Arthur Lakschevitz

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Arthur Lakschevitz (1901-1980)

Biografia por Bill H. Ichter

O nome de Arthur Lakschevitz é sinônimo de música sacra no Brasil.

Dr. Arthur Lakschevitz

Pioneiro da música sacra da denominação batista no Brasil, sua coleção de hinos “Coros Sacros”, tem sido por muitos anos a coleção de hinos mais usada pelos coros das igrejas evangélicas brasileiras. Nós batistas temos uma grande dívida para com este dedicado servo de Deus e aqui vai a nossa palavra sincera de apreciação e reconhecimento pelo muito que ele realizou no terreno da música sacra, em terras brasileiras.

Nascido na Letônia, no dia 19 de Fevereiro de 1901, Arthur Lakschevitz passou os seus primeiros 23 anos naquele pequeno país, que muito tem contribuído para o desenvolvimento do trabalho batista no Brasil.

O jovem Arthur trabalhava na fazenda de seu pai, que era pregador leigo. Mais tarde ele se tornou chefe daquela fazenda.

Aos 18 anos, Arthur Lakschevitz foi batizado e logo aceitou a regência do coro da Igreja Batista local. Assim se iniciou a carreira do homem que mais tarde iria contribuir grandemente para o desenvolvimento da música sacra nas igrejas evangélicas do Brasil.

No dia 24 de junho de 1923 o jovem leto emigrou para o Brasil. Seus três primeiros anos, em sua nova pátria, ele passou em Varpa, Baurú e São Paulo. Durante um destes anos ele trabalhou no Frigorífico Wilson, em São Paulo, sempre dando o seu testemunho cristão no meio dos operários.

Arthur Lakschevitz (1901-1980)

Em 1926, sentindo a necessidade de se aperfeiçoar no idioma português, matriculou-se no Colégio Batista.

Em 1932, Arthur Lakschevitz casou-se com a jovem brasileira Iracema Fernandes. Hoje este casal tem dois filhos: Elza, professora de piano e uma das mais brilhantes revelações da Mocidade Batista brasileira, e Arthur Jr. Moço talentoso e ativo no trabalho da mocidade.

O prof. Arthur Lakschevitz tem sido o organizador e o ensaiador de muitos coros. Durante 14 anos ele foi regente do coro da 1ª Igreja Batista do Rio de Janeiro e também, durante vários anos regente do coro da Igreja Batista do Méier e da Igreja Batista em Itacuruçá.

Em 1931, quando saiu o 1º volume de Córos Sacros, o irmão Arthur Lakschevitz dirigia nada menos de cinco coros.

O prof. Lakschevitz é um homem de infatigável energia; tem sido um leal cooperador nos trabalhos de nossa denominação. Foi professor do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil e do Colégio Batista Shepard, no Rio. Fez parte da Junta Executiva do referido colégio e também de outras juntas no campo carioca.

Durante a Aliança Batista Mundial em 1960 Arthur Lakschevitz foi membro da Comissão de Música e teve um papel destacado na organização do Grande Coral do Congresso.

Hoje, com 63 anos, Arthur Lakschevitz continua no seu trabalho. Além de suas inúmeras atividades corais ele ainda é professor de Química na Associação Cristã de Moços do Rio de Janeiro e professor de Ciências no Instituto Batista Americano.

Instalada no quintal de sua casa o irmão Lakschevitz tem uma pequena oficina gráfica onde tem realizado inúmeros trabalhos para as igrejas evangélicas.

Queremos prestar a nossa modesta, porém significativa, homenagem ao homem que tanto tem feito para o desenvolvimento da música sacra no meio evangélico brasileiro.

Bill Ichter

“Publicado originalmente em: “O Jornal Batista”, Ed. 9 , Fevereiro de 1966, pág. 5 – “Coluna Canto Musical”
© 1966 de Bill H. Ichter – Usado com permissão

Ilustração: Lucas Nasto – © 2017 de hinologia.org

Biografia por Rolando de Nassau                                                                      

Arthur Lakschevitz nasceu em 19 de fevereiro de 1901 em Arlava (Letônia) e faleceu em 11 de setembro de 1980 no Rio de Janeiro (RJ).

Filho de pastor batista, com ele aprendeu as primeiras noções de música. Para melhor servir à Igreja, Arthur frequentou diversos cursos de regência. Em 1919 foi batizado e eleito regente do coro de sua igreja.

