Betty Antunes de Oliveira

Biografia

Betty Antunes de Oliveira: pesquisadora do início da história dos batistas no Brasil [1]

Introdução

Betty Antunes de Oliveira

Betty Antunes de Oliveira, a única personagem que ainda vivia quando publiquei meu livro “Vozes femininas no início do protestantismo brasileiro”, nos deixou no dia 11 de outubro de 2016 e foi se encontrar com seu Pai Amado e, agora desfruta de um resplendor maravilhoso.

Quando aguardava a publicação do livro, que foi sendo postergada, orei muito para que Deus conservasse com vida D. Betty e para que ela pudesse ter a alegria, como escritora de livros e biografias, de ler também um pouco de sua história em um livro sobre as mulheres evangélicas.

Ela foi e continuará sendo uma grande inspiração para mim: o fato de não desanimar diante dos preconceitos e ditames da denominação; o fato de ser humilde e simples; o fato de ser competente como historiadora; o fato de ser uma musicista talentosa; e ainda mais, o fato de ter sido uma esposa amorosa e uma mãe dedicada são motivos mais do que suficientes para que eu me espelhe nela e busque a coragem, determinação e amor a Cristo que tanto ela demonstrou em vida.

Segue seu resumo biográfico, que faz parte do capítulo 9 do livro citado acima.

Minha mãe é de fato uma pessoa linda por fora e ainda mais por dentro. Tem um semblante de paz e agradecimento, apesar de ter sofrido momentos dolorosos e difíceis lá em Manaus onde passou cinqüenta anos trabalhando para o Senhor em situações demais precárias. Como era concebido antigamente, a esposa de pastor tem que trabalhar muito em casa e na igreja, porque é uma esposa de pastor. Sem ganho financeiro, é claro! Papai sempre dizia: “sem o meu Bem (era como eles se tratavam) eu não sou o que sou”. O semblante dela até hoje e seu modo de ser não nos deixa perceber o quanto ela sofreu naquele lugar, que naquele tempo era considerado “fim-de-mundo”. Ir para aquele rincão era considerado loucura. (Betty Antunes de Oliveira – filha) [2]

Betty Pitrowsky nasceu em 13 de maio de 1919, no Rio de Janeiro. Filha primogênita do pastor Ricardo Pitrowsky, de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul e de Eugenia (Thomas) Pitrowsky, de Santa Bárbara do Oeste, em São Paulo. Betty é bisneta do pastor Robert Porter, um dos membros fundadores da Primeira Igreja Batista no Brasil, organizada em 10 de setembro de 1871, em Santa Bárbara do Oeste.

Quando Ricardo Pitrowsky, pai de Betty, sentindo-se vocacionado para o ministério pastoral, foi pedir ao pai dele que o deixasse ir para o Seminário Batista no Rio de Janeiro, ouviu como resposta: “Meu filho, você é agora o único filho varão que pode fazer o trabalho pesado da roça e eu já estou ficando velho. Não posso deixar você ir”.[3]

E o rapaz permaneceu mais um tempo dedicando-se à agricultura para ajudar sua família e conseguir meios para sua viagem ao Rio de Janeiro. Sua biografia, escrita por sua filha Betty, foi intitulada “Do arado ao cajado”, por que como ele próprio afirmou: “Deus chamou-me de detrás do arado (…).[4] Com grande alegria tenho procurado cumprir a Sua vontade”.

Pr. Ricardo Pitrowsky foi pastor da Igreja Batista de Engenho de Dentro no Rio de Janeiro por mais de trinta e oito anos e foi musicista a vida toda, tendo traduzido e adaptado músicas para o Cantor Cristão e feito parte da equipe que preparou a primeira edição com música.

Com ambos os pais músicos, a mãe Eugênia era pianista, foi natural o talento musical da primogênita. Aos sete anos de idade, iniciou seus estudos em letras e música, e aos treze tornou-se aluna da Escola Nacional de Música, da Universidade do Brasil, formando-se em 1936 no curso superior de piano e matérias correlatas.

Betty foi batizada aos onze anos de idade e participou das organizações de crianças, moças, senhoras e jovens na sua Igreja. Ainda na sua adolescência, foi corista do coro de vozes femininas, dirigido por Aline Muirhead, e pianista do coro infantil.

Betty (Pitrowsky) Antunes de Oliveira: esposa, mãe e administradora do lar

Betty e Albérico noivos

Betty ficou noiva do seminarista Albérico Nunes de Oliveira, membro de sua igreja, em novembro de 1936. O jovem era natural da Bahia, filho de Segifredo e Júlia Antunes de Oliveira.

Para ela e seus pais, o que chamava a atenção no rapaz moreno de grandes olhos negros, era o fato de ser um membro da igreja, comprometido com seu trabalho, e vocacionado ao ministério pastoral.

Aquele casamento rompeu barreiras de duas tradições bem enraizadas: uma na cultura imigrante que não desejava o casamento dos filhos com brasileiros, [5] e o noivo de Betty era um autêntico brasileiro, fruto da mistura de raças; e a outra, na cultura brasileira, cuja mentalidade à época era de que a mulher devia sempre submeter-se à programação do marido.

O jovem Albérico aceitou a decisão de Betty de só se casar após terminar seu curso de Bacharel em Ciências e Artes da Educação, que incluía o curso de obreira do Colégio Batista do Rio de Janeiro e foi sozinho, em 1937, pastorear a Primeira Igreja Batista de Manaus, que o havia convidado para seu ministro.

Albérico e Betty casaram-se em janeiro de 1938 e, em fevereiro o casal partiu para Manaus no navio Almirante Jaceguay, em uma viagem de trinta e um dias.

Sobre esse período, ela relatou que:

Meu namoro? Sim, houve, e era na casa de meus pais, na sala de visitas, nas quintas-feiras, depois das aulas. Se houvesse reunião à noite na igreja, o namoro restante da semana estava anulado. Na igreja, nada de namoro, nem sentar juntos! Ficamos noivos em novembro de 1936. O noivo? Ele era Albérico Antunes de Oliveira. Em 1937, ele assumiu o pastorado da Primeira Igreja Batista de Manaus. No meu arquivo tenho as inúmeras cartas trocadas durante o noivado. Cada carta levava mais de 35 dias para chegar ao destino! Ao Rio ele retornou para o nosso casamento em janeiro de 1938. Juntos participamos da Convenção Batista Brasileira, realizada no “Edifício Love”, do Colégio Batista do Rio de Janeiro, na Tijuca. Assim, o meu esposo, o “Meu Bem” e eu, que era agora o “Meu Bem” dele, recém-casados, passamos a “lua de mel” viajando de navio, do Rio de Janeiro para Manaus, durante 31 dias! Que maravilha! [6]

A maravilha do início do casamento deu lugar a uma dura realidade. Betty relatou que os anos de 1939 a 1941 foram bem pesados para o casal Antunes de Oliveira que, tão jovem, iniciava sua vida conjugal e ministério pastoral. O momento mundial também estava conturbado, devido à 2ª Guerra Mundial (1939-1945).

