Hinários “Diferentes” – Rolando de Nassau

Hinários “Diferentes”
(Especial para “Hinologia Cristã”)

Nos últimos 48 anos, pelo menos três hinários procuraram ser diferentes dos tradicionais.

Desde a década de 70 no século 20, tem havido um movimento no seio das Denominações evangélicas nos EUA, no sentido de que os seus hinários adotem novos conceitos hinográficos.

Os EUA estavam numa época de crescente ecumenismo e comunhão; paradoxalmente, esse movimento suscitava controvérsias dentro das igrejas locais. O hino “Como agradecer a Jesus?”* (1971), de Andrae Crouch, de caráter ecumênico, apesar de alguma resistência, entrou na hinodia evangélica.

Em 1976, no prefácio do hinário não-denominacional, “Hymns for the Family of God”, o editor Fred Bock escreveu: “Desde o início, sabíamos que nós queríamos um hinário que não seria igual a qualquer outro”, isto é, que fosse diferente.

Em 2017, um adquirente interessado nessa característica escreveu no site da “Amazon”: “Este hinário estabeleceu o padrão para outros hinários não-denominacionais. Hinos que me são familiares têm palavras diferentes. Em alguns casos, uma linha completa do hino para mim será nova”.

Os perfis biográficos dos autores de hinos pertencentes a hinários “diferentes” têm motivado alguns adquirentes a saírem, como protesto, de suas igrejas.

As que adotaram hinários “diferentes” ficaram isoladas da comunidade cristã norte-americana.

Basta comparar os textos do hino “How Great Thou Art” (Grandioso és Tu!), no “Hymns for the Family of God” (1976) e no “The Baptist Hymnal” (1991), para ilustrar as novidades literárias em relação aos hinos tradicionais.

Em 1986, uma comissão preparou um novo hinário para uma grande igreja protestante dos EUA, que seria lançado em 1988 (ver: revista “TIME”, de 14 jul 86; OJB, de 27 dez 87).

Continha hinos que concebem Deus em termos de uma ideologia igualitária, que rejeita a hierarquia e a patriarquia.

A comissão resolveu eliminar do hino “O Beautiful for Spacious Skies” (Katharine Lee Bates, 1893), a estrofe “O beautiful for pilgrim feet, whose stern impassioned stress a thoroughfare for freedom beat across the wilderness” (Ó bela terra, para os pés peregrinos, cujo firme e fervoroso esforço trilha uma passagem para a liberdade através do deserto!), alegando que os nativos da América poderiam ofender-se com esses versos, que exaltam as façanhas do homem branco no longínquo Oeste. Esses versos, afirmou a comissão, são inadequados para uso no culto divino.

O hino “Mine eyes have seen the glory” (Meus olhos viram a glória), de Julia Ward Howe (1862), na opinião da comissão, era muito militarista para o sentimento pacífico da Igreja, o mesmo ocorrendo com o hino “Onward, Christian Soldiers!” (Avante, soldados cristãos!), de Sabine Baring-Gould (1864).

Além disso, a comissão pretendia eliminar a línguagem que pudesse ser considerada sexista.

O hino “God of Our Fathers” (Deus de nossos pais), de Daniel Crane Roberts (1876), seria intitulado “God of the Ages” (Deus de todas as épocas).

Também seriam eliminados versos de Harry Emerson Fosdick (1930): “Grant us wisdom, grant us courage, that we fail not man nor Thee” (Concede-nos sabedoria, concedenos coragem, de maneira que não falhemos, nem ao homem, nem a Ti!).

Apesar do “lobbying” feminista, a comissão conservou nomes masculinos tradicionais para designar a deidade, tais como “Lord” (Senhor) e “Father” (Pai).

Em deferência aos sentimentos raciais dos negros, o “Senhor” não mais lavará os pecadores, de modo que fiquem “whiter than snow” (mais alvos do que a neve), como diz o hino “Have Thine Own Way, Lord”, de Adelaide Addison Pollard (1902).

Refletindo as preocupações pela assistência social, seriam preferidas as frases poéticas que se referissem ao envolvimento da Igreja com os problemas deste mundo.

Entretanto, a comissão não alteraria as palavras do patriarca da hinodia do século 18; ainda não tinha decidido se o hinário conservaria a advertência contida no prefácio: “Cante os hinos exatamente como estão impressos, sem alterá-los ou emendá-los”.