Em fins de 1922 emigrou para o Brasil, viajando de navio num grupo de 453 pessoas, todas letas e batistas, entre as quais o menino Osvaldo Ronis, que, em 1932, ingressou nos coros do Colégio Batista do Rio de Janeiro e do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, sob a regência de Lakschevitz.

Ele participou da instalação da Colônia Leta, em Varpa, no interior do estado de São Paulo, e da fundação de uma grande igreja batista leta nessa localidade; o coro contava com cerca de 200 coristas.

Em 1926 foi trabalhar e estudar no Colégio Batista, onde ministrava aulas de música. Na época organizou coros em igrejas batistas e presbiterianas, e começou a preparar hinos novos, traduzindo do leto e fazendo arranjos musicais, que eram impressos pela Casa Publicadora Batista, antecessora da JUERP.

Lakschevitz regeu os coros da Primeira Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro e das primeiras igrejas batistas do Rio de Janeiro, de Niterói e de Caxias, e os das igrejas batistas de São Cristóvão (atual Quarta Igreja), do Méier, de Itacuruçá, de Vila Isabel, de Tomás Coelho e de Barão da Taquara.

Em 1931 Lakschevitz colou grau de doutor em filosofia e começou a ensinar várias matérias científicas em cursos de nível médio.

Em 1960 regeu um coro com 3 mil vozes, por ocasião do 10º. Congresso da Aliança Batista Mundial, realizado no Rio de Janeiro.

Na década de 60, mudou-se para Nova Friburgo (RJ), e filiou-se a uma das igrejas batistas dessa cidade serrana.

Em 25 de outubro de 1980, o Coral Excelsior dedicou um concerto, na Igreja Batista do Méier (Rio de Janeiro, RJ), executando hinos constantes da coletânea “Coros Sacros”, em homenagem a Lakschevitz.

Rolando de Nassau

© Rolando de Nassau – Usado com permissão

Fotografia extraída de “O Jornal Batista” (http://www.batistas.com/o-jornal-batista)

A Coletânea Coral de Arthur Lakschevitz

Arthur Lakschevitz (1901-1980) foi um dos pioneiros na elaboração de letras e no arranjo de melodias para coros. Elaborou cerca de 400 hinos. Durante mais de meio século, dedicou-se à música coral evangélica.

Devido à escassez de música coral, em 1931 publicou o primeiro volume de “Coros Sacros”, por meio da Casa Publicadora Batista, com a colaboração do pastor presbiteriano carioca Matatias Gomes dos Santos, do pastor batista paulista Egydio Gioia e do Dr. Adolpho Reynaldo Penno. Continha 24 peças; a maioria das letras era da autoria de Lakschevitz; todas as melodias, por ele arranjadas.

Em 1934 ofereceu o segundo volume, com 27 peças. No prefácio, o rev. Matatias confessava que a coletânea não se destinava a “resolver o problema da Arte ao serviço da Fé”; tratava-se, apenas, de uma contribuição “que poderá ir servindo, até que surjam, nas próprias fontes da inspiração nacional, os valores definitivos”.

O rev. Matatias (desde 1926, pastor da primeira Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro) estabeleceu um paradigma para a música coral evangélica: excelência da composição musical, ortodoxia doutrinária, correção gramatical, beleza da forma, impecável correlação das tônicas gramaticais com as tônicas musicais, e coincidência da expressão verbal com a expressão musical. E apontou um defeito na música importada: “o ritmo das músicas estrangeiras não coincide, em geral, com o ritmo da poesia brasileira”.

Entre 1935 e 1939 saíram o terceiro volume, com 17 hinos, e o quarto, com 22, totalizando 90 peças. Lakschevitz tinha chegado ao meio da caminhada, produzindo em média 10 hinos por ano.

A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) não esmoreceu o seu ideal de dotar os coros evangélicos de mais opções musicais. Em outubro de 1940 era publicado o quinto volume, prefaciado pelo pastor João Filson Soren, com 20 hinos.

Apesar dos 110 hinos já publicados, o pastor Manoel Avelino de Souza, ao apresentar o sexto volume (mais 19 peças), ainda na década de 40, achava muito escassa a música coral no Brasil. Nota-se neste volume a penetração de compositores de origem provavelmente leta.

O sétimo volume, fechando a década, contém largos elogios à obra de Lakschevitz e revela o otimismo de seu prefaciador, o pastor Pedro Gomes de Mello: bastava haver em cada igreja um servo de Deus, para dirigir um côro.