 No primeiro ano de casados, nasceu-lhes a primeira filha Nancy. Em 1940, Betty foi para o Rio de Janeiro, onde nasceu sua segunda filha Betty em 04 de junho. O esposo estava em tratamento de saúde, devido à tuberculose. Mas, retornou à Manaus, antes de restabelecido, para cuidar de assuntos da igreja.

No final de 1940, Betty retornou sozinha para Manaus com duas filhas pequenas, Nancy com dois aninhos e Betty com apenas seis meses. Em 1942, teve malária por duas vezes, estando grávida do terceiro filho. Com a ajuda de medicamento usado por norte-americanos, que estavam em Manaus extraindo borracha para a guerra, ela escapou de morrer junto com o filho que esperava, que recebeu o nome de Nélson Ajuricaba.[7]

Em abril de 1944, nasceu a quarta filha Junia. Em setembro de 1945, aconteceu um terrível incêndio em torno da igreja, cujo templo serviu de amparo para os desabrigados. Pr. Antunes, assumindo o papel de bombeiro, sofreu intoxicação ao ficar preso sob a parede de uma casa de madeira e foi hospitalizado. Betty perdeu a criança que gerava, sendo também hospitalizada e quase morrendo. Mas, o Senhor preservou-lhes a vida, pois muito tinha ainda a realizar em sua obra.

Em 1946, nasceu a quinta filha, Gláucia e, em 1954, depois de muitas orações, chegou o tão esperado caçula Lincoln. A família ficou completa com os seis filhos: quatro meninas e dois meninos: Nancy, Betty, Nelson, Júnia, Gláucia e Lincoln.

Betty precisava, portanto, administrar seu tempo diário com o ministério, esposo, casa, filhos e ainda com a confecção das próprias roupas. Ela criou os filhos dando responsabilidades a todos, em sua casa não havia “tarefas de mulher” e “tarefas de homem”:

Minha mãe é perspicaz. Tem sagacidade e enxerga bem. É o dom da profecia. Tem a mente de um matemático e consegue resolver um problema de várias formas chegando a um mesmo resultado. Ela testa a operação. Fazia a escala de serviços para todos os da casa, sem haver desencontros de funções e horários. Colocava à vista de todos o “Quadro da Semana”.  [8]

A concepção de igualdade, perante Deus, do casal não se referia somente às tarefas dos filhos em casa, mas a todas que tivessem que executar, inclusive na igreja. E essa igualdade não era somente de gênero, mas racial, social e até mesmo de idade: “Aprendíamos que qualquer tipo de discriminação é abominável e não condiz com o princípio de igualdade de todos perante Deus”. [9]

O pastor Albérico Antunes de Oliveira, na liderança da Igreja Batista de Constantinópolis, dava o exemplo dessa concepção, escalando obreiros leigos para a pregação e entregando a direção da igreja a uma mulher, fato inédito e estranho aos arraiais batistas daquele tempo e até mesmo de hoje. Segue seu depoimento sobre aquela igreja, considerada “diferente” pelas demais:

Desde o início de nossa vida cristã entendemos que uma Igreja com o seu pastor deveria se guiar por um sistema de liderança. Assim é que desde o tempo quando a congregação funcionou, estabelecemos esse sistema entregando as responsabilidades a um e outro para se treinarem. Durante os 25 anos da Igreja, temos mantido essa forma, ainda que não bem compreendidos por alguns. Isto, porém, não nos fez esmorecidos. Foi-nos necessário muito esforço para prosseguir nessa linha. Os resultados positivos são inúmeros. Temos, inclusive, cerca de 10% dos membros da Igreja que podem pregar, podem dirigir os trabalhos administrativos; naturalmente, tendo sempre, a orientação do pastor, nas suas vigas mestras.

Houve ocasião quando uma jovem, Srta. Maria Júlia Mitouso de Melo, ficou como vice-moderadora da Igreja, durante a ausência do pastor. Não fosse o sistema usado, ela não poderia arcar com essa responsabilidade. Tudo funciona, mesmo o Pastor estando presente, sendo que, por vezes, ele permite que a própria sessão da Igreja seja dirigida pelo 1º Vice-Moderador. Só a Ceia e o Batismo são ministrados pelo pastor. As sessões da Igreja têm-se realizado sempre, em 1ª Convocação, com número legal, excetuando-se uma única vez. Por certo que há alguns inconvenientes nesse sistema desde que não haja a devida supervisão ministerial, ou mesmo com ela. As vantagens, porém, são grandes. Há compensação farta.

Dentro dessa forma, temos, também ensinado e praticado os princípios democráticos, de modo que dentro da equipe há liberdade para discordar, se preciso, do próprio pastor. Assim, estimulamos a coragem para pensar e ensinamos como saber perder. Não temos tido problemas com “grupelhos”, exatamente pela prática desses postulados.[10]

Betty incentivou seus filhos a participarem, dentro das possibilidades, de todas as atividades da igreja. Quando passavam para a Sociedade de Juniores, já aprendendo a ler e escrever na escola, queriam aprender também a fazer atas e balanços da tesouraria. Na União Intermediária, da qual participavam as crianças de mais de doze anos, passavam a exercer outras atividades, dirigindo cultos e preparando sermões a partir de uma passagem bíblica.

Betty Antunes de Oliveira: suas atividades dentro e fora da igreja

Na década de 1930, a Primeira Igreja Batista de Manaus abriu um ponto de pregação no bairro de Educandos, onde residia D. Umbelina da Mota Vale e sua família, membros daquela igreja. O casal de missionários, Eurico e Ida Nelson, cooperou durante algum tempo com aquele trabalho.

Ida Nelson adquiriu um terreno de 30 x 30 metros, à beira da estrada principal, com o fito de que o mesmo pertencesse à Igreja que naquele bairro se organizasse. O dito terreno foi registrado em nome da Associação Denominada Batista do Rio de Janeiro, com essa condição.

O Ponto de Pregação funcionou (em casa da irmã Umbelina da Mota Vale, professora leiga, querida e respeitada no bairro), com os seus altos e baixos, como só acontece em trabalhos dessa natureza. Houve ocasiões quando deixou de funcionar. Foi nessas condições que o encontramos, em fevereiro de 1937, quando assumimos o pastorado da Primeira Igreja, desta cidade.[11]

Em 03 de setembro de 1940, quando Betty estava no Rio de Janeiro, foi organizada a Igreja Batista de Constantinópolis, com vinte e quatro membros com cartas de transferências da Primeira Igreja Batista de Manaus. Seu primeiro pastor foi Albérico Antunes de Oliveira. A igreja recebeu esse nome porque se encontrava à margem da Estrada de Constantinópolis, hoje, Av. Leopoldo Peres.

