.

Músicas desafiadoras: O impacto emocional/estética da melodia, ritmo, harmonia e poesia da música “turbina” a verdade de tal forma que as pessoas não apenas entendem a verdade, mas são motivadas a abraçar e viver a verdade.

A música horizontal não deve substituir os hinos direcionados a Deus:  A música vertical deve ser o teor principal dos cultos públicos.  Mas, como compositores, não devemos perder a visão de fazer música que comunica as verdades eternas ao povo de forma teologicamente sólida, memorável e impactante.

Patrick Dugan

© 2018 de Patrick Dugan – Usado com permissão

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