Na década de 50, Lakschevitz, com o oitavo volume de sua coletânea pioneira, atingia uma meta extraordinária: 190 peças de música coral, que, durante 30 anos (1950-1980), foi a mais usada pelos coros das igrejas evangélicas. Em 1974 a coletânea “Coros Sacros” atingiu a marca de 240 mil exemplares editados. O valor e o interesse dessas peças é muito desigual. Ao lado de cinco conhecidos hinógrafos (Mason, Emerson, Palmer, Kirkpatrick e Gabriel), todos do século 19, foram guindados compositores que não deixaram marcas na hinologia cristã (OJB, 12 out 1980 e 16 nov 1980).

Dos eruditos, temos: Georg-Friedrich Haendel, com a canção “Singe, seele, Gott zum Preise” (no. 150), e Ludwig van Beethoven, com “Die Himmel rühmen des Ewigen Ehre” (no. 35).

A coletânea tem números (ainda em 1980) muito apreciados pelo público evangélico: nos. 8, 13, 27, 37, 38, 41, 45, 124, 154 e 169.

Certamente, “Coros Sacros” exigiram muita abnegação e pertinácia. Em 1957, levando um exemplar do meu livro “Introdução à Música Sacra” à residência de Arthur Lakschevitz, localizada no bairro carioca do Rio Comprido, tive oportunidade de conversar longamente com ele; fiquei impressionado com as dificuldades do seu trabalho.

Foi o seu maior legado.

Rolando de Nassau

© Rolando de Nassau – Usado com permissão

O Maior Legado de Lakschevitz

Os Batistas do Brasil tiveram, no setor musical, três pioneiros: Ginsburg, Pitrowsky e Lakschevitz. Um polonês, um neto e um descendente de alemão deram sua notável contribuição para a escolha do canto congregacional e o coral a ser usado pelos Batistas; nos últimos 90 anos, o que eles escolheram é o que temos cantando.

Salomão Luiz Ginsburg (1867-1927) compilou e publicou, em 1891, a primeira coletânea de letras de hinos, para serem utilizadas nas atividades devocionais e evangelísticas.

Ricardo Pitrowsky (1891-1965) editou, em 1924, a primeira edição musicada do “Cantor Cristão”, para enriquecimento do canto congregacional.

O pioneiro, já de saudosa memória, na elaboração de letras e no arranjo de melodias para coros foi Arthur Lakschevitz (1901-1980).

Devido à escassez de música coral, em 1931 publicou o primeiro volume de “Coros Sacros”, através da Casa Publicadora Batista, com a colaboração do pastor presbiteriano carioca Matatias Gomes dos Santos, do pastor batista paulista paulista Egydio Gioia e do Sr. Adolpho Penno. Continha 24 peças; a maioria das letras da autoria de Lakschevitz; todas as melodias, por ele arranjadas, eram estrangeiras.

Em 1934 ofereceu o segundo volume, com 27 peças. No prefácio, o Rev. Matthatias confessava que a coletânea não se destinava a “resolver o problema da Arte ao serviço da Fé”; tratava-se, apenas, de uma contribuição “que poderá ir servindo, até que surjam, nas próprias fontes da inspiração nacional, os valores definitivos”.

O Rev. Matatias estabeleceu um paradigma para a música coral evangélica: excelência da composição musical, ortodoxia doutrinária, correção gramatical, beleza da forma, impecável correlação das tônicas gramaticais com as tônicas musicais e coincidência da expressão verbal com a expressão musical. E apontou um defeito da música importada: “o ritmo das músicas estrangeiras não coincide, em geral, com o ritmo da poesia brasileira”.

Entre 1935 e 1939 saíram o terceiro volume, com 17 hinos, e o quarto, com 22, totalizando 90 peças. Lakschevitz tinha chegado ao meio da caminhada, produzindo em média 10 hinos por ano.

A Segunda Guerra Mundial não esmoreceu o seu Ideal de dotar os coros evangélicos de mais opções musicais. Em outubro de 1940 era publicado o quinto volume, prefaciado pelo pastor João Filson Soren, com 20 hinos.

Apesar dos 110 hinos já publicados, o pastor Manoel Avelino de Souza, ao apresentar o sexto volume (mais 19 peças), ainda na década de 40, achava muito escassa a música coral no Brasil. Nota-se neste volume a penetração de compositores de origem provavelmente leta.