Foram tempos muito difíceis os do início daquela igreja. Era época da 2ª Guerra Mundial, a situação financeira era crítica e o pastor adoeceu. O bairro estava desprovido de qualquer saneamento e assistência governamental; não havia água encanada, nem luz, nem estradas ou ruas traçadas. O povo ia chegando e construindo suas barracas sem qualquer orientação do ponto de vista higiênico; faltava arborização, havendo apenas capoeira por todo o canto; faltava calçamento e assim ladeiras primavam por covões e buracos e não havia transporte coletivo. Os animais andavam soltos; havia muita poeira, doença, pobreza e desemprego. Os operários ou trabalhadores recebiam baixos salários.

Mas, Deus proveu, recuperando a saúde do pastor e lhe provendo com uma esposa, considerada por ele a responsável pela concretização de todas as suas realizações, com seu trabalho organizado, eficiente, constante e sem alarde.

Betty sempre creu que a mensagem de Cristo não é uma coisa de igreja, mas é uma direção de vida. Portanto, seu trabalho como esposa de pastor igreja não era limitado a falar da mensagem de Cristo, mas também a vivê-la em todas as suas atividades.

Ela deu testemunho de que vivia a mensagem da Palavra de Deus, quando em culto público na Praça da Saudade, no centro de Manaus, surgiu um grupo de pessoas com pedras e paus nas mãos agredindo os crentes ali reunidos.

No dia do apedrejamento, estava ao órgão tocando e cantando: “Paz, paz, paz! Em paz eu vou andando…” Mas, seus olhos estavam controlando seus filhos e dizia, no meio do canto: “Fiquem juntos a mim! Cantem, cantem, e fiquem encostados uns nos outros!” Suas palavras estavam cheias de sabedoria! O Espírito Santo estava ministrando sobre ela, uma unção de sabedoria. Seu rosto estava resplandecente. Eu a amei mais naquele momento de caos e até os dias de hoje, quando revejo esta cena o Senhor acrescenta algo mais a mim. O sábio se deixa atravessar pela Luz. [12]

A congregação em Educandos e, posteriomente, Igreja Batista de Constantinópolis, foi seu maior desafio. Dentro do templo, dedicava-se às reuniões com as mulheres, os homens, os jovens, as crianças, para orientar a vida cotidiana, desde o aperfeiçoamento da vida espiritual até as questões de saúde, alimentação, planejamento familiar, relacionamento pessoal e orientação sexual.

Fora do templo, fazia visitas aos lares, orientando as donas de casa. Nessa época, grande parte das moradias era de chão batido e paredes de palha. Nessas visitas, ela instruía:

– Como limpar chão batido de terra sem fazer poeira;

– Como aproveitar o girimum (abóbora) que nascia pelas ruas ainda sem pavimento e quintais sem cerca e era dado aos porcos, que eram criados soltos nas ruas;

– Como tirar o “bicho-de-pé”[13] sem deixar infeccionar e poder colocar o tamanco ou chinelo feito com pneu velho de carro, que eram os calçados possíveis para a maioria das pessoas naquele tempo;

– Como tirar lêndeas e piolhos dos cabelos e mantê-los sem eles;

– Como construir os móveis com caixotes de madeira encontrados em terrenos baldios ou nos lixos;

– Como usar jornal para cobrir, com arte, latinhas que serviam de vasos de plantas para embelezar o ambiente caseiro. [14]

Atuando dessa maneira no dia-a-dia das pessoas, Betty as ensinava a fazer as coisas e a resolver os problemas a partir daquilo que tinham em mãos. E, sabiamente, relacionava esses ensinamentos com o exercício e o aperfeiçoamento da fé.

A dedicada esposa do Pr. Antunes também ensinou as primeiras letras, pois a maioria das pessoas era analfabeta. Ela orientava os membros da igreja, dos diversos departamentos, a fazer atas e balancetes financeiros e incutia neles a responsabilidade com a história da igreja, pois aqueles papéis eram entendidos como documentos históricos.

Outra atuação de Betty foi no cuidado de crianças enfermas:

Não consigo contar o número de crianças desenganadas pelos médicos, mas salvas por “dona Betty”, tanto aquelas dali da igreja, quanto aquelas da vizinhança de nossa casa. Por muitas vezes ela as levava para casa e lá tratava delas com o que se tinha naquele tempo. Eu aprendi a ser sua auxiliar. Lembro-me que uma das crianças, infelizmente, não conseguiu sobreviver ao estado terrível de desnutrição. Encontrava-se em estado lamentável, minúscula, pura pele e osso. Chamava-se Etelvina. Já arfava ao chegar lá em casa. Fizemos de tudo, mas já era tarde demais. Lembro-me que eu fiquei ao seu lado até que seu coraçãozinho parou de bater. Até hoje me dói muito quando aquele quadro me vem à mente. Sofremos muito com sua partida. Nunca esqueci a Etelvina. Só me conformei porque mamãe nos consolou dizendo: “Agora ela está com Jesus”.  [15]

Betty pode ajudar aquela pequena igreja com seu conhecimento musical. Ensinava música sacra e cânticos, formava quartetos, ensinava piano e organizava cultos de Natal, com peças teatrais e corais. Ensinou também manuseio de fantoches e teatrinho de sombras.

Em visita a Manaus, em 1945, Walter Kaschel, que era o diretor do Departamento da Mocidade Batista, elogiou o desenvolvimento daquela igreja: “o casal Antunes de Oliveira está realizando ali uma obra abençoada. Refiro-me ao casal, pois as esposas de pastor ficam em geral esquecidas e anônimas, quando ao seu esforço se deve, tantas vezes, boa parte do êxito do marido”. [16]

Kaschel visitou a Igreja Batista de Constantinópolis, por ocasião da comemoração de seu 5º aniversário, e ficou encantado com a programação musical e com o trabalho de D. Betty:

Betty Antunes é uma exímia pianista e possuidora de excelente voz. Seu talento musical, reconhecido em toda Manaus, ela o tem dedicado ao serviço do Mestre. O coro da Igreja de Constantinópolis é para mim a revelação de quanto pode o esforço aliado à arte. A igreja iniciou o novo ano eclesiástico com uma grande campanha de evangelização, que inclui um programa de visitação a todas as casas do bairro, no qual está localizada uma sexta parte da população da cidade. A igreja coopera com um ambulatório, cujo enfermeiro é membro da igreja, e com uma escola primária. Esse trabalho social e educativo se reveste de maior significação quando se verificam as necessidades daquele bairro pobre, onde a ignorância, o vício e a doença fazem ronda constante a tantos lares infelizes. [17]

O resultado do esforço evangelístico e da dedicação da igreja, pode ser observado pelo visitante quando retornou no domingo seguinte:

A igreja estava novamente repleta, havendo muita gente a ouvir do lado de fora. O povo bebia com sofreguidão a água da vida e ao apelo responderam imediatamente 10 pessoas. Deus está abençoando o ministério do pastor Antunes de Oliveira em Educandos, que se tem dedicado com a sua companheira, de corpo e alma àquele povo.[18]

Além de seu ministério na igreja, Betty foi professora do Colégio Estadual do Amazonas e da Escola Técnica Federal do Amazonas, e coordenadora para assuntos culturais da Secretaria da Educação e Cultura do Amazonas.

