Criticando Kléber Lucas – Rolando de Nassau

CRITICANDO KLÉBER LUCAS
(Especial para quem quiser ouvir o sussurro da verdade)

Em 04 de dezembro de 2022, pelo “YOU TUBE”, Kléber Lucas (“Calo” = KL), numa entrevista, afirmou que o hino de Eden Reeder Latta (1839-1915), traduzido por Henry Maxwell Wright (1849- 1931), é racista. Comentei-a em duas publicações (Doc.135, “Hinologia Cristã”, e Doc. 83, “Nota Preliminar”), em 16 e 21 de dezembro.

Nos últimos 20 anos, KL tem sido um músico talentoso, competente e versátil. Tornou-se uma celebridade no cenário musical, brasileiro e norte-americano, quando compôs “Deus cuida de mim” (1991), “Ao pé da cruz” (2001), “Profeta da esperança” (2012) e “Pela fé” (2016).

Por isso, sua entrevista com Caetano Veloso teve enorme repercussão, inclusive nos ambientes protestante e evangélico (histórico).

Entretanto, a grande maioria dos possíveis leitores ainda não leu sua dissertação de mestrado (182 páginas) em História Comparada (UFRJ, 2021), intitulada “Alvo mais que a neve”.

Trata-se de trabalho acadêmico. Tendo em vista seu louvável esforço na comparação da ideologia batista com as ideias raciais no Brasil, resolvi escrever esta análise da dissertação do escritor Kléber Lucas.

Desde o princípio do século 21, aumentou, qualitativa e quantitativamente, o interesse pelos temas do Racismo e dos Direitos Humanos, em parte devido à globalização econômica e cultural. O debate desses temas tem sido feito sem objetividade, inclusive em nosso ambiente religioso.

Alguns debatedores consideram ofensivos os termos, como “racismo”, “discriminação racial”, “cotas para a participação de negros, pardos, africanos, asiáticos e indígenas” nas oportunidades de educação e trabalho. Eles ignoram ou desprezam os fatos que redundam em morte, fome ou desemprego dessas pessoas. Em 2021, 33 milhões de pessoas passaram fome no  Brasil; quantas pessoas brancas?

Com efeito, “racismo institucional” é a mentalidade adotada por uma parte da sociedade, que afeta, pelos seus sentimentos (e ressentimentos) separatistas, elitistas e discriminatórios, todas as pessoas. O problema é que a sociedade torna-se influenciável pela discriminação, mesmo nas agremiações religiosas. Nem a Guerra Civil (1861-1865), nem o movimento pelos direitos humanos (1995-2023) fizeram com que diminuísse a discriminação racial nos EUA.

Desde o início do século 19, pastores nativos e missionários estrangeiros adotavam ideias racistas e colonialistas. A bem da verdade, alguns conviviam com negros, tendo em vista seus objetivos religiosos.

Mas não tinham pejo em fazê-los cantar hinos e cânticos de teor ou tendência racista; imperava neles o perfil da dominação; queriam que o branco procurasse ser “mais branco”, e o negro pensasse ser “branco”

Tudo se resumia na ideia, prevalecente no século 19, de que “o povo eleito” deveria ser “embranquecido”.

A Constituição de 1988 (Artigo 1º.) indicou o princípio da República, “a dignidade da pessoa humana”, e o objetivo, “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”; o racismo deverá ser repudiado por todos os cidadãos.

Muitos crentes pregam que devemos respeitar as autoridades constituídas; ora, essas autoridades foram convocadas para obedecer a Constituição.

É muito provável que Wright tenha conhecido a edição de 1913 do “The World Evangel”, de Robert H. Coleman, no qual figurou, sob o no. 345, o hino “Whiter than Snow” (mais branco que a neve).

Wright preferiu a letra de Latta, mas conservou a expressão discriminatória de James Nicholson (1828-1876). Nem KL, nem os atuais leitores do hino, sabiam objetivamente algo a respeito da expressão inequívoca e aparentemente ingênua usada por Nicholson. Atenção: o hino em tela é um dos muitos capítulos da dissertação de KL.

A passagem bíblica citada efetivamente não questiona o seu significado; o leitor negro sabe (ou deveria saber): ele é secularmente discriminado.

A primeira crítica: KL revelou sua ignorância da Hinodia, da Biografia e da Hinografia de Salomão Luiz Ginsburg, embora tenha logo percebido que o fundamentalismo de Richmond impregnava o “Cantor Cristão”. Alguns leitores disso não se dão conta, por ingenuidade ou estreiteza de espírito.