O sétimo volume, fechando a década, contém largos elogios à obra de Lakschevitz e revela o otimismo de seu prefaciador, o pastor Pedro Gomes de Mello: bastava haver em cada igreja um servo de Deus, para dirigir um coro.

Na década de 50, Lakschevitz, com o oitavo volume de sua coletânea pioneira, atingia uma meta extraordinária: 190 peças de música coral, que, durante 30 anos, foi a mais usada pelos coros das Igrejas Evangélicas. Lakschevitz foi o pioneiro da música coral.

O valor e o interesse dessas peças é muito desigual. Ao lado de 5 conhecidos hinógrafos (Lowell Mason, Luther Orlando Emerson, Horatio Richmond Palmer, William James Kirkpatrick, Charles Hutchison Gabriel), todos do século XIX, foram guindados, às dezenas, compositores que não deixaram marcas na hinologia cristã contemporânea.

Comparecem com destaque o desconhecido C. E. Leslie e o pouco importante K. Lidalks.

Dos eruditos, temos: Georg-Friedrich Handel, com a canção “Singe, seele, Gott zum Preise”, escrita em 1729 por Berthold Heinrich Brockes (nº 150 de “Coros Sacros”) e Ludwig van Beethoven, com a canção “Die Himmel rühmen des Ewigen Ehre” (Opus 48, nº 4, e nº 35 na coletânea), escrita em 1803.

Quanto aos coros “La Foi, I’Esperance et la Charité”, compostos em 1844 por Gioacchino Rossini, a inclusão não foi das mais felizes, pois pertenciam a uma ópera de inspiração mitológica e são indignos do talento do operista italiano. A propósito, Hector Berlioz disse que “sua Esperança nos decepcionou; sua Fé nunca removerá montanhas; sua Caridade nunca o arruinará”. O próprio Rossini repudiou essas obras (nº 60, 61 e 62 da coleção de Lakschevitz).

Apesar desses defeitos, a coletânea tem números ainda muito apreciados pelo público evangélico: nºs 8 (Lakschevitz-Palmer) 13, (Egydio Gioia-Leslie), 27 (Lakschevitz-Perkin), 31 (?), 37 (Lakschevitz), 38 (Lakschevitz-Gunther), 41 (Lakschevitz-Fields), 45 (Lakschevitz-Stene), 63 (?), 85 (?), 124 (Stutts-Soren-Wright), 154 (Lakschevitz-Kirkpatrick) e 169 (Lakschevitz-Leslie).

Certamente, “Coros Sacros” exigiram muita abnegação e pertinácia. Em meados da década de 50, tivemos oportunidade de conversar com Lakschevitz e ficamos impressionados com as dificuldades do seu trabalho. Foi o seu maior legado. A Lakschevitz rendemos nossas profundas homenagens póstumas.

Rolando de Nassau

(Publicado em “O Jornal Batista”, 16 nov 1980 p. 2).
Música. Nº 187
© 1980 de Rolando de Nassau – Usado com permissão

Minha Homenagem Póstuma ao Maestro Profº Arthur Lakschevitz

“Oh! quanto desejo te amar,
meu Senhor,
Cantar com voz alta, Jesus,
Teu louvor;
Porque Tu morreste na cruz
para mim.

CORO
Se mais eu pudesse em Jesus
confiar.
Se mais eu pudesse, meu
Deus Te louvar!

Oh! quanto desejo melhor te
cantar
Com alma humilhada, Jesus,
Te adorar;
Renego os prazeres da vida de
aqui,
Pois gozo perfeito eu terei só
em Ti

Oh! quanto desejo melhor Te
louvar,
Com justo entusiasmo, Jesus,
Te exaltar!
Oh! toma, Te peço, meu vil
coração
Que humilde Te entrego na
grata oração!”

(Córos Sacros II, nº34)

Eis a letra do hino “SE MAIS EU PUDESSE, MEU DEUS, TE AMAR!” de autoria de Arthur Lakschevitz e que se caracterizou muito bem o anseio de sua alma, extravasado abundantemente através do enorme acervo musical contido nas coleções de COROS SACROS (190 hinos para coros em 8 cadernos), CÂNTICOS JUVENIS, MÚSICA PARA TODOS e HINOS PARA TODOS, perfazendo um total de aproximadamente 400 hinos sacros. Com uma abnegação jamais excedida dedicou-se à causa da música coral evangélica durante mais de meio século. Seu coração vibrava com os acordes de exaltação do seu Salvador e Senhor. Encarnava, e fazia os coristas encarnarem, a mensagem dos hinos. Adoração – eis a síntese de sua regência que executava frequentemente comovido até às lágrimas.