Em 1950, por ocasião das comemorações dos cinqüenta anos de trabalho batista no Amazonas, formou um coro com membros de diversas igrejas e conseguiu que fosse cantada “Aleluia” de Handel, no Teatro Amazonas. Betty foi regente e pianista ao mesmo tempo. Provavelmente aquela foi a primeira vez que a música foi cantada naquele teatro.

Betty Antunes de Oliveira: sua formação musical e em outras áreas

Desejosa de aprender sempre mais Betty foi para o Rio de Janeiro estudar jornalismo na Universidade Federal, formando-se em 1962.

Desde criança dedicou-se à música, e trinta anos depois de sua formatura em piano, querendo aperfeiçoar-se na área musical, retornou à Escola de Música, para estudos de órgão, composição e regência, graduando-se em 1971, em Órgão, e em 1972, em Composição e Regência.

Betty Antunes em frente ao piano

O Dr. João Filson Soren, pastor da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro, foi seu incentivador e a convidou para ser uma das organistas da igreja, consentindo que utilizasse o órgão em seu treinamento.

Betty foi professora de piano e órgão, regente coral, organista e pianista recitalista. Também compôs música sacra e foi assessora da Seção de Música da Biblioteca Nacional. Em 1969, participou do grupo de organistas, por ocasião da inauguração do novo órgão Hammond da igreja.

Fora do âmbito evangélico, tocou em recitais de piano e órgão, como solista e ainda como organista da Associação de Canto Coral do Rio de Janeiro e Orquestra Sinfônica Brasileira.

Minha mãe é talentosa. Ela veio com talentos (dados pelo Pai), recebeu os dons (dados pelo Espírito Santo) e viveu os ministérios (dados pelo Filho). Aprendi sobre Chopin, Shubert, Mozart, Bach, ao ouvi-la tocando. Ser talentosa é ser hábil, engenhosa e inteligente. Ouvi-a contar e falar da vida dos heróis da fé, dos vultos da arte e dos simples que a inspiravam. (…) Conheci a arte da pintura a óleo, quando ela pintava discos antigos ou objetos de biblioteca que decoravam nossa casa. Lembro do assoalho que fizemos, com tábuas de refugo, da nossa sala de jantar. Calculou o tamanho, a forma e a quantidade de material e deu tudo certo; comemos rabanete, couve, figo e ovos de galinhas de raça. Produtos recolhidos de nosso quintal. Aprendi a semear, cuidar, zelar e colher. É um princípio da Palavra. [19]

À frase da filha Junnia: “Ela veio com talentos (dados pelo Pai), recebeu os dons (dados pelo Espírito Santo) e viveu os ministérios (dados pelo Filho),” pode-se acrescentar que herdou o DNA (gens musicais) de seus pais terrenos, ambos apaixonados pela música. O Pr. Ricardo Pitrowsky além de compor hinos para corais, para congregação, fazer arranjos e traduções, também compôs letras ou fez traduções de 23 hinos do Cantor Cristão, entre eles encontra-se um dos hinos preferidos pelos evangélicos: “Vencendo vem Jesus”.

 Sobre um dos hinos de seu pai, Betty relatou uma experiência interessante que viveu no Amazonas:

A propósito do hino nº 544, do Cantor Cristão, “Avante Mocidade”, registro um fato ocorrido comigo, na décade de 1970, em Manacapurú, estado do Amazonas. Meu esposo e eu viajamos até aquela pequena cidade, a fim de visitar a igreja. O dirigente da Escola Dominical pediu para ser cantado esse hino e disse: “sou neto do Pr. Tomaz de Aguiar e foi quem escreveu a letra deste hino”. Levantei-me e disse: “e eu sou filha do Pr. Ricardo Pitrowsky que foi quem escreveu a música para essa letra.” Todos cantaram o hino, acompanhados por mim, com o acordeon. Estávamos emocionados e gratos a Deus por aquele encontro! Os dois pastores não se conheceram e Ricardo Pitrowsky, quando fez a música, não imaginara que sua filha e genro iriam mais tarde para o Amazonas, campo de trabalho daquele pastor; e que o genro assumiria o pastorado na mesma igreja guiada por Thomaz de Aguiar. [20]

Como o pai, Betty também preparou várias adaptações de composições corais. O Coro Eclésia, da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro, apresentou, sob sua regência, o “Te Deum”, de Anton Bruckner, e também algumas de suas próprias composições, como o “Dize ao povo de Israel que Marche”, para as comemorações do centenário da igreja, em 1984.

Sua vida estudantil encoraja as mulheres, pois aos 43 anos se tornou bacharel em Jornalismo, aos 53 anos graduou-se em composição e regência e, aos 66 anos publicou seu livro “Centelha em restolho seco”.

Betty Antunes de Oliveira: suas pesquisas e obras

Tudo começou no decorrer da década de 1960, com o interesse de Betty pela história de seu bisavô Roberto Porter Thomas, que batizou Antonio Teixeira de Albuquerque, ex-padre, o primeiro pastor batista brasileiro.

Durante dezoito anos, ela recolheu material sobre a trajetória de seus antepassados. À medida que pesquisava entendeu que o conteúdo que tinha em mãos ultrapassava a genealogia de sua família e compreendia a história do início de uma denominação evangélica no Brasil.

Provavelmente, foi nesse período que conheceu e trocou textos com a também pesquisadora e musicista Henriqueta Rosa Fernandes Braga, como testa o bilhete de Betty à professora na imagem a seguir.[21]

 A pesquisadora incansável passou sete anos, entre 1978 e 1985, escrevendo o livro “Centelha em restolho seco”, na árdua tarefa de pesquisa do início da história dos batistas no Brasil. Como fruto dessa pesquisa, outros livros nasceram: “Movimento de passageiros norte-americanos no porto do Rio de Janeiro de 1860 a 1890” (1981), “Antônio Teixeira de Albuquerque, o primeiro pastor batista brasileiro” (1982), “North american imigration to Brazil. Tombstone reconds of the campo cemetery, Santa Bárbara, SP (1978) e “Do arado ao cajado” (biografia do pastor Ricardo Pitrowsky, em comemoração), 1991 (inédito).

