Autobiografia ou Lembranças de Bill H. Ichter

Autobiografia ou Lembranças de Bill H. Ichter

Uma das grandes lacunas que senti no início do Departamento de Música, que oficialmente começou em 1958, portanto, 50 anos atrás, foi na área de publicações. Existia pouca literatura coral. A coleção mais usada era Coros Sacros, do irmão Arthur Lakschevitz, cujo primeiro volume saiu em 1950. A coletânea de Graça Cowsert – Hinos de Louvor, também publicada em 1950, foi utilizada pelos corais, bem como a coleção, Antemas Celestes de Alyna Muirhead. Algumas coleções do metodista Alberto Ream também foram de grande valor. Cheguei a usá-las com os corais com quem trabalhava.

A primeira publicação (1ª) do novo departamento foi Antemas Corais, uma coleção de músicas corais. Fiz questão, que, naquela primeira coleção, as músicas de alguns brasileiros fossem incluídas. A coleção tinha contribuições de Guilherme Loureiro, Carlos Zink, Heitor Argolo, e do pastor presbiteriano Renato Ribeiro dos Santos. A música deste continua sendo a mais linda com a qual se canta o Salmo 139.23. Parece que a música expressa exatamente o sentimento do Salmista.

Bill H. Ichter escrevendo

Em vez de só publicar música coral, resolvi preencher lacunas na área de música para vozes masculinas, femininas e infantis. Portanto, as próximas três publicações foram: Cânticos Para Vozes Masculinas (dedicado ao coro masculino do STBSB), Cânticos Para Vozes Femininas (dedicado ao Conjunto Feminino da Igreja Batista Itacuruçá), e uma cantata para coro infantil, Eis A Estrela. Nestas primeiras duas coleções aparecem arranjos de Guilherme Barbosa e Antônio Coutinho. Este último labutou fielmente ao meu lado durante quase todo o meu tempo no Departamento de Música. Passamos horas e horas usando uma máquina de escrever música, que utilizávamos no preparo das músicas para a publicação. Esta máquina preparava os pentagramas, os símbolos musicais, e as notas musicais. Depois vinha o trabalho de imprimir as letras e meticulosamente colocá-las no lugar certinho abaixo das notas, sílaba por sílaba.

As próximas duas publicações foram dois livros traduzidos do inglês: A Música na Bíblia e Hinodia Cristã. Não vou anotar nesta história, todas as publicações do departamento, mas foram muitas. O Brasil Batista entrou numa nova área neste aspecto.

Mencionarei somente algumas por serem diferentes: Prelúdios Para Piano, de Edile Cavalcante; Acordes Celestes, (arranjos para acordeão) de Lauro Bernardes; Prelúdios Para o Harmônio, de Eliel Pereira da Silva; e Música Dos Grandes Mestres em arranjos para harmônio. Esta coletânea tinha mais de 70 anos quando foi encontrada na biblioteca duma família inglesa no bairro da Tijuca.

Além da coleção Glória ao Justo do Pastor Ricardo Pitrowsky que já mencionei, também publicamos em 1975, Composições Sacras, de Júlio de Oliveira, neto do venerado líder presbiteriano, Rev. Álvaro Reis. Júlio foi organista da Catedral Presbiteriana no Rio por 45 anos e foi levado prematuramente ao céu, com somente 59 anos de idade. Achávamos que estes compositores brasileiros mereciam ter as suas obras disponíveis para todo o povo evangélico.

Entre as muitas publicações de coleções corais e cantatas, publicamos hinários para duas grandes cruzadas evangelísticas – a memorável Primeira Campanha Nacional de Evangelização, e a Cruzada Evangelística Billy Graham, Grande Rio.

Talvez uma das nossas mais notáveis publicações fosse em 1977, quando publicamos O Messias de Handel. Desde a sua organização em 1958, sonhávamos publicar para os coros do Brasil uma obra clássica, de música sacra. Foi uma luta gigantesca; longas horas foram gastas em consultas, várias performances foram avaliadas, e muitas pessoas colaboraram. Sem a participação destas, não teria sido possível lançar esta obra, não somente para os Batistas, como também para o público geral. Montamos uma equipe de peso que parecia um verdadeiro Whos Who da Música Brasileira: Cleofe Person de Mattos, Elza Lakschevitz Assunção, Gláucia Vasconcelos Keidann, Anna Campelo Egger, Henriqueta Rosa Fernandes Braga, Hora Diniz Lopes, Ruy Wanderley, Saulo Velasco e John Boyd Sutton. Contamos com a preciosa colaboração de uma capacitada equipe liderada pela Prof.ª Joan Sutton, então professora no Departamento de Música do STBSB. A Irmã Joan, filha dos missionários John e Prudence Riffey (1935 -1967), foi criada no Brasil e tinha o dom da tradução. O Departamento de Música muito deve a esta irmã pela sua valiosa colaboração em muitas publicações. Ela foi a coordenadora da comissão que preparou o Hinário Para O Culto Cristão e este hinário apresenta 52 contribuições dela: oito letras, uma metrificação, 36 traduções, e sete músicas.

Talvez a maior e mais duradora contribuição do departamento foi a apresentação à denominação, da 36.ª edição do Cantor Cristão. Nunca nos seus 80 anos o Cantor Cristão sofreu tantas modificações. Nesta edição, foram apresentadas juntas pela primeira vez a música junto com a letra revista por uma comissão composta dos irmãos Werner Kaschel, José dos Reis Pereira, e Mário Barreto França. Os hinos todos saíram com a sua ortografia atualizada. Muitas notas apagadas ou mesmo ilegíveis foram retocadas; novos termos musicais foram utilizados; em alguns casos de harmonia errada, a mesma foi corrigida; foram feitas harmonizações a quatro vozes em dois hinos que tinham apenas acompanhamento para piano, etc.

Estas modificações foram de grande relevância, porém discretas que poderiam ter escapado ao olhar menos arguto. Mas a nova e histórica edição, tinha modificações mais úteis e óbvias: novos cabeçalhos contendo farta documentação preencheram uma lacuna que muitos tinham sentido nas edições anteriores; índices novos e ampliados onde o pastor, o dirigente da música, o diretor de programas especiais e os interessados no assunto encontrariam uma riquíssima fonte de informações. Mais uma vez este trabalho foi o resultado do esforço de várias pessoas: a Profª Joan Sutton e os alunos do Curso de Música do STBSB; a minha vizinha e grande Hinóloga, Henriqueta Rosa Fernandes Braga com quem passei longas horas preparando o índice da métrica; e os jovens Antônio Azevedo Coutinho, e Ivo Augusto Seitz, funcionários do então Departamento de Música.

Os batistas brasileiros tiveram afinal, um hinário ao par dos grandes hinários evangélicos do mundo evangélico. No final do prefácio daquela edição, escrevi as seguintes palavras:

“Que o Cantor Cristão seja útil para o engrandecimento
do evangelho nesta grande nação brasileira.”

Bill H. Ichter

Publicado originalmente em “http://blogdawesth.blogspot.com”

 © Bill H. Ichter /Westh Ney Rodrigues Luz – Usado com permissão

 

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