Conheci Arthur Lakschevitz há 58 anos passados a bordo do navio ARAGUAYA, na travessia do Atlântico, quando da nossa emigração da Letônia para o Brasil em outubro de 1922. Éramos um grupo de 453 pessoas, todos letos e batistas. Diariamenente havia culto no convés, no qual cantava um coral improvisado pelo jovem regente de 22 anos – Arthur Lakschevitz. Naquela altura eu tinha pouco mais de nove anos de idade. Impressionava-me o dinamismo, o entusiasmo e o porte de Lakschevitz. Arrebatavam-me os cânticos entoados por aquele coral conduzido por Arthur Lakschevitz. Mas tarde, quando da minha chegada ao Rio para estudar, em 1932, identifiquei-me ainda mais com esse maestro, ingressando, por sua insistência, no coro do Colégio e Seminário Batista do Rio de Janeiro por ele regido. Daí por diante sempre acompanhei, com interesse e apreciação, a trajetória maravilhosa de Arthur Lakschevitz no cenário da Denominação Batista do Brasil e mesmo fora dela.

Arthur Lakschevitz nasceu em 19 de Fevereiro de 1901, na Letônia, na pequena localidade de Arlava, tendo feito os seus estudos elementares secundários em Talsi. Filho de um pastor batista leigo que possuía uma pequena propriedade rural, cedo aprendeu a amar a Deus e a terra. Embora a sua conversão ocorresse aos 10 anos, só veio a ser batizado aos 18. As primeiras noções de música aprendeu com seu pai. Logo após a sua conversão já estava em condições de dirigir os cânticos simples da Escola Bíblica Dominical – que naquela época, na Letônia, era só para crianças e adolescentes, tendo o seu próprio hinário. – BEHRNU KOKLE (Harpa das Crianças). Imediatamente após o seu batismo foi eleito regente do coro de sua igreja, posto em que permaneceu até fins de 1922, quando emigrou para o Brasil. Frequentou diversos cursos de regência de alto nível oferecidos anualmente pela União Coral da Denominação Batista da Letônia a cuja frente achavam-se figuras das mais alta expressão da cultura musical do povo leto.

Ao surgir o grande movimento emigratório dos batistas da Letônia para o Brasil (1922/23), Arthur Lakschevitz sentiu uma profunda e inequívoca convicção de que Deus tinha uma tarefa para ele no Brasil. Não sabia bem o que seria, mas como Abraão, deixou sua terra e sua parentela – sua família, seu emprego, sua igreja, sua pátria e partiu para o desconhecido pela fé naquele que o chamou das trevas para a maravilhosa luz do evangelho.

Chegando ao Brasil com os demais imigrantes batistas letos, participou dos primeiros trabalhos de instalação da Colônia Leta de Varpa, no Interior de São Paulo, e da fundação da Igreja Batista Leta de Varpa com 1.750 membros (abril de 1923) – sendo um dos primeiros regentes do coral daquela igreja que na ocasião tinha cerca de 200 vozes. Quando em fins de 1923 diversos grupos de irmãos letos partiram para fazendas com o fim de ganharem recursos com que instalar seus sítios na Colônia Varpa, Arthur Lakschevitz integrou-se no grupo que foi para a Fazenda Igualdade, nas proximidades da cidade de Bauru, de onde, após um ano de trabalho, partiu para a cidade de São Paulo, empregando-se no Frigorífico Wilson, sempre orando e buscando descobrir a vontade de Deus para a sua vida.