Betty é autora de muitos impressos relativos ao trabalho na área de imigração norte-americana e pomerana (alemã) para Santa Bárbara do Oeste e Rio Grande do Sul respectivamente, genealogia e história de famílias, organização biográfica e coleta de dados.

Seu trabalho foi reconhecido pelo Colégio Brasileiro de Genealogia do Rio de Janeiro e pela Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia de São Paulo, instituições essas que lhe outorgaram o título de Membro Titular.

Na Academia Evangélica de Letras do Brasil, tomou posse no dia 26 de junho de 1992, na Igreja Batista de Itacuruçá, como 2ª ocupante da cadeira nº 37, que tem como patrono José dos Reis Pereira.

Falecimento do esposo: Pr. Antunes morreu orando

Em janeiro de 1988, o casal Antunes de Oliveira completou suas Bodas de Ouro. O Pr. Antunes estava diferente, esquecido e pensativo, sem conversar muito.

Em 11 de julho, ele acordou bem cedinho e ajoelhou-se para orar, na varanda do quarto, como era seu costume. Betty o chamou para o café, mas ele não respondeu. Ela o encontrou de bruços no chão, com semblante sereno. O seu esposo acabara de partir para eternidade, aos 76 anos de idade.

No dia seguinte foi sepultado no mesmo túmulo do missionário Eurico Alfredo Nelson, falecido também com 76 anos de idade, em 1939, quando o “Meu Bem” era pastor daquela Igreja. Ambos ultrapassaram o jubileu do trabalho naquele campo. A pequena e pobre embarcação “Galiléa” serviu a ambos nas viagens difíceis pelos rios do Amazonas. Enfrentaram mosquitos, mucuíns, mutucas, fome, exaustão, temporais ou sol escaldante. Viram noites tremendamente belas com o céu pintadinho de milhões de estrelas refletidas no “espelho” das águas dos rios amazônicos. Contemplaram o belíssimo nascer dourado e o pôr do sol colorido! Visitaram aquelas igrejas pequenas e seus pastores heróis, que semearam a Palavra de Deus. Sementes foram lançadas em boa terra! “Aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará sem dúvida com alegria, trazendo consigo os seus molhos”. (Salmo126.6).[22]

Betty sente saudades do moço moreno, de olhos grandes e negros, cheio de vida e ideais, que foi o seu esposo amado durante cinquenta anos.

Betty Antunes de Oliveira e o marco inicial dos batistas brasileiros [23]

Para Betty os fatos históricos sobre o início do trabalho batista no Brasil precisavam ser conhecidos e analisados, em sua cronologia e sua significância dentro das circunstâncias contextuais, para que a História da denominação fosse escrita da forma mais próxima possível do processo histórico transcorrido.

Em 1964, enquanto Betty pesquisava sobre esse início, o editor do jornal oficial dos batistas da Convenção Batista Brasileira, o Jornal Batista, José dos Reis Pereira, publicou no periódico que seria comemorado o primeiro centenário dos batistas brasileiros em 1982, tendo por referencial a organização da Igreja Batista da Bahia, pelos missionários Bagby e Taylor.

A decisão de Reis Pereira, e não proposta, de comemoração do centenário dos batistas em 1882, levantou vozes contrárias de outros historiadores, em defesa do marco inicial de 10 de setembro de 1871, como de Ebenezer Cavalcanti que, em 1967, declarou que considerava o não reconhecimento da Igreja de Santa Bárbara como marco inicial como um dos piores equívocos históricos:

Os quatro missionários pioneiros pertenceram à Igreja Batista de Santa Bárbara, que fora organizada em 10-9-1871, na província de S. Paulo, efetivamente a primeira do Brasil, se adotarmos o critério denominacional e não o frágil critério puramente nacional. A ela não pertencera Antonio Teixeira de Albuquerque, e sim à segunda Igreja Batista no Brasil, conhecida como a Igreja da Station, ou melhor: “… o Teixeira foi membro da igreja da Estação de Sta. Bárbara” também em S. Paulo, como consta da retificação da primeira ata (sessão de 10-5-1883). Aquela segunda igreja fora organizada em janeiro de 1879. Aquelas igrejas merecerão, oportunamente, um estudo à parte, inclusive para que se desfaça um dos nossos piores equívocos históricos. [24]

Na 50ª Assembléia da Convenção Batista Brasileira, no dia 30 de janeiro de 1968, Reis Pereira apresentou o parecer da Comissão de Assuntos Eventuais. Entre dezoito assuntos, estava a oficialização da data do início do trabalho batista no Brasil, em 15 de outubro de 1882, com a organização da Primeira Igreja Batista da Bahia. Aprovada a proposta, o dia 15 de outubro foi considerado o dia Batista do Brasil.

Com o argumento de que a igreja fundada em Santa Bárbara pelos colonos norte-americanos era uma igreja de língua inglesa e destinada a servir exclusivamente aos colonos, não visando à evangelização dos brasileiros, a proposta aprovada em 1968, foi ratificada na convenção de 1969.

Para refutar a idéia de que a Igreja em Santa Bárbara não estava interessada na evangelização dos brasileiros e para dar maiores informações sobre o batismo do primeiro batista brasileiro, o ex-padre Antônio Teixeira de Albuquerque, Betty prosseguiu em suas pesquisas.

Em 1971, data em que deveria ter sido comemorado o centenário do trabalho batista no Brasil, Ebenézer Cavalcanti, baseado em diversas fontes de pesquisas, entre as quais da própria Betty, escreveu um artigo no Jornal Batista afirmando que não compreendia o desprezo dos batistas por sua própria História e questionava: “Afinal, que igreja brasileira foi essa, a de 1882, constituída por quatro norte-americanos e um brasileiro? Quem pode argumentar, validamente, à luz do Novo Testamento, que uma igreja batista, de qualquer nacionalidade, não é uma igreja batista missionária? [25]

Em um corajoso desabafo, o historiador afirmou que no dia 10 de setembro de 1971 dobraria seus joelhos agradecendo a Deus um século de mensagem batista no Brasil, uma história que nunca fora pesquisada sob critério científico. Declarou também que: “quando morrerem todos os patriotas nacionalistas, brasileiros e norte-americanos, se eu sobreviver a eles, proporei à Convenção Batista Brasileira que retifique o lamentável equívoco de apagar mais de dez anos da História Batista no Brasil”.

Ebenézer Cavalcanti, porém, não sobreviveu a eles, foi o primeiro a partir, falecendo em 01 de junho de 1979.