Na dissertação, KL aproxima Ginsburg de Lutero; impropriamente, porque Ginsburg só traduziu hinos ingleses e norte-americanos; o “judeu errante”, polonês, viveu na Alemanha de 1873 a 1882; os poloneses, especialmente os judeus, eram discriminados na Rússia e na Alemanha, países vizinhos, ao norte e ao sul da Polônia; em 1882, com 15 anos de idade, saiu da Alemanha e preferiu emigrar para a Inglaterra, não conhecendo o hino de Lutero “Eine feste Burg ist unser Gott” (Castelo forte é nosso Deus), traduzido em 1886 por Jacob Eduardo Von Hafe e incluído no hinário “Salmos e Hinos”; durante 28 anos (1886-1914) não houve da parte de Ginsburg interesse por esse hino; em 03 de setembro de 1914¸ Salomão determinou a publicação da letra em “O Jornal Batista”, no início da Primeira Guerra Mundial, quando a propaganda política disseminava a ideia da pureza racial; novamente foi publicada, em 26 de abril de 1917, antes de ser incluída no “Cantor Cristão”; em 1917, SLG afastou-se da Comissão do Hinário; em 1918 não participou da 15ª. edição, preparada por Entzminger; este não era alemão, mas apreciava o referido hino; provavelmente a letra do hino foi incorporada ao “Cantor Cristão” (ver: O JORNAL BATISTA, 20 abril 2008; Rolando de Nassau, Doc.JB-215, O JORNAL BATISTA, p. 2, 26 julho 81). SLG não seguiu o exemplo de Lutero (ver: Doc.HC-146, “Lutero, hinólogo e hinógrafo”, 29 abril 2023)

KL em 2021 interessou-se pela Hinologia, particularmente o  CC, mas deu à pesquisa um enfoque ideológico.

KL teve alguma dificuldade para encontrar um lugar para a Teologia e a Missiologia, tornando-as prolixas, dispersivas e desorganizadas. Na opinião do crítico literário Frank Lucas (1894-1967), “o escritor deve evitar detalhes irrelevantes”; isto observamos nas ilustrações: são focalizadas pessoas e instituições pouco relacionadas com o tema da dissertação; Kléber Lucas chegou a conjecturar sobre o comparecimento de Jesus perante um tribunal; admitiu a versão de que Jesus era um líder político, que procurava alcançar as massas e as elites; encheu o texto com muitas matérias.

Os leitores não querem falar ou escrever sobre Racismo, muito menos no recesso das igrejas e dos seminários. Quanto aos missionários, eles previram que o Brasil seria tomado pelos imigrantes no final do século 19; não queriam negros e pardos da África, ou indígenas de qualquer parte da América do Sul.

A hipocrisia acaba fortalecendo a ideia e a tradição racista; a omissão prefere não ouvir a voz dos críticos; acham que os contrários ao Racismo são liberais na Teologia e na Missiologia; a “sã doutrina” cultivada por leigos talvez seja mero “preceito de homens” (Mateus 15: 9).

A segunda crítica: KL revelou também seu erro na interpretação dos ensinos de Jesus; enfatiza o fenômeno racial e político, concluindo que o hino prometia a quem aceitasse Jesus: ficaria “branco como a neve”; é verdade que Nicholson usou as palavras “I shall be” (eu serei).

Assim como na Hinodia anglo-americana encontramos hinos racistas, também temos manifestações imperialistas.

Em sua infância na Polônia SLG foi doutrinado em conformidade com o Velho Testamento; assimilou a interpretação judaica segundo a qual o povo de Israel deveria estar acima de todos os outros povos; isso explica o militarismo dos líderes judeus.

KL foi atraído pela mensagem discriminatória do hino. Alguns debatedores não têm conhecimento a respeito do problema da escravatura nos EUA, e não têm interesse pelos estudos hinológicos e históricos.

Em 1995, o seminário batista do Sul dos EUA, num documento apologético, revelou que durante muitas décadas a Convenção aceitou a escravatura, a segregação e o linchamento de negros, africanos e afrodescendentes, e apoiou a ideologia supremacista dos brancos.

KL acertou quando vislumbrou a necessidade de debater a formação dos hinários batistas (CC, HCC e outros), agora manchada pela miopia de certos leitores e cantores. O preconceito racial existe nesses hinários, mas, por causa da ideologia nutrida, eles reagiram à entrevista que viram e à dissertação que não leram; não quiseram ouvir a livre opinião de KL.

A terceira crítica: KL tratou um assunto hinológico com a preocupação de difundir sua própria ideologia.

KL não pesquisou a biografia de Latta: não deu importância ao fato de que o autor da letra era, ao mesmo tempo, escravocrata e latifundiário; seu editor Ira David Sankey lembrou-se da participação de Latta na Guerra Civil, provavelmente do lado escravagista.

A quarta crítica: KL deveria ter pesquisado, o mais profundamente possível, a obra do hinógrafo Latta; seu hino mais conhecido referia-se à condição do pecador, não à pele do cantor. Não foi advertido de que a palavra “alva” era alusiva à veste talar (o crente deve cobrir-se como quem se cobre de neve), desse modo criticando o pregador que não expurgava o cultuante negro.

A missionária Joan Larie Sutton ofereceu uma nova redação para o estribilho (à qual KL não conferiu a devida importância): “pois, em Seu sangue lavados, nós temos perdão do Senhor”.

Alguns admiradores reclamaram da minha recordação: KL usou  a indigitada expressão, que agora ele estava censurando; deveriam ter consultado o “Google” para conhecer a discografia de KL.

Muitos internautas contrariados com a entrevista sentiram dores nos calcanhares: era o efeito do “Calo” (KL).

Brasília, DF, em 27 de junho de 2023.

Rolando de Nassau.

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