Em princípios de 1926 chegou ao seu conhecimento a informação de que no Colégio Batista do Rio de Janeiro ele teria oportunidade de estudar e trabalhar. Rumou para lá. Foi muito recebido pelo Diretor do Colégio e Seminário Batista do Rio, Dr. Shepard, que lhe proporcionou oportunidades de trabalhar nas oficinas e depois na supervisão da disciplina, uma bolsa integral de estudos de adaptação, uma vez que já havia concluído seus estudos de grau médio na Letônia. Dentro de poucos meses Arthur Lakschevitz começou a dar aulas de música no Colégio e visitar igrejas que lhe solicitavam a cooperação no campo da música. Criou um conjunto masculino com alunos do Seminário e um coral com seminaristas, “magisteristas” (jovens que se destinavam ao magistério batista nos colégios da Denominação) e alunas da Escola de Obreiras do Colégio Batista Feminino; organizou coros em diversas igrejas do Rio e adjascências, inclusive Presbiterianas, e começou a preparar hinos novos, avulsos, traduzindo a maioria de hinários letos e fazendo diversos arranjos. Nesses hinos avulsos, que começaram a circular em 1927, é que se encontram as raízes da grande coleção de COROS SACROS, sujo primeiro caderno, com 24 hinos, saiu impresso em 1931 por um impressor alemão, no bairro de Riachuelo (Rio) que, nos fundos do seu quintal, possuía uma pequena gráfica com tipos para notas musicais. As edições subsequentes do 1º caderno, bem como todas as edições dos cadernos 2 a 8, foram impressos pela Casa Publicadora Batista, a partir de 1932. Estava descoberta a tarefa que Deus havia destinado para Arthur Lakschevitz ao Brasil: desenvolver a música coral evangélica, numa fase quando ainda quase nada havia nesta área. Muita razão tem o maestro Bill Ichter ao caracterizá-lo como “o pioneiro de nossa música coral” (JB, 12/12/80), pg. 4). A sua influência neste campo estendeu-se por todo o Brasil, Portugal e suas colônias – enfim, onde quer que existisse uma igreja de fala portuguesa – através de suas coleções de hinos para coros, especialmente COROS SACROS, que em 1974 já havia ultrapassado o respeitável número de 240.000 exemplares editados. Quanto à sua contribuição como regente esteve à frente de duas dezenas de coros na cidade do Rio de Janeiro e arredores, entre os quais destacam-se: o coro da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro (Rua Silva Jardim), coro do Seminário Batista do Sul, coro da Primeira Igreja Batista do Rio (14 anos), coro da Igreja Batista de São Cristóvão, coro da Igreja Batista do Méier, coro da Primeira Igreja Batista de Caxias,  coro da Primeira Igreja Batista de Barão de Taquara, coro da Igreja Batista de Vila Isabel. Também tivemos a honra de tê-lo como um dos regentes do grande coral de 3.000 vozes do 10º Congresso da Aliança Batista Mundial, realizado no Rio de 1960, para cuja preparação Lakschevitz deu a maior contribuição, visitando os núcleos de ensaios com uma frequente periodicidade, durante dois anos, no Rio, Estado do Rio, Minas Gerais, São Paulo e Paraná.

Em 1931 Arthur Lakschevitz colou grau de Doutor em Filosofia pela antiga Faculdade de Filosofia do Rio de Janeiro, passando a atuar também no magistério. Além de ensinar música no Colégio e Seminário Batista do Rio de Janeiro e outras instituições, publicou o livro TEORIA MUSICAL para o ensino da matéria em nível ginasial. Ensinou também Matemática, Física, Química e Ciências Naturais no Colégio Batista, Colégio Souza Marques, Associação Cristã de Moços, Ginásio Copacabana, Colégio Metropolitano, Instituto Batista Americano e outros.

No seu amor ao trabalho e disposição de não poupar energias para colaborar na causa de Deus, exerceu diversos mandatos nas várias Juntas do campo batista carioca. Outrossim, montou uma pequena oficina gráfica, junto de sua residência, em que imprimia alguns periódicos regionais batistas e boletins semanais de muitas igrejas evangélicas, bem como alguns livros e revistas de caráter religioso.

Em 1932 o Prof. Arthur Lakschevitz casou-se com a jovem brasileira Iracema Fernandes, crente fiel da Igreja Presbiteriana do Rio, que Deus chamou à sua presença em março de 1975. Deste matrimônio nasceram dois filhos – Elza – pianista, organista, regente e professora, e Arthur Lakschevitz Jr.,, engenheiro altamente cotado no Centro Técnico da Aeronáutica de São José dos Campos. Ambos são casados e, com as respectivas famílias, pertencem a igrejas batistas. Ultimamente, já após a sua aposentadoria, os filhos honraram os pais construindo-lhes uma casa nos arredores da cidade de Nova Friburgo, no estilo europeu idealizado pelo Prof. Lakschevitz. Infelizmente D. Iracema desfrutou muito pouco deste presente dos filhos, pois a morte a colheu prematuramente. Com a mudança para Nova Friburgo, o maestro Arthur Lakschevitz filiou-se a uma das igrejas daquela cidade, onde permaneceu como membro até a sua morte. Por algum tempo chegou a ajudar o coral daquela igreja, mas a enfermidade não lhe permitiu uma participação mais eficiente e duradoura.