A questão levantada por Betty encontrou apoio e outros artigos apareceriam nos dez anos antecedentes à comemoração do centenário. O pequeno grupo oferecia ameaça a uma decisão já tomada e a todos os planejamentos para as comemorações, portanto, surgiram reações.

Reis Pereira apresentou as razões para a decisão da convenção e destacou que foi concedido um ano de prazo para objeções, como essas não apareceram, toda a tentativa de contestação posterior foi combatida.

Na assembléia da Convenção Batista Brasileira, em Goiânia, em 1980, Betty fez uma proposta com mais de vinte e seis mensageiros para que se enviasse uma carta à Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos agradecendo a instalação de sua Missão no Brasil em Santa Bárbara d’Oeste, em 1879, junto à proposta estavam relatórios, pareceres e atas da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, relatando o processo de implantação da missão, conforme segue:

A Primeira Igreja Batista no Brasil, perto de Santa Bárbara, na província de S. Paulo, é já uma organização de sustento próprio, sob o pastorado do Rev. E. H. Quillin, e tem expressado um fervente desejo para ser reconhecida por nossa Missão, com o propósito de prosseguir o trabalho missionário, nas redondezas, entre os emigrados dos Estados Unidos e os nativos brasileiros. A igreja referida está, no momento, com 40 membros que expressam estar em prosperidade e em condições de ajudar a Junta. (…) O trabalho inicial no Brasil já está efetuado, e nós estamos sendo, simplesmente convidados, muito insistentemente, para ocupar o campo.

De acordo com a recomendação de nossa Junta, a Convenção Batista do Sul, na sua última assembléia manifestou a esperança de que “a Junta poderia abrir o trabalho no Brasil tão logo isto fosse possível”. A Missão foi estabelecida em Santa Bárbara, na Província de S. Paulo, (…) sob a responsabilidade do irmão E. H. Quillin (…) [26]

A resposta ao pedido deixou claro que não haveria margem para qualquer contestação: “Considerando que a Convenção Batista Brasileira já deliberou, oportunamente, a respeito do marco inicial do trabalho batista brasileiro”. O parecer foi somente de que se expressasse gratidão pelo apoio dado à igreja batista de língua inglesa, organizada por imigrantes em Santa Bárbara e pelo “envio de seus missionários William Buck Bagby e esposa em 1881, os quais em 15 de outubro de 1882 organizaram a Primeira Igreja Batista, em Salvador, Bahia, em idioma português, igreja essa, por conseguinte, tida como marco inicial da organização do trabalho batista no Brasil”. [27]

Betty, porém não desanimou, dotada de extrema paciência e confiança, não quis entrar em polêmicas desnecessárias, mas nunca desistiu de tentar apresentar os resultados de suas pesquisas, apesar dos impedimentos. Quando surgia alguma abertura ela a utilizava, quando não, continuava silenciosamente o seu trabalho, divulgando-o por conta própria, pois: “sempre teve plena certeza que nenhum poder é eterno e que o tempo faria valer os fatos históricos apresentados, independentemente de sua própria voz e/ou sua vontade, ou da vontade de quem quer que seja”. [28]

E esse dia finalmente chegou. Na 83ª Assembléia da Convenção Batista Brasileira, em 2003, foi criada uma comissão especial, da qual Betty foi participante, para fazer uma nova avaliação da data inicial do trabalho batista no Brasil: 10 de setembro de 1871 ou 12 de outubro de 1882.

Em 2004, na 84ª assembléia, em Belo Horizonte, a comissão deu seu parecer e um prazo para contestações. Como não houve manifestações, foi encaminhado o parecer definitivo:

“Que reconheçamos a data de 10 de setembro de 1871 como a data de início do trabalho batista no Brasil, com a organização da Igreja Batista de Santa Bárbara d´Oeste, que gerou a segunda igreja, a Igreja Batista da Estação, em 02 de Novembro de 1879”.
“Que reconheçamos a importância da data de 15 de Outubro de 1882, com a organização da Primeira Igreja Batista da Bahia, quando novo impulso foi dado ao trabalho batista no Brasil, para alcançar, com sucesso, os brasileiros”.
Assim, reconhecemos que a inserção do trabalho batista no Brasil se deu por duas vias: a via da imigração (1871) e a via de missão (1882).

Brasília, 16 de Janeiro de 2009

Participantes:
Pr. Ebenézer Soares Ferreira (Relator da Comissão)
Bruno Seitz (Secretário)
Betty Antunes de Oliveira
Othon de Amaral Ávila
Irland Pereira de Azevedo
Zaqueu Moreira de Oliveira
Walter dos Santos Baptista
Israel Belo de Azevedo [29]

A Convenção Batista Brasileira, em 2009, em sua 89ª Assembleia, em Brasília, substituiu a decisão de 1969. Portanto, foram necessários quarenta anos para que a tese de Betty Antunes de Oliveira fosse aceita.

Entre os itens do relatório do Conselho Geral é importante destacar a questão da definição do marco inicial do trabalho batista no Brasil. Depois de mais de cinco anos de estudo do grupo de trabalho, o parecer encaminhado à Assembléia foi aprovado por uma maioria esmagadora. Definiu-se que o início da presença batista em terras brasileiras foi em 1871 com a igreja em Santa Bárbara do Oeste. Desta forma, a comemoração do sesquicentenário dos Batistas Brasileiros será em setembro de 2021. [30]

Betty, já idosa, acompanhava o desenrolar dos acontecimentos, ao receber a notícia manteve-se calada por alguns instantes e depois:

Seu rosto armou o sorriso sereno e singelo que lhe é peculiar e seus olhos buscaram o horizonte, como a percorrer toda a sua trajetória de várias décadas de trabalho. Nós, seus filhos, netos e bisnetos, consideramos a chegada do reconhecimento do marco histórico inicial como um presente antecipado de aniversário que se dará em 13 de maio próximo, quando completará 90 anos de existência. Pelo que aprendemos com ela e nosso pai consideramos esse reconhecimento como uma confirmação de que, assumindo-se uma real obediência aos preceitos divinos, pode-se empreender uma luta e vencê-la sem o uso da imposição de poder, percorrendo o caminho a ser trilhado, com persistência e paciência, buscando-se sempre a paz. [31]

Foram três dias de celebração dos 140 anos dos batistas no Brasil, de 08 a 10 de setembro de 2011, quando cerca de nove mil pessoas se reuniram no Espaço de Eventos da Usina Santa Bárbara, em Santa Bárbara d’Oeste. O presidente da Convenção Batista do Estado de São Paulo, Pr. Manoel Ramires Filho, declarou no discurso de abertura do evento:

Aquilo que começou com poucos irmãos norte-americanos tem se multiplicado em todo o território nacional. E nós estamos aqui para celebrar essa história. Não poderíamos começar de outra maneira que não com um culto no qual Missões é a ênfase. Se estamos aqui é porque missionários vieram até nós. [32]

Na última noite, Betty Antunes de Oliveira recebeu justa homenagem. Charlotte Estele Vaugham,[33] declarou que: “temos muito a agradecer à dona Betty Antunes de Oliveira. Ela batalhou muito para que a igreja em Santa Bárbara fosse reconhecida como a primeira igreja batista em solo brasileiro”.[34]

Betty Antunes de Oliveira, com 92 anos, foi impossibilitada de comparecer ao evento, por recomendação médica, mas seu filho Nelson Ajuricaba Antunes de Oliveira a representou, declarando sua emoção e honra por transmitir a mensagem da autora do livro “Centelha em restolho seco”, o qual registrou a pregação inicial do evangelho, e depois de 140 anos por contemplar essa mensagem espalhada por todo o Brasil, como uma centelha no capim seco.