O controvertido hinário tratava, entre outros, de temas ligados a preconceito racial, militarismo, discriminação sexual e ativismo social da Igreja.

Na revista norte-americana “Newsweek” (12 fev 1996), o editor Kenneth Woodward criticou um hinário denominacional por ter violado a integridade artística, ao reescrever textos de hinos tradicionais, que seriam introduzidos por uma “nova denominação” entre as igrejas protestantes, evangélicas e pentecostais, simplesmente para adotar opiniões contemporâneas.

Alguns hinários “diferentes” foram disseminados sem a aprovação oficial das denominações afetadas, e onde foram distribuídos ocorreram divisões locais.

Mulheres pastoras em algumas igrejas protestantes apoiaram a publicação de um hinário “diferente”. Alguns usuários deixaram suas igrejas e foram para as igrejas que adotam hinários “tradicionais”.

Para a elaboração desse hinário, em 1996, a comissão aplicou os seguintes critérios teológicos:

  • Pai é um caminho para encontrar Deus.
  • Os hinos missionários devem falar do desejo de servir, e não de conquistar.
  • Usar referência à Trindade somente quando é parte essencial do texto.
  • Evitar uso gratuito da palavra “Senhor”.
  • Quando falar da autoridade de Deus, procurar usar linguagem específica que não se refira a gênero.
  • Usar “Filho” somente para expressar a relação entre Deus e Jesus. Não usar gratuitamente palavra “Filho”.
  • Procurar imagens expressivas que tratam da luta contra o mal, mas com amor. Evitar linguagem coercitiva.
  • Usar linguagem que não seja chocante.

Nos três hinários aqui comentados, foram estimuladas controvérsias sobre palavras de hinos tradicionais, que foram substituídas. Em alguns hinários “diferentes” a palavra “Senhor” foi removida. As palavras “Ele” e “Seu”, em referência a Jesus, não foram escritas com a inicial maiúscula. As referências a

Deus como “Pai” estão no feminino, como “Mãe”.  Versões da “Oração do Senhor” são intituladas como “Oração do Nosso Salvador”.

Certos hinógrafos preferem aprofundar a questão do relacionamento entre as pessoas, os grupos e os povos.

Agostinho (354-430 d.C.) definiu o hino com estas palavras: “Hino é o louvor de Deus pelo canto. Hino é uma canção contendo o louvor de Deus. Se a canção contém louvor, mas não o louvor de Deus, ela não é um hino. Se contém louvor, e louvor a Deus, mas não é cantada, a canção não é um hino. Para que seja um hino, é necessário, portanto, que a canção seja um louvor dirigido a Deus através do canto” (ver: Obras de San Agustín. 3ª.ed. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1957).

Os hinos da Idade Média, que tiveram origem no Canto Ambrosiano (Milão) do século 4º. e no Canto Gregoriano (Roma) do século 6º., foram restringidos em sua execução pela Schola Cantorum.

O exclusivismo medieval foi corrigido pela Reforma Protestante do século 16º., graças à obra hinológica de Martin Luther (1483-1546), precedida pela de Jan Huss (1373-1415), que deu maior oportunidade ao canto congregacional, mas conservou a filosofia agostiniana a respeito da hinodia cristã.

Embora preferisse o canto de versões metrificadas dos salmos, Jean Calvin (1509-1564) manteve-se fiel àquela filosofia.

A hinologia dos séculos 18º. e 19º. continuou, parcialmente, cristocêntrica.

Mas ainda hoje permanece a tendência e a ameaça para excluir hinos desse caráter, trocando-os por “corinhos” sentimentais.

Um hinário não-denominacional, em 1976, deu o mau exemplo, que foi imitado, em 1986 e 1996, por dois hinários denominacionais.

O modismo hinódico pode até enveredar pelos caminhos tortuosos da ideologia. Foi-se, parece, o tempo em que a poesia religiosa concentrava-se no relacionamento entre o homem e seu Criador.

Rolando de Nassau.

© 2018 de Rolando de Nassau – Doc. HC-100
Usado com permissão

*Nota do Editor: “My Tribute” foi traduzido pelo maestro Waldenir Carvalho (Meu Tributo) e gravado na Coletânea “O Som Nosso de Cada Dia” – Volume 2 – Coral Jovem da AFE.

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