A morte do Prof. Arthur Lakschevitz ocorreu em 11 de setembro de 1980 no Rio de Janeiro, quando faltavam 5 meses e 8 dias para completar 80 anos de idade. O culto fúnebre foi realizado no santuário da igreja Batista de Itacuruçá, da qual havia sido membro no passado e à qual pertence a família de sua filha. Esteve presente um grande número de irmãos e amigos. Falaram os pastores: Hélcio Lessa, pastor da Igreja de Itacuruçá e dirigente do ato; Osvaldo Ronis, convidado para proferir a mensagem da ocasião; David Malta Nascimento. Silvino Neto e o pastor da Igreja Batista de Friburgo.

O conhecido Coral Excelsior, a 25 de outubro de 1980 dedicou toda a audição comemorativa do seu 31º aniversário à homenagem do maestro Arthur Lakschevitz, apresentada no santuário da Igreja Batista do Méier, Rio de Janeiro. A parte devocional do programa foi dirigida pelo Capelão do Coral, Pastor José dos Reis Pereira. O coral apresentou, magnificamente, onze hinos selecionados de COROS SACROS, sob a batuta do maestro Saulo Velasco. Falou sobre a vida e obra de Arthur Lakschevitz, o maestro Bill Ichter. Uma crônica tocante foi apresentada pelo poeta Mário Barreto França e Cilas Silva recitou com grande sensibilidade uma poesia.

A audição contou com a presença dos filhos do maestro homenageado e foi encerrada com uma oração de gratidão pelo Pastor Osvaldo Ronis.

Ao concluir este artigo de homenagem ao consagrado maestro Prof. Arthur Lakschevitz o qual, acredito, vale por uma contribuição modesta para a história da nossa Música Sacra, não posso deixar de reproduzir a letra do hino 48 de COROS SACROS II, da autoria do homenageado, que muito bem reflete a fé, a segurança e a alegria do seu coração crente, virtudes que conservou vivas durante toda a sua vida.

AO PORTO CHEGAREI
Bem perto estou a navegar da
margem do Jordão;
Por isso vou chegando em fim
isento do tufão.
CORO
Ao porto, além, chegarei,
salvo de todo mal;
Deus mesmo diz: Guiar-te-ei
ao lar celestial.

Oh, lar bendito de esplendor,
eu quero a ti chegar,
Findando as lutas e o labor,
não quero demorar!

Um pouco mais e chegarei ao
lar do eterno amor;
Descanso e paz então terei
junto ao meu Salvador.

“Bem aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem dos seus trabalhos, e as suas obras os sigam.” (Apoc. 14:13)

Pr. Osvaldo Ronis (In Memorian)

“Publicado originalmente em: “O Jornal Batista”, Ed. 12 , Março de 1981, pág. 12
© 1981 de Osvaldo Ronis – Usado com permissão da Família

O Pioneiro de Nossa Música Coral

Morreu o prof. Arthur Lackschevitz. Mas continua vivendo, e há de viver por muitos anos a sua influência no Brasil Batista.

Há certas pessoas cujos nomes estão intimamente ligados aos nomes de obras por eles publicados.

Quando se fala de Arthur Lakschevitz vem logo à mente o nome “Córos Sacros”, título da coleção de hinos por ele compilada com muito amor e sacrifício através de longos anos. Esta coleção saiu pela primeira vez em 1931, ainda hoje é vendida em grande quantidade. Hoje, a quase 50 anos depois é comum entrar em igrejas cujos coros ainda cantam muitos dos hinos contidos naquela coletânea.

É sinal da aprovação que os números ainda agradam e ainda prestam um grande serviço nos cultos de louvor nas Igrejas Evangélicas, pois não são somentes os Batistas que utilizam “Córos Sacros”.

Mas, se são as Igrejas Evangélicas de um modo geral, que usufruem da dedicação de Arthur Lackshevitz, são os Batistas brasileiros especificamente, que devem a este homem um voto de gratidão.

Foi ele o grande pioneiro da música sacra da Convenção Batista Brasileira.