TEXTO CONTEMPORÂNEO

Carta-discurso de Betty Antunes de Oliveira: lida por seu filho Nelson Ajuricaba, no dia 10 de setembro de 2011, nas comemorações dos 140 anos dos batistas no Brasil

Irmãos batistas e irmãos de outras denominações

Ao ensejo das comemorações dos 140 anos do trabalho batista no Brasil, desejo congratular-me com os batistas brasileiros e suas lideranças denominacionais que assumiram corajosamente o reconhecimento do marco histórico de 10 de setembro de 1871, ocasião da fundação da Primeira Igreja Batista do Brasil, na vila de Santa Bárbara, hoje cidade de Santa Bárbara d’Oeste, conforme referenciado no relatório do Pastor Richard Ratcliff, seu primeiro pastor para a Junta de Missões Estrangeiras, conhecida como Junta de Richmond.

Posteriormente, em 02 de novembro de 1879, sob o pastorado de Elias H. Quillin, foi fundada a 2ª igreja como o nome de Igreja Batista da Estação (no local onde era a estação da estrada de ferro, hoje cidade de Americana).

Em 20 de junho de 1880, o Pastor Robert Porter Thomas, de quem sou bisneta, batizou o ex-padre Antônio Teixeira de Albuquerque, passando este a ser membro da nova igreja.

Essas duas igrejas concederam cartas de transferência para cinco de seus ex-membros: William B. Bagby e sua esposa Anne e Zachary C. Taylor e sua esposa Kate, e o ex-padre, em mudança para Salvador, na Bahia, onde em 15 de outubro de 1882, fundaram a Primeira Igreja Batista da Bahia.

Essas são as pinceladas relevantes da história que hoje destacamos. Entretanto, a relevância maior é a constatação de que o evangelho foi pregado, anunciado, difundido e se espalhado como uma centelha em restolho seca, frase profética do Missionário Bowen e inspiradora do livro que o Senhor me deu o privilégio de escrever.

O objetivo desse livro, a par de resgatar alguns fatos históricos importantes para o registro da trajetória dos pioneiros que nos trouxeram as boas novas; é muito mais, é um testemunho de que a Palavra nunca volta vazia e que a Grande Comissão estava impregnada na mente e no coração daqueles que vieram desbravar uma nova terra, enfrentar novos e desconhecidos desafios e conquistar expressivas vitórias nos seus lavores e nas suas profícuas vidas.

Queira Deus que os feitos dos nossos antepassados, continuem a inspirar as novas gerações para a continuidade da grande obra que nos foi outorgada por Cristo, ampliando-a cada vez mais até que volte o Mestre.

Betty Antunes de Oliveira

10 de setembro de 2011.

Reconhecimento e falecimento

No dia 09 de novembro de 2011, na Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro, foi realizado um culto de gratidão a Deus pela vida da Profa. Betty Antunes de Oliveira, quando lhe foi concedido o título de Doutora em Divindade (Honoris Causa). A Convenção Batista Brasileira, a Convenção Batista do Estado de São Paulo, a Faculdade Teológica Batista de São Paulo e a Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro uniram-se para lhe prestar essa devida homenagem.

Nos arquivos celestes o trabalho de Betty Antunes de Oliveira já aparece. Na área de música, existem diversos instrumentistas, regentes e professores atuando nas igrejas locais, e na área de história, seu grande legado “Centelha em restolho seco”, apresentou, esclareceu dados e serviu de base para a mudança do marco inicial batista brasileiro.

Mesmo em seus últimos anos de vida, ela tocava piano e louvava a Deus. No dia 04 de outubro de 2016, D. Betty fez uma cirurgia de fratura transtrocanteriana e, uma semana depois, no dia 11 de outubro, aprouve ao nosso Senhor levá-la para Seu Reino Celestial.

O culto de gratidão por sua vida foi realizado às 15h15 na Capela “A” do Cemitério Jardim da Saudade, onde foi sepultada às 16h30.

Conclusão

Não é fácil o trabalho de pesquisa, é demorado e, muitas vezes, é ingrato e desgastante. Mas também, quando ocorre a descoberta, proporciona satisfação imensa e, nas palavras da historiadora Betty Antunes de Oliveira, é como encontrar uma pérola.

Porém, o trabalho continua depois da descoberta, e Betty soube não apenas garimpar, mas trabalhar duro e esperar, com paciência no Senhor, pelos frutos do seu trabalho.

Os batistas do Brasil agradecem a Deus a vida de sua historiadora Betty Antunes de Oliveira, ela própria uma pérola sem igual.

Rute Salviano Almeida

© de Rute Salviano Almeida – Usado com permissão

[1] As informações para o resumo biográfico de Betty Antunes de Oliveira foram extraídas das seguintes fontes:

OLIVEIRA, Betty Antunes de. Centelha em restolho seco.

SANTOS, Marcelo dos. O marco inicial. História e religião da América Latina a partir de Michel de Certeau. São Paulo: Edição Jorge Pinheiro, 2003, p. 84-111.

OLIVEIRA, Betty Antunes de (Filha). Alguns comentários sobre a tese de doutorado: O debate sobre a história das origens do trabalho batista no Brasil. Uma análise das relações e dos conflitos de gênero e poder na Convenção Batista Brasil dos anos 1960-1980, defendida em março de 2009 por Alberto Kenji Yamabuchi, p. 1-11.

AGUIRRE, Junia Pitrowsky. “Minha vida com mamãe”. Depoimento em 18 de setembro de 2006.

OLIVEIRA, Alberico Antunes de. “Histórico da Igreja Batista de Constantinópolis em seu Jubileu de Prata: 1940-1965”, p. 1-31.

KASCHEL, Walter. “Da cidade maravilhosa ao paraíso verde, III. Na capital amazonense”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro, 13 de dezembro de 1945, p. 8.