Nascido na Letônia, no dia 19 de Fevereiro de 1901, Lakschevitz passou os seus primeiros anos naquele pequeno país, que muito tem contribuído para o desenvolvimento do trabalho batista no Brasil.

Iniciou sua carreira de músico aos 10 anos, quando, logo depois de ser batizado, aceitou a regência do coro da Igreja Batista local.

Com 22 anos veio para o Brasil no mesmo navio que trouxe o passageiro, o ainda mais jovem “Oswaldo Ronis”.

Os seus três primeiros anos no Brasil passou no Estado de São Paulo, mas em 1926, sentindo a necessidade de se aperfeiçoar no idioma português, matriculou-se no Colégio Batista no Rio de Janeiro.

São muitos os corais da igreja que ele dirigiu. Mencionamos somente dois deles. Por 14 anos dirigiu o coro da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro. Dirigiu também o coro da Igreja Batista Itacuruçá, onde tive a honra de sucedê-lo na regência.

Em 1931, quando saiu o primeiro volume de “Córos Sacros”, o irmão Arthur dirigia nada menos de cinco corais.

Tive também a honra de sucedê-lo no magistério da música sacra no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil.

Mas não pude sucedê-lo no grande amor que tinha para com a sua Pátria adotada e para com o ministério da música, à qual ele tanto se dedicava.

Foi um homem de infatigável energia. Tive a honra de servir com ele na Comissão de Música do 10º Congresso da Aliança Batista Mundial, comissão está liderada pelo pastor Oswaldo Ronis. A Comissão desenvolveu bem o seu trabalho, mas o principal responsável  pelo belo coral de 3.000 vozes que abrilhantou aquele memorável Congresso no Rio de Janeiro, foi o Prof. Arthur Lakschevitz. Acho que foram poucas as noites num período de quase dois anos que ele não estava dirigindo um ensaio em algum lugar.

Mas o seu amor à Causa não se prendeu só a música. Ele fez parte de várias juntas do campo carioca.

Foi professor, além do Seminário, no Colégio Batista Shepard, no Instituto Batista Americano e na Associação Cristã de Moços.

Foram muitas as Igrejas cujos boletins foram impressos na pequena oficina gráfica instalada no quintal da sua residência na Rua Sampaio Viana, no Rio de Janeiro.

O Prof. Lakschevitz casou-se em 1932 com a jovem brasileira Iracema Fernandes, que veio a falecer em 10 de Março de 1975.

Deixou o Prof. Lackschevitz dois filhos e 5 netos, os filhos são a Profª Elza Lakschevitz Xavier Assumpção, uma das mais brilhantes musicistas da nossa Denominação, e o Engenheiro Arthur Lackshevitz Júnior, casado com a Profª Nilce Silveira Lasckshevitz.

Seus netos são Eduardo e Maurício, filhos de Raul e Elza; Mário Celso, Cinthia e Flávia, filhos de Arthur Jr. e Nice.

Nós Batistas brasileiros temos uma grande dívida para com este dedicado servo de Deus. Pioneiro que desenvolveu um grande trabalho de amor. Sacrificou-se por que amou o que fazia.

O nome Lackschevitz será sempre sinônimo de música sacra na Denominação Batista Brasileira.

Bill H. Itcher

(Publicado em “O Jornal Batista”, 12 out 1980, p. 4).
© 1980 de Bill H. Itcher – Usado com permissão

 

 (1901-1980)

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3 Resultados

  1. Daniel Paes Cavalcante disse:

    Trabalhava na agência dos Correios, onde conheci um missionário norte americano, Sr. James. Não aceitou minha tentativa de meu inglês menos que fajuto. Aí vi o hinário “Coros Sacros” de Arthur e um sobrenome que não sabia o que era, Fazenda Varpa, Tupã. Gigantesco trabalho desse Servo de D’us.

  2. Mto Samuel Rosa da Costa disse:

    Sem sombra de duvidas, esse ilustre foi e continua sendo um icone da musica sacra e que muito colaborou para a expansao da musicalidade em todos os seguimentos Eclesiasticos. sou fa da colecao coro sacro, lindas cancoes e mensagens de conteudo inigualaveis.

  3. Samuel Rosa da Costa disse:

    Sem sombra de duvidas, esse ilustre foi e continua sendo um icone da musica sacra e que muito colaborou para a expansao da musicalidade em todos os seguimentos Eclesiasticos. sou fa da colecao coro sacro, lindas cancoes e mensagens de conteudo inigualaveis.

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