[2] E-mail de 09 de agosto de 2011, enviado por Betty Antunes de Oliveira (filha) para Rute Salviano Almeida.

[3] OLIVEIRA, Betty Antunes de. Do arado ao cajado, p. 7.

[4] OLIVEIRA, Betty Antunes de. Do arado ao cajado, p. 38.

[5] Os imigrantes no Brasil preferiam que os casamentos dos filhos ocorressem com pessoas da mesma origem. E muitos filhos obedeciam cegamente a essa tradição, sendo que somente em tempos mais recentes começaram a acontecer casamentos mistos. O que se via comumente era que descendentes de letos se casavam com descendentes de letos, descendentes de alemães casavam-se com descendentes de alemães, descendentes de norte-americanos com descendentes de norte-americanos etc. Assim procediam, como que preservando sua cultura.

[6] OLIVEIRA, Betty Antunes de. “O dia dos namorados”. Coluna da Verdade. Edição 19. Disponível em <http://www.acoluna.org.br/textos_view.asp?id=89> Acesso em 04/10/2011.

[7] Ajuricaba: nome de um guerreiro indígena. O caçula foi chamado de Lincoln Amazonas, refletindo a mentalidade patriótica da época.

[8] AGUIRRE, Junnia Pitrowsky. “Minha vida com mamãe”. Depoimento em 18 de setembro de 2006.

OBS: Junia mudou seu nome de Junia Antunes de Oliveira para Junia Pitrowsky Antunes de Oliveira e, após seu casamento, para Junnia Pitrowsky de Aguirre.

[9] OLIVEIRA, Betty Antunes (filha). Alguns comentários sobre a tese de doutorado de Kenji Yamabuchi, p. 6.

[10] OLIVEIRA, Alberico Antunes de. “Histórico da Igreja Batista de Constantinópolis em seu Jubileu de Prata: 1940-1965”, p. 1-31.

[11] OLIVEIRA, Alberico Antunes de. “Histórico da Igreja Batista de Constantinópolis em seu Jubileu de Prata: 1940-1965”.

[12] AGUIRRE, Junnia Pitrowsky. “Minha vida com mamãe”. Depoimento em 18 de setembro de 2006, p. 2.

[13] Betinha escreveu que um dos meninos andava de joelhos, pois não conseguia por os pés no chão porque estavam cheios de bicho-de-pé.

[14] OLIVEIRA, Betty Antunes de. (filha). “Depoimento da Betinha sobre sua mãe Betty Antunes de Oliveira”. São Carlos, 16 de setembro de 2006, p.

[15] Depoimento de Betty Antunes de Oliveira (filha) sobre sua mãe.

[16] KASCHEL, Walter. “Da cidade maravilhosa ao paraíso verde, III. Na capital amazonense”, p. 8.

[17] KASCHEL, Walter. “Da cidade maravilhosa ao paraíso verde, III. Na capital amazonense”, p. 8.

[18] KASCHEL, Walter. “Da cidade maravilhosa ao paraíso verde, III. Na capital amazonense”, p. 8.

[19] AGUIRRE, Junnia Pitrowsky. “Minha vida com mamãe”. Manaus, 18 de setembro de 2006, p. 2.

[20] OLIVEIRA, Betty Antunes. Do arado ao cajado, p. 27.

[21] A descoberta desse jornal com a letra de Betty foi uma gratificante surpresa. Na fase de pesquisa para a escrita desse livro, ganhamos muitos jornais batistas antigos e, entre eles, encontramos essa relíquia que demonstra a cooperação entre as pesquisadoras enfocadas neste capítulo.

[22] OLIVEIRA, Betty Antunes. “Dia dos Namorados”.

[23] As informações para esse tópico foram extraídas das seguintes fontes:

CAVALCANTI, Ebenézer Gomes. “Antônio Teixeira de Albuquerque até 1886”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro, 29 de janeiro de 1967, p. 1/5.

CAVALCANTI, Ebenézer Gomes. “Um centenário batista no Brasil”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1971, p. 4-5.

AMARAL, Othon Ávila. “A proposta J. Reis Pereira”. O Jornal Batista, 20 de abril de 2003, p. 7.

SANTOS, Marcelo. O marco inicial, p. 84-111.

YAMABUCHI, Alberto Kenji. O debate sobre a história das origens do trabalho batista no Brasil. Uma análise das relações e dos conflitos de gênero e poder na Convenção Batista Brasil dos anos 1960-1980, defendida na UMESP, em março de 2009.

OLIVEIRA, Betty Antunes de. (Filha). Alguns comentários sobre a tese de doutorado de Alberto Kenji Yamabuchi: O debate sobre a história das origens do trabalho batista no Brasil. Uma análise das relações e dos conflitos de gênero e poder na Convenção Batista Brasil dos anos 1960-1980, defendida na UMESP, em março de 2009.

[24] CAVALCANTI, Ebenézer Gomes. “Antônio Teixeira de Albuquerque até 1886”, p. 1.

[25] CAVALCANTI, Ebenézer Gomes. “Um centenário batista no Brasil”, p. 4.

[26] OLIVEIRA, Betty Antunes de Centelha em restolho seco, p. 452-453.

[27] Convenção Batista Brasileira, anais, 1980, p. 336, citado por SANTOS, Marcelo dos. O marco inicial, p. 96-97.

[28] OLIVEIRA, Betty Antunes de (filha). Alguns comentários sobre a tese de doutorado de Alberto Kenji Yamabuchi: O debate sobre a história das origens do trabalho batista no Brasil. Uma análise das relações e dos conflitos de gênero e poder na Convenção Batista Brasil dos anos 1960-1980, defendida na UMESP, em março de 2009 , p. 2.

[29] “Marco inicial é definido”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro, 01 de fevereiro de 2009, p. 9.

[30] “Marco inicial é definido”, p. 9.

[31] OLIVEIRA, Betty Antunes de (filha). Alguns comentários sobre a tese de doutorado de Alberto Kenji Yamabuchi, p. 3.

[32] ROSÁRIO, Myrian. “Celebração dos 140 anos marca momento histórico da denominação”. O Jornal Batista. Rio de Janeiro, 25 de setembro de 2011, p. 8.

[33] Charlote Estelle Vaughan: descendente dos imigrantes fundadores da Primeira Igreja Batista em Santa Bárbara que trabalhou incansavelmente na denominação batista. Durante 39 anos atuou na União Feminina, por 23 anos foi professora no IBER (Instituto Batista de Educação Religiosa) e fez parte do Conselho da Aliança Mundial por cinco anos, sendo a primeira mulher a fazer parte desse conselho.

[34] ROSÁRIO, Myrian. “Celebração dos 140 anos marca momento histórico da denominação”, p. 9.

(1919-2016)

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